Todos os atleticanos se lembram de 24 de julho de 2013 com detalhes. Lembram de cada passo que deram no dia, cada conversa, o que pensaram a cada minuto, do momento em que acordaram até Réver erguer o troféu da Libertadores, já na madrugada do dia 25. Por isso, cada pessoa tem suas histórias sobre o dia da maior glória alvinegra.

Bem, eu não sou atleticano, mas estava em Belo Horizonte para cobrir o jogo e também registrei alguns causos. Peguei as melhores para retratar um pouco melhor o que foi aquele dia na capital mineira. Mas, se você tem alguma história boa, conte. Mesmo se for um cruzeirense querendo protestar.

Tem um paraguaio na minha sopa

O Atlético Mineiro liberou 1,5 mil ingessos para a torcida do Olimpia no jogo de volta da final da Libertadores. Parecia haver mais que isso no setor visitante do Mineirão, mas é uma impressão visual não-científica. De qualquer forma, havia muito mais de 1,5 mil paraguaios em Belo Horizonte.

Eles eram figuras constantes em restaurantes, shoppings, lojas, hoteis. Não havia como ignorar a presença da torcida do Olimpia como personagem da vida belo-horizontina nos dias mais importantes da história atleticana. Eles ajudavam a lembrar que o Atlético faria uma decisão de um torneio especial, enfrentando uma grande equipe, com uma torcida realmente dedicada.

Centenas, talvez milhares, de olimpistas foram à BH apenas para sentir o clima do jogo, talvez dar uma força a seu time nos treinos, pois não teriam ingresso no Mineirão. E ficaram em restaurantes e bares da capital mineira na noite de quarta, vendo o jogo pela TV como mostra a foto acima. Uma dedicação notável de uma torcida que dignificou a história de um dos clubes mais vitoriosos da América do Sul.

PS.: o título desse tópico foi inspirado nessa tirinha de Ziraldo, publicada no dia seguinte à invasão corintiana na semifinal do Brasileirão de 1976 contra o Fluminense. Ainda que a presença paraguaia na capital mineira não possa ser chamada de invasão.

Filosofia profunda no ônibus

Ir ao Mineirão de ônibus rendeu uma reportagem, mas a melhor parte eu guardei para esse texto. A conversa entre dois atleticanos durante o caminho foi um primor do que há de melhor na filosofia de arquibancada. O ponto alto foi quando comentaram a elitização do estádio:

Torcedor 1: Lembra quando a gente conseguia ir para o Mineirão com R$ 20, pagando ingresso, picolé, cerveja, tropeiro e ainda sobrava para o busão da volta?

Torcedor 2: Lembro. Isso nunca mais vai existir. Agora ingresso é 500 contos! Onde já se viu?

Torcedor 1: Só tem rico no estádio hoje. E sabe quando a gente percebe isso? Quando tem uma chance de gol perdida.

Torcedor 2: Como assim?

Torcedor 1: É só ouvir o que acontece quando tem aquela bola que passa raspando na trave. Na época que o estádio era com torcida de verdade, que sentia o jogo, que vibrava com o jogo, a gente ouvia aquele “uuuuuuhhhhhh” abafado, já botando pressão. Hoje, quando a bola passa perto, só ouvimos um monte de gritinho “aaaahhhh” histérico. Nenhum time vai ter medo de uma torcida que dá gritinho histérico.

Convenhamos, isso não é genial?

Nunca abandonem o tropeiro

Crianças se divertem com pouco. Uma cena diferente, um gesto inesperado, um brinquedo tosco que ela não conhecia já é capaz de fazê-la gargalhar loucamente. E, sejamos honestos, nós adultos somos iguais. Há coisas que, sem motivo aparente, nos fazem sentir que ganhamos o dia. Esse fui eu após comer o tropeiro do Mineirão pela primeira vez na última quarta.

É tão bom quanto o do restaurante? Não, não chega nem perto. A couve é escassa e cortada muito fina para ficar com sabor marcante. A bisteca também não é tão atraente. Segundo alguns torcedores (incluindo os filósofos de dois tópicos acima), o tropeiro atual é pior que o do velho Mineirão. Não importa. É muito melhor que qualquer comida de estádio no Brasil. Mais que isso, aquilo é uma instituição cultural em forma de comida, e o novo Mineirão só merecerá carregar o mesmo nome do antigo enquanto servir um tropeiro.

Tropeiro do Mineirão (Trivela/Ubiratan Leal)
Tropeiro do Mineirão (Trivela/Ubiratan Leal)

O som do Mineirão

Já estive em vários estádios pelo Brasil e até no exterior, inclusive em La Bombonera lotada. Não me lembro de ter ouvido um barulho tão grande em um estádio como minutos antes de Atlético x Olimpia, quando a torcida do Galo começou a cantar o hino do clube enquanto balançava bandeiras de plásticos que haviam sido distribuídas.

Foi uma festa tão impressionante que, imediatamente, a tribuna de imprensa mudou. Os jornalistas se impressionaram tanto que levantaram e começaram a registrar o que acontecia nas arquibancadas com seus celulares, querendo guardar aquele momento diferente. Eu mesmo tentei fazer isso, mas me enrolei com a câmera, perdi o melhor momento e me contentei em fotografar os jornalistas fotografando a torcida. Só não publico aqui por que posso ter registrado algum colega que prefere discrição nesse assunto.

PS.: de qualquer modo, fica um comentário crítico à torcida do Galo. A festa foi maravilhosa, mas ela se calou em alguns momentos em que o Olimpia esteve perto do gol. Não fez falta, mas um jogo como aquele é para cantar e gritar ainda mais forte quando a coisa aperta.

De BH a São Paulo pela rodovia Hernán Díaz

A viagem do blogueiro que vos escreve para Minas Gerais foi por terra. E o retorno a São Paulo também. E nem nesse momento foi possível esquecer a final da Libertadores. Dos milhares de paraguaios que foram a Belo Horizonte, uma boa parcela foi de ônibus. E, em qualquer parada da Fernão Dias, lá estavam eles: os torcedores do Olimpia. Por um momento, a rodovia parecia estar no Paraguai.

Estavam tristes pela derrota, ainda mais após uma viagem tão longa e desgastante, mas não estavam amargos. Brincavam imitando os cantos da torcida do Atlético e cornetavam o próprio time quando a TV do restaurante da estrada mostrava lances da partida. Em seguida, voltavam ao ônibus e encaravam mais horas e horas de estrada.