Gianluigi Buffon estava quase aposentado. A saída da Juventus havia sido definida, e era difícil, àquela altura, imaginá-lo com a camisa de outro clube. Por novas experiências e por ainda ter aquela sede dos melhores competidores do mundo, aceitou estender sua carreira por pelo menos mais um ano para defender o Paris Saint-Germain. E para realizar a maior ambição ainda não concretizada da sua carreira: conquistar a Champions League. Tudo isso para cometer um erro crasso no momento mais decisivo da temporada.

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É uma anomalia que um goleiro da estirpe de Buffon, sem dúvida um dos melhores da história, com anos de alto nível em um clube gigante, nunca tenha vencido a competição de clubes mais importante da Europa. A única explicação é que a Champions League adquiriu o prazer sádico de ser cruel com ele, como no desenho em que a garota prepara a bola de futebol americano para Charlie Brown chutar, mas a retira na hora do impacto e o garoto cai de bunda no chão. Ela o convence que, na próxima vez, será diferente. E ele acredita. E de novo cai de bunda no chão.

A primeira grande decepção foi, ironicamente, em Old Trafford. Ainda jovem – sim, acredite, Buffon um dia foi jovem -, fez uma defesa espetacular em cabeçada de Inzaghi no tempo normal e ajudou a garantir os pênaltis. Voou para defender a batida de Seedorf. Mas Birindelli errou. Barrou também o chute de Kaladze. Mas Zalayeta errou. E Paolo Montero errou. E o Milan foi campeão no lugar da Juventus.

O que acrescenta dramaticidade à história de Buffon na Champions League é que o fato de ele nunca tê-la conquistado deve-se muito a um ato de amor. Quando, em 2006, a Juventus foi rebaixada para a segunda divisão por causa do escândalo do Calciopoli, ele certamente encontraria outro clube que disputaria a competição europeia regularmente, com chances de título. Mas decidiu ficar. Decidiu que, em um momento tão difícil, deveria retribuir o que a Velha Senhora lhe havia proporcionado. “Este clube me ajudou a vencer e, se me tornei campeão do mundo, foi graças à Juventus. Eu posso lidar com um ano na segunda divisão”, afirmou, à época.

O problema é que, embora tenha sido realmente apenas um ano na primeira divisão, a queda desmontou o time da Juventus, que precisou de muito mais tempo do que isso para se reconstruir. Conseguiu disputar a Champions League novamente apenas em 2009/10, e, com um time de fato competitivo, apenas dois anos depois, quando caiu para o Bayern de Munique nas quartas de final. Nessa brincadeira, Buffon perdeu pelo menos seis oportunidades de realizar o seu sonho.

Já veterano, e, enfim, com um time à altura da história do clube de Turim, Buffon chegou à final de 2015, no mesmo estádio em que foi campeão do mundo pela Itália. Até fez uma defesa monumental em chute de Daniel Alves, mas a Juventus não foi páreo para o super time do Barcelona, com o desgosto de ter visto o rebote de sua defesa em bomba de Messi ter caído nos pés de Suárez. Dois anos depois, tentou de novo, e perdeu de novo, agora goleado pelo Real Madrid.

No ano seguinte, a Juventus reencontrou o Real Madrid, nas quartas de final, e perdeu o jogo de ida, em Turim, por 3 a 0. Estava, porém, alcançando o milagre no Bernabéu, devolvendo o mesmo placar e levando o jogo à prorrogação. Buffon havia contribuído com cinco defesas importantes. E aí, nos acréscimos, o árbitro deu um pênalti duvidoso de Benatia em Lucas Vázquez. O goleiro perdeu a cabeça e reclamou agressivamente com Michael Oliver.

Recebeu o cartão vermelho, que significava que sua história com a Champions League terminaria em expulsão, até ele aceitar mais uma investida com a camisa do PSG e falhar no chute de fora da área de Rashford que permitiu a Lukaku fazer 2 a 1 para o Manchester United. Teve a chance de se redimir nos minutos finais, quando o árbitro marcou pênalti de Kimpembe, por toque de mão. Se defendesse a cobrança, o erro anterior não teria peso. Mas Rashford cobrou de uma maneira que nem um super-homem como ele poderia impedir que a bola entrasse.

 

Buffon disse, dois anos atrás, que o pensamento de conquistar a Champions é o que o estimula a continuar jogando: “Senão, eu estaria vazio”. A obsessão é clara e compreensível. Ninguém chega ao nível de excelência que ele alcançou sem ter como objetivo o maior título que se pode conquistar com clubes europeus. Se ele não tentar de novo, se não jogar mais um ano, ficará um vazio no seu currículo. Será perpetuada uma injustiça histórica. Por isso, Champions League, se puder, se tiver a chance, pare de ser cruel com Buffon.