Dez anos antes, o Manchester United vivera uma cena de terror em Munique. O desastre aéreo ocorrido na volta do compromisso pela Copa dos Campeões, que garantira a classificação contra o Estrela Vermelha nas quartas de final, deixara marcas profundas no clube. Marcas nunca cicatrizadas. Pessoas morreram naquele voo frustrado, outras beiraram a morte. E por isso mesmo aquela noite em Wembley, dez anos e três meses depois, seria tão importante. Era o símbolo maior da reconstrução. Era o sinal do renascimento. Matt Busby, que recebera a extrema unção duas vezes, estaria no banco de reservas. Bobby Charlton e Bill Foulkes, outros dois sobreviventes, também permaneciam em campo. Os Red Devils, emblematicamente, poderiam conquistar a Champions pela primeira vez. Pois, diante de 92 mil torcedores em Londres, a história foi reescrita. Em 29 de maio de 1968, o United se coroou campeão europeu ao derrotar o Benfica por 4 a 1, numa final emocionante. Trouxe um novo marco à sua torcida, enfim pronta para substituir o luto pela festa.

Também esportivamente, o Manchester United atravessou momentos difíceis após o desastre de Munique. O clube até conseguiu terminar o Campeonato Inglês em uma inimaginável segunda colocação em 1958/59, mas o impacto das mortes seriam sentidos ao longo dos anos. Os Busby Babes perdiam alguns de seus talentos mais brilhantes, e o processo de renovação preveria campanhas modestas no Campeonato Inglês, beirando até o rebaixamento. Em 1962/63, cinco anos depois do desalento, os mancunianos conquistaram a Copa da Inglaterra, seu primeiro título desde então. Ao mesmo tempo, ficaram a três pontos da zona de descenso na liga. A reafirmação só aconteceria nas temporadas seguintes, entre novos protagonistas e bons resultados na competição nacional. Entre prodígios trazidos das outras nações britânicas e crias da casa, Busby voltou a perseguir seu maior desejo.

A espera para reconquistar o Campeonato Inglês durou sete anos. Em 1964/65, o Manchester United terminou a campanha com os mesmos 61 pontos do Leeds United, mas ficou com a taça graças ao goal average. Retornou à Copa dos Campeões pela primeira vez desde o sonho interrompido por Munique e pelo Milan, algoz dos sobreviventes nas semifinais de 1957/58. E o significado do torneio ia muito além do que se podia imaginar. Em tempos nos quais os ingleses ignoravam a Champions, Busby a bancou porque acreditava que a conquista europeia seria necessária para que o restante do continente admitisse o nível de excelência de seu time. Já depois tragédia, a competição se transformou em questão de honra, para demonstrar que o esforço de seus garotos não havia sido em vão.

Todavia, o desejo não se cumpriu em 1965/66. A campanha era louvável, especialmente pela goleada aplicada sobre o Benfica nas quartas de final – em show de George Best com os 5 a 1 de Lisboa, que o referendaram como um fenômeno continental. Mas, outra vez, os Red Devils ficaram a um passo da decisão. Acabaram eliminados nas semifinais pelo Partizan Belgrado, de infeliz coincidência quanto à origem do voo que fez escala em Munique. A nova chance, ao menos, não tardaria aos mancunianos. Em 1966/67, os comandados por Matt Busby faturaram a liga inglesa de novo, com um pouco mais de folga na primeira colocação.

Naquela conquista, apenas três dos sete jogadores que sobreviveram em Munique e continuaram atuando pelo United ainda faziam parte do elenco. O goleiro Harry Gregg, herói que salvara muitos de seus companheiros em meio à desolação, vinha perdendo espaço no grupo por conta das lesões e ocupava o banco de reservas. Deixaria o plantel ao final da temporada, sem participar outra vez da Champions. Bill Foulkes, que sofreu uma lesão na cabeça, mas saíra praticamente ileso do desastre, se mantinha como um dos esteios no sistema defensivo. Já o grande craque era Bobby Charlton. Dez anos antes, o garoto havia sido dado como morto em meio à neve, até ser resgatado por Gregg e recobrar a consciência pouco depois. Voltou para ser o fio condutor entre as duas equipes, o talento dos Busby Babes que, aos 30 anos, virou referência dos desbravadores da Europa.

