Alguns acontecimentos recentes do futebol brasileiro mexeram muito com o que pode ser o seu futuro. A briga entre Globo e Flamengo pelos direitos do Campeonato Carioca pode, na verdade, ter consequências muito maiores do que restritos aos limites fluminenses. A disputa judicial coloca um holofote sobre o quanto vale o estadual e o que será feito dele nos próximos anos, algo central no sistema de poder do futebol brasileiro e que gera um dos maiores problemas, o calendário congestionado.

Vamos começar do começo. O Flamengo fez uso de uma mudança da Lei Pelé, feita via Medida Provisória nº 984, para transmitir seu jogo contra o Boavista, na quarta. O jogo era irrelevante, mas a atitude não. A Globo reagiu e, na quinta-feira pela manhã, decidiu rescindir o contrato e não transmitir mais o Campeonato Carioca, em nenhuma plataforma – mas mantendo o pagamento dos valores relativos a ele, integralmente. Uma atitude forte da emissora carioca, mas que tem algum sentido.

Na visão da Globo, o Flamengo usou a MP 984/20 de forma irregular, porque afeta diretamente um dos times em campo, o Boavista, que tinha um contrato prévio que incluía todos seus jogos, inclusive aqueles como visitantes, porque foi celebrado na vigência anterior da Lei Pelé. Ou seja: o Flamengo não tem contrato com a Globo e, portanto, poderia aproveitar a mudança da lei, mas o Boavista já tinha um contrato celebrado e, portanto, a Globo tinha direito ao jogo. Assim, as partidas do Flamengo não poderiam ser transmitidas por ninguém, uma vez que a emissora já tinha contrato com os outros demais 11 clubes, com exclusividade, enquanto não houver um acordo entre o rubro-negro e Globo.

Até o dia 18 de junho, data da publicação da MP 984/20, só era possível transmitir um jogo se a empresa tivesse contrato com os dois clubes em campo. E, portanto, ao transmitir o jogo, o Flamengo aplicou uma lei atual sobre um contrato celebrado anteriormente, o que fere a segurança jurídica de um contrato perfeito, segundo liminar conseguida pela Globo ainda na quinta. A liminar proibiu a exibição dos jogos de clubes com contrato com a Globo sem a anuência da emissora e ainda estabeleceu R$ 2 milhões de multa, caso isso acontecesse.

A rescisão de contrato da Globo significa que a emissora não irá mais transmitir o Campeonato Carioca 2020, mas não necessariamente que ninguém o fará. A emissora informou que pagará os valores relativos ao torneio, mesmo que ela tenha decidido não mais transmitir. O Vasco, na noite de quinta, transmitiu a sua partida no seu canal, a Vasco TV, no Youtube. Pode ser uma tendência para os próximos jogos. Pode ser uma estratégia para já, mas e a longo prazo?

Sem contrato com a Globo, o Campeonato Carioca 2021 (e todos dali em diante) estão para quem quiser comprar. E quem comprará? O contrato da Globo em 2020 pagou R$ 18 milhões aos clubes grandes, algo em torno de R$ 1 milhão por jogo para esses times. No total, a Globo gasta R$ 120 milhões por ano pelo Carioca, desde o contrato firmado em 2016. A própria emissora carioca já achava o valor alto.

O presidente do Bahia, Guilherme Bellintani disse isso no seu Twitter, também na quinta: “A retirada dos investimentos nos estaduais é desejo antigo da Globo, que agora parece ter encontrado o momento certo. Confirmado o Carioca, faltará o Paulista. Os demais já estavam com desinvestimento programado. Que bom viver isso, mesmo de um jeito atravessado”, escreveu o dirigente.

Bellintani foi ainda mais duro ao comentar sobre a chance de chutar os estaduais para longe. “A chance é única. Não é razoável que os clubes mantenham zumbis esportivos e comerciais em nome de um dinheirinho de curto prazo. Talvez nós, clubes, tenhamos que agradecer à Globo mais adiante por fazer esse movimento. Cultuar zumbis esportivos é sermos zumbis esportivos”, continuou o presidente do Bahia.

“Com calendário 2020 invadindo 2021, é o momento de transformarmos os estaduais em competições de acesso para os clubes pequenos e de revelação de atletas para médios/grandes. Bahia e Vitória já decidiram que jogarão Baiano só com jovens que precisam mostrar talento”.

