Taison, Lukaku, Balotelli e Mendes Moreira, do Excelsior, são apenas algumas das vítimas de racismo no futebol europeu nas últimas semanas. Os casos se multiplicam, e a reação de quem deveria combater o preconceito continua sendo mais forte no discurso do que nas ações. Em entrevista exclusiva ao Daily Mirror, o presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, disse que nem todas as críticas são justas, mas admitiu que sua entidade precisa fazer mais.

“Eu não culpo os jogadores pelo que eles dizem. Entendo que eles estão desesperados por causa das punições aos incidentes que estão acontecendo uma vez atrás da outra. Claro que vocês querem dizer (à Uefa): ‘Vá para o inferno!’. Eu sei. Mas não sou inocente de achar que fizemos de tudo e agora tudo acabou. Não fizemos. Estamos tentando e nós nos importamos. Não somos apenas uns caras em Nyon comendo comida chique e dirigindo Ferraris”, afirmou.

Ceferin confessou que subestimou a magnitude do problema do racismo no futebol europeu quando assumiu a Uefa. “A situação na Europa está mais e mais tensa e a situação fora da Europa também”, disse. “Estamos prontos para ouvir as críticas. Todas as semanas há alguma coisa. Toda maldita semana ouvimos que alguma merda aconteceu na Europa. E falamos. Eu recentemente fui à União Europeia. Conversei com os governos. Estamos tentando fazer alguma coisa”.

Muitas críticas foram feitas à Uefa pela maneira como o incidente de racismo de torcedores búlgaros contra jogadores ingleses, pelas Eliminatórias da Eurocopa, foi conduzido. Em parte, ao protocolo em três passos, que prevê dois avisos pelos alto-falantes do estádio antes de a partida ser cancelada, e em parte pela branda punição de € 75 mil de multa e dois jogos com portões fechados.

“Com todo o respeito, com essas questões, não há saída. O treinador da seleção inglesa e alguns dos jogadores elogiaram o protocolo de três passos. O que podemos fazer? Ouvir e dizer: ‘A partida terminou, não jogamos mais naquele país’? Você não resolve problemas dessa maneira. É um passo grande pra ser dado e, se todas as vezes que fizermos algo, as pessoas disserem: ‘Vocês não estão fazendo nada!’, como podemos melhorar?”, questionou.

Ele admitiu que o risco de um time ser excluído da competição pode fazer com que os outros torcedores tentem inibir os racistas de uma maneira mais agressiva, mas também pontuou que torneios fora da sua jurisdição, como as ligas nacionais, também não tomam esse tipo de medida. “Quando você vê incidentes no futebol inglês, você acha que a Premier League faz mais do que a Uefa? Eles excluíram algum clube? E a Itália? A Uefa está realmente tentando fazer alguma coisa. Eu sei que temos que fazer mais, mas me diga qual clube foi excluído da Premier League. E você tem incidentes quase todas as semanas. Também na Itália”, defendeu-se.

Questionado sobre Taison, que recebeu cartão vermelho por ter reagido ao racismo de torcedores do Dínamo de Kiev, Ceferin prometeu que as vítimas não serão punidas (em suas competições) e que não pode intervir no futebol da Itália, país em que o problema é cada vez mais sério. Afirmou que está trabalhando com os governos dos países-sede em medidas preventivas para a Eurocopa de 2020.

“Vamos tentar impedir que essas pessoas sequer cheguem aos estádios, mas não posso garantir que nada acontecerá. Se acontecer, a administração tem que ver a situação como uma chance para mostrar que países da União Europeia, países que não são da União Europeia e alguns que quase não são da União Europeia (o Reino Unido) podem lutar contra o racismo adequadamente”, afirmou.

Por fim, respondeu sobre a ausência de árbitros negros no futebol europeu. “Falando francamente, temos um comitê de arbitragem, temos federações e seus comitês de arbitragem. Eles propõem os árbitros para os jogos internacionais. E, para ser honesto, nunca perguntei: ‘por que vocês escolherem esse e esse?’ Mas é uma questão interessante. Eu não divido pessoas entre brancas e negras, muçulmanas e cristãs. Divido pessoas entre boas e ruins. Sobre árbitros, temos os melhores árbitros. Não quero dizer que temos que ter árbitros negros apenas por ter. A primeira condição é que o árbitro seja de excelência para nossa competição, e fico surpreso que não haja nenhum”, encerrou.