Aleksander Ceferin foi reeleito presidente da Uefa, em uma cerimônia protocolar. Ele era o candidato único a permanecer no cargo por mais quatro anos e o Congresso da Uefa celebrou a sua eleição. Aos 51 anos, Ceferin terá mais quatro anos no cargo e terá muitos desafios pela frente. Lidar com a disputa entre clubes no continente é uma delas. Os clubes grandes querem mais dinheiro pelas competições europeias, enquanto os times menores querem mais competitividade e uma distribuição mais justa. Além disso, há a disputa com a Fifa, que quer mexer no Mundial de Clubes de uma forma que os clubes europeus se opõem.

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Eleito em setembro de 2016 para o cargo de presidente da Uefa, ele foi aclamado como presidente nesta quinta-feira pelas 55 associações que compõem a Uefa. O dirigente prometeu “unidade, esperança, respeito e solidariedade” seriam elementos chave na estratégia, missão e atividades da Uefa no seu mandato.

Eleito depois dos escândalos do Fifagate, que derrubou diversos dirigentes, entre eles o presidente da Uefa então, Michel Platini, o dirigente esloveno agradeceu a confiança em um “quase desconhecido”, segundo ele, na época da eleição. E disse que a entidade precisa respeitar a sua história e não apagar o passado, mas melhorar o que já existe. “Quando a crise nos atinge, não é tempo de subitamente esquecer tudo que já foi feito antes”, afirmou. “Eu não sou presidente da ‘nova Uefa’. Eu sou o presidente da Uefa, a Uefa pode se sentir orgulhosa do seu passado e confiante do seu futuro”.

Um ponto tocado por Ceferin foi o futebol feminino. “O futebol feminino não precisa ser desenvolvido apenas porque é uma coisa boa a se fazer, ou porque o politicamente correto requer isso. Precisa ser desenvolvido porque nós acreditamos nisso, e porque, em 2019, homens e mulheres devem ser tratados igualmente. Ao contrário do que dizem algumas pessoas, o futebol feminino não é o futebol do futuro. O futebol feminino é o futebol de hoje, de agora”, explicou Ceferin.

Um dos pontos que chama a atenção no discurso de Ceferin é ele destacar a parceria com a Associação de Clubes Europeus (ECA). “Nós iremos trabalhar de mãos dadas com nosso parceiro, a ECA, para conceber as competições de clubes no futuro. Competições de clubes que estão de acordo com os tempos, cheios de emoção e intensidade, e abertas; um novo tipo de competição que trará uma dimensão diferente ao futebol europeu, mas ainda baseado em dois princípios sobre os quais não iremos ceder. Clubes de todas as 55 federações membros terão a oportunidade de participar, e a qualificação será baseada no mérito esportivo”, disse o dirigente.

Outra relação importante da Uefa, a Fifa, foi destacada no discurso do presidente. “Nós seremos uma fonte de ideias construtivas para a Fifa, mais do que uma oposição”, explicou Ceferin. “Nós estamos preparados para trabalhar com a entidade mundial para garantir que o futebol continuo o esporte número um do mundo e que a Europa continue a liderar o caminho”.

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Ceferin anuncia serviço de streaming da Uefa

Uma das novidades apresentadas pelo reeleito presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, é que a entidade irá lançar o seu próprio serviço de OTT (sigla em inglês para over-the-top, como são chamados serviços de streaming). A ideia é garantir maior acesso aos torcedores em todo o planeta.

“É por isso que eu estou feliz em anunciar que a Uefa irá lançar sua própria plataforma OTT nos próximos seis meses”, afirmou Ceferin. “Nós estamos inteiramente cientes que uma revolução está acontecendo, nós estamos a caminho de fazer parcerias históricas com as empresas líderes do mundo nesse segmento”.

“Nós já começamos a nos mover nessa direção graças à parceria com o grupo Alibaba. A parceria é mais do que um simples patrocínio. É o primeiro acordo que abre novos horizontes, como a criação de um centro de excelência em novas tecnologias de futebol ou projetos conjuntos de e-commerce. Juntos, nós estamos inventando o futuro e o nosso único limite é a nossa imaginação”, disse ainda o presidente da Uefa.