“Alguns clubes brasileiros sonham em se tornar globais jogando estaduais. É como o Barcelona jogar o campeonato da Catalunha. Quando um clube usa time reserva no Brasileiro para jogar Libertadores ele faz isso porque jogou o Estadual. Algo parece estar fora da ordem há muito tempo”.

“Um Brasileirão de 9 meses com pré-temporada de 40 dias deixaria tudo melhor. E eu troco fácil um título estadual por 3 pontos a mais no Brasileirão, em vez de precisar poupar titular. Clubes nacionais nunca serão mundiais jogando estaduais”, disse o dirigente. “Essa crise não é só da MP 984/20. É dificuldade da TV manter produtos de pé, é retração de anunciantes, é falta de liquidez dos clubes, é excesso de jogos. Mas é também oportunidade. Por trás da imprevisibilidade há uma ordem. O Caos não é necessariamente algo ruim. O Caos anima”.

Bellintani tem razão no que fala, mas isso é muito mais um desejo do que uma realidade. Há um longo caminho pela frente para que isso tudo isso que ele escreveu aconteça. A começar pelo que o próprio dirigente citou, o Campeonato Paulista, que tem contrato até 2024 – e pelo qual a Globo paga em torno de R$ 176 milhões. É o estadual mais caro, que paga mais aos clubes, e por mais que a Globo também veja pouco valor no torneio, é uma questão a ser resolvida.

Mais do que isso: há uma questão política que é muito intrincada. Federações estaduais não aceitarão passivamente que seus torneios percam ainda mais importância, ou mesmo que se tornem o que deveriam ser, torneios de acesso aos níveis nacionais. Quem pode enfrentar isso? Os clubes, principalmente, que são os que têm força para tanto. É aqui que a porca torce o rabo, como diz o ditado popular. Os clubes nunca mostraram disposição de comprar essa briga. E a CBF tende a ficar ao lado das federações, que são a sua base eleitoral. A ruptura é possível, mas é preciso que os clubes estejam dispostos. E ainda não parece o caso. Ainda.

O presidente do Bahia já falou em 2019 que há uma ideia partilhada entre clubes do Nordeste que querem que o Campeonato Brasileiro comece antes, no lugar dos Estaduais, estendendo pelo ano inteiro. Para os grandes clubes nordestinos, o estadual é um prejuízo. Clubes como Bahia, Vitória, Sport, Fortaleza ou Ceará, por exemplo, se beneficiam pouco ou quase nada com os estaduais. Exceto pela chance de levantar um troféu, que é uma glória esportiva e que, sim, dá algum alento aos dirigentes, financeiramente é algo muito ruim. E mesmo esportivamente, o valor tem diminuído ao longo do tempo.

Tudo isso contribui para que os clubes comecem a formar um bloco que articule por essa mudança. A Globo é a favor dessa mudança, porque isso a beneficiaria: a venda do pay per view do campeonato, o Premiere, cai muito após o fim do Brasileirão, em dezembro. Como os quatro primeiros meses do ano são de estaduais, que geram menos interesse, muitos preferem economizar ao menos quatro mensalidades para só voltar a assinar em maio, quando recomeça o Campeonato Brasileiro.

Manter uma receita mais constante ao longo do ano seria benéfico. O pay per view é uma receita importante para os clubes e se ele pára por ao menos quatro meses no ano, as receitas caem. Os estaduais pagam pouco, mas um Brasileirão que começasse cedo já começaria também dando receita aos clubes. Mais do que isso: daria mais atenção, repercussão, o que torna melhor para atrair patrocinadores e jogadores, por exemplo.

Há um cenário favorável a uma mudança. Como citou Paulo Vinícius Coelho, no Globoesporte.com, pode ser o início do fim dos estaduais. Além do presidente do Bahia, o do Grêmio também acredita nisso. Os contratos de estaduais como Gaúcho, Mineiro e Baiano terminam em 2021. É difícil imaginar que, em um cenário como esse, a Globo renovará. E quem quiser comprar, deve pagar menos, se é que o fará. O cenário, de fato, está posto e é favorável a uma ruptura, uma mudança importante. Mas como diz Galvão Bueno, chegar é uma coisa, ultrapassar é outra.

