As lágrimas que vertiam sobre o rosto de Petr Cech, no momento em que o Chelsea já dava sua volta olímpica com o troféu da Liga Europa, certamente desaguavam uma mistura de sentimentos. O veterano encerrou sua carreira nesta quarta-feira. Encerrou a carreira como um dos maiores goleiros deste século. E o orgulho é inegável por tudo o que viveu, por tudo o que conquistou, por tudo o que proporcionou. Cech será sempre um exemplo por seu profissionalismo e uma lenda por seu talento. Mas a certeza de que não mais experimentará aquelas sensações em campo veio com o gosto amargo de um vice-campeonato. De uma derrota dolorida. De uma goleada por 4 a 1, em que esteve impotente sob as traves, mesmo evitando o pior ao Arsenal. O craque merecia muito mais em seu adeus.

Cech era assunto inescapável nesta final da Liga Europa. Justo na despedida, o destino ofereceu uma ocasião especial ao arqueiro. Teria a chance de se reencontrar com o Chelsea, o grande clube de sua carreira, na tentativa de romper o jejum continental que dura há 25 anos ao Arsenal. Em meio aos preparativos para a decisão, surgiu a especulação de que o tcheco assumirá um cargo na diretoria dos Blues na próxima temporada. Não foi isso, porém, que permitiu questionarem seu profissionalismo. Não foi isso que provocou indagações sobre sua vontade de vencer. Era sua última chance, e em um palco tão notável quanto uma final europeia.

O respeito a Petr Cech se dá pelo exemplo que ofereceu ao longo de sua carreira. Por ser um cara que sempre escancarou a sua integridade, mesmo cheio de ambições. O choque de cabeça o colocou em sérios riscos, mas ainda assim ele seguiu em frente. E não perdeu a idolatria no Chelsea, mesmo depois de escolher o Arsenal ao ver sua trajetória em Stamford Bridge se encerrar. O respaldo se constrói no dia a dia e até o noticiário ávido por polêmicas da imprensa inglesa não trouxe manchas à caminhada do tcheco. No máximo, há acusações sobre a demissão de Felipão, o que o arqueiro sempre negou publicamente.

E sua caminhada, afinal, é tão venerada por aquilo que se alcançou em campo. Cech desembarcou na Inglaterra como um goleiro promissor e precisou de duas temporadas para encabeçar a melhor defesa da história da liga. Sua forma naqueles primeiros anos com o Chelsea era fantástica – seja pela firmeza, seja pela explosão, seja pelo posicionamento, seja pela elasticidade. O acidente que o levou a usar o capacete também mudou um pouco o estilo do tcheco sob os paus. Ele soube se reinventar, a tempo de se tornar um dos grandes heróis no título da Champions, em 2012. Basta lembrar dos pênaltis que ele pegou contra o Bayern.

E que o espaço tenha diminuído uns tempos depois, Cech não criou caso pela ascensão de Thibaut Courtois. Continuou treinando duro, antes de optar por seguir em Londres, agora com a camisa do Arsenal. Não foram bons anos no Emirates, seja pela pressão interna do clube, seja pela queda natural de seu rendimento. Nada que apagasse a reputação já formada. Cech teve tempo para conquistar sua quarta Luva de Ouro da Premier League, bem como para ampliar seu recorde de jogos sem sofrer gols na competição. Passou invicto 202 dos 443 duelos que disputou pela liga, um número absurdo. Entre outras marcas históricas, neste intervalo também se tornou o jogador com mais partidas pela seleção da República Tcheca, com a qual disputou cinco competições internacionais.

A Liga Europa poderia ser mais um entre os 19 títulos que já tinha erguido na carreira. Não aconteceu. Se o Arsenal teve alguma dignidade nesta final, ela dependeu somente de Petr Cech. O goleiro parecia o único disposto a conquistar o troféu. O único a tratar a ocasião como uma grande final. O gol do Chelsea só não veio no primeiro tempo porque o goleiro realizou duas defesas vitais, sobretudo no chute rasteiro de Olivier Giroud. Já na segunda etapa, ficaria desguarnecido diante do bombardeio azul, com uma linha defensiva totalmente desligada. Não teve culpa nos quatro tentos – e nem merecia essa zaga tenebrosa dos Gunners. Aliás, a situação só não foi pior porque o veterano precisou intervir outras vezes para evitar um massacre maior.

“Estou orgulhoso pela minha carreira, obviamente, mas também pela forma como joguei hoje. Quando você disputa seu último jogo em uma final, há muita pressão. Surgiram muitas especulações sobre o Chelsea, então eu tinha que atuar bem e preciso dizer que fiz tudo o possível, então posso olhar para trás e não ter arrependimentos sobre hoje. Lamento apenas porque trabalhamos tão duro ao longo do ano e no fim não conquistamos nada”, declarou Cech, na saída de campo, antes de negar qualquer acerto com os Blues. “Isso é o que mais me desaponta. Queria erguer o troféu e então me sentar para pensar. Até 30 de junho sou jogador do Arsenal, as pessoas se esqueceram disso”.

A decepção de Cech pela derrota é inescapável, especialmente quando a situação foge de suas mãos. As expectativas que criou terminaram destroçadas, de uma maneira tão contundente. Após receber a medalha de prata, o veterano não quis ficar com ela no peito. Mas permaneceu no gramado, para sentir aquela atmosfera um pouco mais pela última vez. Era o clube de seus amores que dava a volta olímpica, e o craque de luvas presenciou isso. Não era o que queria. Não era assim que ele pretendia terminar. Não teve como alterar os rumos da noite.

Como consolo, não é a última partida que define uma carreira de 20 anos. Edwin van der Sar, que despediu-se com uma derrota na final da Champions League, serve de exemplo. E o lugar de Cech na memória do futebol é compulsório. Contam-se nos dedos, e de uma só mão, os goleiros que foram tão bons quanto ele neste século. Indo além, poucos na história foram tão completos e tão consistentes quanto o tcheco. É para ser lembrado como uma lenda, respeitado como um enorme profissional. O indefectível capacete e os recorrentes milagres são um símbolo do tanto que proporcionou ao esporte. Mesmo em lágrimas, sai como um gigante.