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Alterações no Fair Play Financeiro

Desde o começo do seu primeiro mandato, em 2016, Ceferin tem falado em fazer alterações no Fair Play Financeiro que melhorem e deem um passo além do que já foi feito. Em um primeiro momento, a ideia era reduzir os débitos dos clubes, que atingiam patamares que os dirigentes consideravam graves. Diversos episódios de clubes falindo e tendo que ser refundados, ou entrando em concordata, como o Rangers, na Escócia, Leeds e Portsmouth, na Inglaterra, além de Fiorentina, Napoli e Parma, na Itália, mostraram um retrato sobre isso. Para a Uefa, isso mudou nos anos de ação do Fair Play Financeiro.

“Nós iremos adaptar as regras do Fair Play Financeiro para estabelecer um novo equilíbrio europeu no qual todos podem encontrar o seu lugar certo”, explicou o dirigente. “Os objetivos iniciais do Fair Play Financeiro foram atingidos. Os clubes europeus estão financeiramente mais saudáveis do que nunca, o problema das dívidas foi resolvido em muitos países, e dívidas não pagas devidas a clubes, treinadores e jogadores parecem estar se tornando nada mais do que uma lembrança ruim. Agora é hora de continuar para uma segunda fase desse grande projeto europeu, em consulta com a ECA, para que cada clube europeu possa explorar seu total potencial de desenvolvimento”.

Um dos pontos cruciais para a Uefa e para o sucesso na manutenção do Fair Play Financeiro é fazer com que os mecanismos de fiscalização sejam mais eficientes e, mais do que isso, punir aqueles que tentem driblar as regras, como o Football Leaks mostrou que Manchester City e PSG fizeram – em atos que foram acobertados pela Uefa, com a participação do então secretário-geral da entidade e atual presidente da Fifa, Gianni Infantino.

Por isso, Ceferin diz que respeito é uma palavra fundamental para isso – apesar de nenhum desses escândalos ser citado no congresso da Uefa. “É por isso que nós fortalecemos a boa governança da Uefa e transparência e passamos recomendações de boa governança aos nossos membros associados”, afirmou Ceferin. E isso, segundo o dirigente, significa seguir as regras e punir quem não o faz. “Aqueles que trapaceiam devem ser punidos, nem que seja por falta de respeito a todos os que fizeram todos os esforços e sacrifícios necessários para cumprir as regras. É uma mensagem que se aplica ao doping, manipulação de resultados, Fair Play Financeiro e corrupção”.

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Como tratar a falta de equilíbrio na Europa

Um dos pontos cruciais para lidar com o futebol europeu é o desequilíbrio entre os clubes mais ricos, das ligas mais ricas, e os demais. Ceferin falou sobre o assunto, mas foi bastante cauteloso. “Por favor, não esperem nenhum milagre. A história rende a se repetir e qualquer um que diz que pode mudar o curso da história simplesmente mexendo uma varinha mágica é ou um sonhador ou um charlatão”, afirmou o dirigente.

“Como nós podemos fazer milagres quando o problema de competitividade sempre existiu? Quando nós vivemos em um mundo onde 1% da população é dona de mais de 50% da riqueza do mundo? Como podemos realizar milagres em uma sociedade cheia de dúvidas, onde uma atitude interior parece ser a única maneira de sobreviver? Onde o desejo de erguer muros é mais forte do que o desejo de construir pontes, e onde se ajudar se tornou mais importante do que ajudar os outros?”, discursou o esloveno.

“O que eu posso prometer é que durante o próximo mandato nós iremos trabalhar juntos para garantir que o futebol europeu se mantenha unido, que o futebol europeu se mantenha respeitoso, respeitável e respeitado, que o futebol europeu continue a demonstrar solidariedade e traga esperança. Nós iremos garantir que o futebol europeu vá contra a corrente, mais do que siga as tendências que vemos na Europa atualmente”, declarou Ceferin.

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