Aqui é onde começa a parte difícil. Se os estaduais, que já sangravam nos últimos anos, em vários sentidos, de fato morrem, os clubes precisam organizar um Campeonato Brasileiro muito melhor do que o atual. Mais bem pensado, mais bem produzido e que seja melhor, como produto. Como citado pelo presidente do Bahia, não há qualquer sentido em ter clubes poupando times inteiros no Brasileiro para jogarem na Libertadores. O calendário insano, com estaduais como estavam, criam isso. Sem eles, é possível pensar em um Brasileirão o ano todo, respeitando as datas Fifa e sem precisar chegar em 80 jogos por ano para os clubes maiores.

Por outro lado, há um ponto crucial nisso. A morte dos estaduais como conhecemos precisa significar um renascimento deles em outro formato, só para os clubes pequenos ou sem divisão, que tenham um calendário de ao menos nove meses, para que consigam operar. O dinheiro de TV hoje financia os estaduais, mas precisará haver outro tipo de financiamento. As federações devem ser garantidoras destes torneios, que precisam fomentar rivalidades locais e buscar patrocínios locais também. É um absurdo que clubes fiquem cinco, seis, sete meses sem jogar, como acontece atualmente. Não há sobrevivência possível aos pequenos assim.

Será preciso também reformular a Série C e a Série D, que atualmente não funcionam como torneios de calendário anual. Além disso, há diversos problemas de organização que precisam ser resolvidos. A Série C e a Série D precisam ser melhor calendarizadas, bem organizadas e espalhadas ao longo do ano. Não dá para um clube jogar por dois meses uma fase de grupos e depois, eliminado, não ter mais o que fazer no ano.

Por isso, o cenário é propício para mudança, mas o passo a ser dado é grande e precisa de uma coordenação dos clubes que não há desde ao menos 1987, quando foi criado o Clube dos 13 – e que se deteriorou ao longo do tempo até a sua implosão por mesquinharia em 2011. Será preciso uma articulação com as federações e com a CBF, contando com a boa vontade de todos. Difícil acreditar nisso, não é?

Mas há motivos também para acreditar que alguma mudança terá que ser feita. Uma delas é que a Globo é a principal financiadora do futebol brasileiro, é a emissora com mais capacidade de transmitir e quem melhor pode pagar os clubes, mesmo no atual cenário. A emissora tem a capacidade de articulação que os clubes não têm para organizar, por exemplo, uma negociação coletiva de direitos de transmissão, algo que ela mesma ajudou a destruir em 2011 (como contamos no texto sobre o Clube dos 13).

A emissora carioca tem também força para mostrar que os estaduais não valem muito e que o Brasileirão vale mais se for disputado por todo o ano, ou quase todo. Além de articulação política para influenciar em uma discussão pública sobre a MP 984/20 no Congresso Nacional, inclusive debatendo isso nas suas plataformas. Como, aliás, tem acontecido em vários veículos de imprensa. É preciso discutir a MP e o que será feito dela de forma ampla – e por isso que a MP soou estranha e mais uma manobra política do que uma tentativa de discutir o melhor. Mas agora que ela foi feita, é preciso que a discussão seja ampla antes de aceitá-la, modificá-la ou rejeitá-la.

Além disso, os clubes cariocas, que antes ficavam no mesmo clube que os paulistas por terem um estadual ainda lucrativo, podem se unir a muitos outros clubes pelo país que já sabem que o estadual é prejuízo. Talvez alguns só percebam em 2021, quando o dinheiro oferecido pelo Carioca for muito menor do que o atual. Eventualmente, irão perceber. E unidos, os clubes podem querer um Brasileirão mais forte, para que todos possam ganhar mais. É o óbvio e é o que fazem as melhores ligas do mundo. E o Brasileirão precisa estar entre elas.

Há um imenso potencial para isso. Todos nós sabemos disso. Mas pra isso, é preciso trabalhar, e muito, para tornar isso tudo possível. Até os anos 1990, o Campeonato Inglês era visto só como a terra do Kick and Rush, do chutão e cruzamento. Havia algum glamour, mas longe de ligas como a Serie A, da Itália, ou La Liga, na Espanha, e mesmo que a Bundesliga. A Premier League se tornou a mais badalada do mundo porque trabalhou muito, com os clubes trabalhando juntos, como liga. Será possível algo assim no Brasil? Parece distante, mas o cenário está posto. Veremos se a oportunidade será aproveitada.

Esse também foi assunto do nosso podcast Trivela #284: