O gol dúbio do Grêmio contra o São Paulo, atual bicampeão brasileiro, no chuvoso Olímpico do último domingo, teve vários significados além da distância de onze pontos entre os dois tricolores. A bola que Perea desviou para a rede de Rogério Ceni entregou ao time gaúcho, ainda que com uma rodada de atraso, o reconhecimento de todas as outras torcidas quanto ao merecimento que têm o líder de ocupar sua posição na tabela.

Algum torcedor gaúcho não-colorado dirá que se trata de preconceito, perseguição, bairrismo e variações, mas o fato é que mesmo mantendo a ponta por quase toda a primeira parte do Brasileiro, ninguém, além dele, achava que não se tratasse de uma “sorte”. “Mais cedo ou mais tarde, o Grêmio sai da ponta e o Celso Roth é demitido” era a sensação silenciosa – ou não – em relação ao líder.

A desconfiança, ao contrário do que possa parecer, não tem nada de “bairrista”. Em primeiríssimo lugar está a maciça antipatia que o técnico Celso Roth tem no Brasil. Tendo a palavra “retranca” embutida em seu nome, o treinador é um daqueles personagens de quem todos parecem ter raiva sem que haja um motivo concreto. “Ah, mas ele não é um grande técnico”, pode argumentar alguém, esquecendo-se que no Brasil, não é que haja uma lista imensa de opções. Hoje com uma liderança absoluta, o torcedor gremista pode até eventualmente fingir que não, mas até no Olímpico, Celso Roth, já na liderança do campeonato, era contestado.

Outros fatores influenciavam na desconfiança da capacidade do Grêmio de se manter na frente. Algumas delas bastante sólidas, como a capacidade de reação do atual bicampeão São Paulo, a “mística” de Luxemburgo em campeonatos brasileiros (que, aparentemente, ainda não deu as caras) ou a organização do Cruzeiro.

Outros motivos que levavam à descrença no Grêmio já eram mais emotivos ou oportunistas, como o “melhor elenco do Brasil” do Internacional, a “força da torcida e a nova estrutura” do Flamengo ou argumentos momentâneos como a força do Fluminense (antes de perder a Libertadores), a surpresa do Sport (depois da final da Copa do Brasil) e assim por diante.

Celso Roth está longe de ser um gênio – isso é um fato. Mas também é um fato que no seu elenco, nenhum dos jogadores chega a ser um craque – mesmo com vários bons jogadores. Assim sendo, tirar dele o mérito da liderança é pura rabugice.

O Grêmio deste Brasileiro começa onde qualquer time campeão começa – uma boa defesa. No meio-campo que enfrentou o São Paulo no Olímpico, por exemplo, mesmo Tcheco, considerado o articulador do setor, tem incumbências defensivas. E mantendo-se fiel ao estilo gaúcho, o ataque atua com um homem de referência, que se bate nos zagueiros (Marcel) e um excelente jogador mais versátil (Perea).

Até vencer o São Paulo no Olímpico, era possível esperar que o bicampeão tivesse condições de uma sensacional recuperação. O sucesso dos gaúchos – o segundo no Brasileiro – elimina as dúvidas sobre qual time é mais forte no torneio até aqui. O resultado deve ter realinhado as metas de um bom São Paulo (mas ainda com um banco muito jovem), o que não é demérito nenhum. Agora, salvo recuperações dignas de filme vindas do Morumbi, Celso Roth tem de pensar é em controlar o Cruzeiro. E pensar em como vai querer que seus detratores o engulam em dezembro.

Mas e o Palmeiras?

Uma indagação pertinente diante do texto acima é: o Palmeiras, então, não tem chance de lutar pelo título? Afinal, está sete pontos atrás do Grêmio, com 18 jogos por fazer, Vanderlei Luxemburgo e um patrocinador com capacidade de reforçar o time. E aí?

Aí que, mesmo tendo ganhado de um ótimo Coritiba em casa, o Palmeiras permanece sem se impor no torneio em nenhum momento. Sim, é um time com um elenco grande, técnico competente, dinheiro, etc. Mas em que momento, até aqui, salvo patriotadas de imprensa local, o time do Palestra fez três ou quatro partidas em que tenha dominado completamente o adversário?

A força da empresa que compra jogadores ao Palmeiras e a alta rotatividade do elenco criam no grupo uma sensação de que ninguém está ali por muito tempo. O excelente Henrique mal deixou sua marca no clube e já seguiu para a Europa. Valdivia, teoricamente o grande nome do time, foi vendido sem cerimônia. E basicamente todos os bons jogadores do grupo vivem com alguma proposta nas suas mesas. Todo time no Brasil sabe que vai perder alguns nomes no decorrer do torneio, mas o Palmeiras exagera, lembrando o Cruzeiro de um passado recente, que foi apelidado de “Lojinha dos Perrela”.

Além disso, nem com toda sua competência, Luxemburgo teve capacidade de, até agora, moldar uma defesa minimamente decente. A dupla de zaga, Jéci-Gladstone, tem falhas básicas (de posicionamento e de fundamentos) especialmente quando joga fora de casa. Apesar de bons jogadores de criação e conclusão, quando defende, mesmo contra times menores, o Palmeiras parece um time médio. Sem alcançar o padrão de qualidade defensiva do Grêmio, uma reação palmeirense depende exclusivamente de sorte.