A campanha do Manchester United na Copa dos Campeões de 1967/68 foi afirmativa, apesar de seus percalços. Começou com a goleada por 4 a 0 sobre o Hibernians, de Malta, com dois gols de Denis Law e outros dois de David Sadler. A classificação se confirmou com o empate por 0 a 0 no terrão do Estádio Empire, em Gzira. Na sequência, o Sarajevo surgiu como desafio nas oitavas de final, em mais uma viagem à Iugoslávia, que remetia a Munique. Após o empate sem gols na cidade bósnia, George Best e John Aston determinaram o triunfo por 2 a 1 em Manchester. Já nas quartas, o triunfo por 2 a 0 sobre o Górnik Zabrze em Old Trafford, com um tento de Brian Kidd aos 44 do segundo tempo, seria determinante. Na viagem à Polônia, os anfitriões venceriam por 1 a 0, mas o gol do artilheiro Wlodzimierz Lubanski não seria suficiente para atrapalhar os planos dos mancunianos.

Então, viriam as semifinais. Dois jogos de grande valor contra o Real Madrid, e não apenas por encarar a potência seis vezes campeã europeia. Os merengues marcavam o próprio passado doloroso do Manchester United, mas de uma maneira positiva. Em 1956/57, tinham sido eles os algozes na participação inédita dos Busby Babes pela Champions, com os espanhóis se impondo na semifinal. Foram duelos disputados, que aproximaram os dois clubes. Tanto é que, diante da tragédia de Munique, os blancos insistiram para que o United fosse proclamado campeão em 1957/58, algo que a Uefa não acatou. Também ofereceram seu troféu como tricampeões continentais aos ingleses, assim como o empréstimo de Alfredo Di Stéfano por três meses, o que a Football Association não permitiu. O verdadeiro auxílio seria financeiro. Os madridistas arrecadaram fundos através da venda de flâmulas especiais, em homenagem aos mortos no acidente. Além disso, as duas equipes disputaram quatro amistosos até 1961, com as bilheterias indo aos mancunianos. Receitas vitais para sustentar uma agremiação em dificuldades financeiras.

O Real Madrid era uma equipe bastante diferente em relação àqueles primeiros embates, embora Paco Gento permanecesse no ataque e o ex-capitão Miguel Múñoz tenha se tornado treinador. Em Old Trafford, porém, brilhou George Best. O irresistível ponta anotou o gol da vitória por 1 a 0, que dava uma importante vantagem aos Red Devils para o encontro em Chamartín, no Estádio Santiago Bernabéu. Só que, entre um jogo e outro, os ingleses precisaram lidar com seus entraves. Denis Law sofreu uma lesão e se tornou desfalque bastante sentido, artilheiro absoluto do ataque naquele período. Além disso, uma disputa desgastante com o Manchester City pelo título do Campeonato Inglês viu o lado vermelho da cidade amargar o vice-campeonato.

Os 15 minutos finais do primeiro tempo em Madri foram desastrosos ao Manchester United. Pirri, Gento e Amancio anotaram os gols do Real Madrid, embora um tento contra de Zoco mantivesse as esperanças dos mancunianos. Então, no intervalo, aconteceu um mítico discurso de Matt Busby. “Você podia sentir as lembranças de Munique em certos momentos da campanha, particularmente no intervalo das semifinais, quando perdíamos por 3 a 1. Era a maneira como Matt falou conosco e também Jimmy Murphy – tão fervente, como se trouxesse isso de Stretford End [o setor das arquibancadas onde a torcida é mais intensa em Old Trafford] para dentro dos vestiários. Busby não estava feliz com nossa atuação e disse que, se fizéssemos o próximo gol, ganharíamos”, declarou o meio-campista Pat Crerand, em entrevista à BBC.

O próprio Crerand participou da jogada do segundo gol, servindo Sadler a partir de uma cobrança de falta. Já o tento que valeu a inédita vaga na decisão aconteceu aos 35 minutos da etapa final. Jogadaça de Best para Bill Foulkes estufar as redes. Justamente ele, um dos sobreviventes de Munique. Justamente ele, em um de seus raros nove gols em quase 700 partidas pelo clube, mas que naquela ocasião demonstrou uma capacidade na definição digna do ausente Law. O empate por 3 a 3 confirmou o êxito. Bastante emocionado com a façanha, Bobby Charlton deixou o gramado sem se juntar à comemoração dos companheiros. Já na saída do estádio, o mítico presidente Santiago Bernabéu parabenizou os oponentes, relembrando toda a relação construída na década anterior: “Se tivéssemos que ser eliminados, que fosse por eles”.

Disputar a final em Wembley seria um prêmio tremendo ao Manchester United. Não era a chance apenas de conquistar o título diante de seu público, mas também de se tornar o primeiro clube inglês a dominar o continente. Denis Law seguia como um desfalque importante e sequer esteve no estádio, assistindo ao duelo na cama do hospital, após operar o joelho. Em campo, as responsabilidades se concentravam principalmente sobre Bobby Charlton, que assumia a braçadeira de capitão na ausência do escocês. O adversário na decisão, afinal, era um velho conhecido dos mancunianos. O Benfica de Eusébio e Coluna, que haviam eliminado dois anos antes.

A partida em Wembley desencadeou uma comoção nacional. O sonho perseguido por Matt Busby desde os anos 1950 estava próximo do fim e, obviamente, todos desejavam assistir à partida. Embora os números oficiais falem sobre 92 mil em Wembley, os relatos são de que mais de 100 mil torcedores estiveram no estádio durante aquele 29 de maio. Caravanas de ônibus saíam de Manchester rumo a Londres, aclamados por aficionados de outros clubes durante o percurso. E quem não conseguiu ingressos, não desgrudaria da TV. A Associação de Professores do Reino Unido chegou a emitir uma nota dizendo que os alunos que faltassem a aula para ver a decisão seriam tratados como “cabuladores”, em tempos nos quais as punições físicas eram permitidas no país. Não que tenha adiantado muito. A audiência da final superou as dezenas de milhões de telespectadores, 250 milhões em toda a Europa, a maior desde a Copa de 1966.

“Matt Busby, em particular, teria visto aquilo como uma confirmação final sobre as decisões que foram tomadas nos anos 1950, sobretudo depois do que aconteceu em Munique. Ninguém deu um tapinha nas costas dele e disse que jogar a Champions era uma grande ideia. Na verdade, era o oposto”, reconta David Sadler, outro dos jogadores presentes na conquista.

A glória parecia destinada ao Manchester United quando, aos oito minutos do segundo tempo, uma cabeçada de Bobby Charlton concedeu a vantagem aos ingleses. Soava como um belo presente do destino, ao capitão ocasional e sobrevivente da tragédia. Contudo, o Benfica empatou aos 34, com Jaime Graça. E poderia ter matado o jogo quando Eusébio se livrou na marcação implacável de Nobby Stiles, saindo de frente para o gol. No mano a mano, o goleiro Alex Stepney fez uma defesa fundamental e forçou a prorrogação. O cansaço era evidente aos Red Devils, ainda mais encarando um adversário tão físico quanto os encarnados. A história, apesar disso, seria afável com o Matt Busby.

Logo aos dois minutos do tempo extra, Best desequilibrou o jogo para o Manchester United, botando os ingleses novamente em vantagem. Com mais dois minutos no relógio, o garoto Brian Kidd, em seu aniversário de 19 anos, ampliou a diferença a favor dos mancunianos. Por fim, coube a Bobby Charlton encerrar o triunfo com o placar de 4 a 1. Ponto final escrito pela referência em todos aqueles anos de reconstrução, que ainda teria o gosto de erguer a taça como capitão. Bill Foulkes seria outro a representar tal epopeia. Já Harry Gregg, que deixara o time na temporada anterior, era o convidado de honra nas tribunas de Wembley, ao lado dos pais dos demais jogadores que faleceram em Munique e de outros sobreviventes. A emoção tomava conta, sobretudo de Matt Busby, que renegou suas extremas unções e muito mais para desfrutar aquele instante de êxtase.

“Ninguém no United falava sobre 1958 e Munique. Parecia um tabu. Os torcedores seguiam chocados e muitos no staff eram próximos aos que faleceram. Mas do nosso lado estavam Bobby e Bill Foulkes, e obviamente Matt era o técnico. A sensação estava lá, dentro de nós, e quando chegamos à final sabíamos que provavelmente seria a última chance de Matt. Então, quando vencemos, as emoções tomaram conta. Normalmente você vai ao jogador mais próximo para comemorar, mas a maioria de nós seguiu até Bobby e Bill. Não era nada planejado, acho que o subconsciente fez com que todos pensassem daquela maneira. Nós também pensávamos nos pais dos rapazes que morreram, porque sabíamos que estavam no estádio. Por fim, Matt saiu correndo ao gramado”, escreveu o goleiro Stepney, ao Guardian.

“Para ser honesto, não posso dizer precisamente o que sentia no momento. Cansaço, certamente. Eu me lembro o que significava abraçar companheiros como Bill Foulkes, Nobby Stiles e Shay Brennan, que estiveram envolvidos por tanto tempo – e especialmente Bill, porque, como eu, estivera naquela pista nevada e viu nosso time, nossos amigos, serem dizimados. Sei que havia um entendimento de que algo havia se encerrado, algo que dominara nossas vidas por tanto tempo. Eu caminhei aos vestiários e virei duas garrafas de cerveja rapidamente, uma depois da outra”, relata Bobby Charlton, em sua biografia.

Fardo compartilhado por Bill Foulkes, como recontou em entrevista ao Independent: “Na noite anterior à final, tivemos um encontro com os líderes do time e concordamos que teríamos que vencer o título por aqueles que morreram. Quando ganhamos, senti uma tristeza dentro de mim. Meus pensamentos estavam com os rapazes que morreram em Munique”.

Já o próprio Matt Busby, como alguém que se esquecesse do milagre de ainda estar vivo depois de tudo o que ocorreu na Baviera, apontou: “Eles nos deixaram orgulhosos. Eles vieram com todo coração para mostrar do que o Manchester United é feito. Essa é a coisa mais maravilhosa que já aconteceu na minha vida e sou o homem mais orgulhoso da Inglaterra nesta noite”.

Matt Busby se tornou “sir” meses depois da conquista. Era o reconhecimento total por sua contribuição não apenas ao futebol inglês, mas também por seu trabalho de reconstrução e pela honra que rendeu além da ilha. E os ingleses estreitariam sua relação com a Champions depois disso, especialmente a partir da década de 1970, quando o Liverpool de Bob Paisley e o Nottingham Forest de Brian Clough iniciaram suas dinastias continentais. Antes recriminados, os torneios europeus acabaram se tornando um selo cabal aos maiores técnicos da história da Grã-Bretanha – algo que, de certa forma, também aconteceu a Bill Shankly e seu sucesso na Copa da Uefa.

George Best terminou o ano de 1968 conquistando a Bola de Ouro, como melhor jogador da Europa. Bobby Charlton, por sua vez, sacramentou sua posição como o maior ídolo da história do Manchester United – o que ainda merece sustentar, independentemente de quem o tenha sucedido. O ápice, de qualquer forma, também marcou o declínio posterior dos Red Devils, que iniciariam uma seca de títulos a partir daquela temporada histórica. Pelo que se concretizara em Wembley, ainda assim, o sonho se dava por completo.

“Por dias, antes da final contra o Benfica, Matt Busby relembrou o significado do jogo, o legado de Munique e como seus garotos haviam morrido em busca deste troféu. Muitas pessoas acreditavam que aquela noite era para ele e sobre ele, então se tornou natural que todos quisessem tocá-lo ao final do jogo. Quando cheguei ao velho, uma multidão, incluindo torcedores, estava o cercando”, recorda Bobby Charlton. “Aquela vitória ajudou Matt. Era o seu time, seus rapazes que morreram. O título permitiu que ele lidasse com isso de uma maneira um pouco mais fácil. Acho que ele podia se sentir mais feliz, porque sofria com a falta dos jogadores mais do que qualquer um dentro do clube. Ele se sentia responsável. O United era uma família e ele era o pai, então você pode imaginar como a tragédia o afetou mais do que qualquer outro”.

Matt Busby seguiu à frente do Manchester United até 1969, antes de um breve retorno entre 1970 e 1971. Manteve-se ligado ao clube até sua morte, em 1994. Já em 1999, a data que marcaria seu aniversário de 90 anos foi comemorada por todos os torcedores. Naquele 26 de maio, contra um adversário de Munique, em uma virada emocionante no Camp Nou, os Red Devils reconquistaram a Champions depois de 31 anos. Destino.

PS: Vale conferir também o texto do amigo Emmanuel do Valle no It’s A Goal, recontando detalhes da conquista do Manchester United.