A CBF tem enfrentado dificuldades desde que uma operação comandada pelo FBI prendeu diversos dirigentes em um hotel da Suíça. Os seus últimos três presidentes, José Maria Marin (ainda atrás das barras nos Estados Unidos), Marco Polo Del Nero (banido do futebol) e Ricardo Teixeira (que teve que abrir mão de seus cargos, em 2012, por causa de outro caso de corrupção) tiveram problemas com a Justiça. As manchetes não paravam de revelar os esquemas dos quais eles haviam usufruído. E, nos últimos meses, quem assinou pela entidade foi Coronel Nunes, na prática um testa de ferro para o presidente que estava eleito há mais de um ano: Rogério Caboclo, o homem do compliance, que assumiu a chefia da entidade nesta terça-feira e tenta nos fazer esquecer dos escândalos com o famoso rebranding.

Dizer que Caboclo é uma cara nova no futebol brasileiro seria um exagero. Como explicamos na época de sua eleição, sua ascensão foi mais uma maneira de mudar para que tudo continuasse como estava. A novidade do personagem restringe-se a ser um burocrata, que acompanha Del Nero desde os tempos de Federação Paulista, e não alguém ativo na política dos clubes, embora seja conselheiro do São Paulo. E também, claro, a ser um dos poucos homens com tempo de casa na CBF sem ficha criminal. Vendo o cerco da investigação fechando em torno de si, Del Nero antecipou as eleições para que o seu escolhido vencesse. Uma manobra, como havia feito em 2015, com a eleição de Coronel Nunes para a vice-presidência da CBF, para não passar o poder ao rival Delfim Pádua Peixoto Filho quando se licenciou do cargo – e, quatro meses depois, voltou.

Caboclo dava as cartas na CBF desde que foi eleito. Foi chefe da delegação na Copa do Mundo de 2018 e, segundo a Folha de S. Paulo, decidiu pela permanência de Tite, depois da eliminação para a Bélgica. O que aconteceu nesta terça-feira foi uma cerimônia que tornou a passagem de bastão oficial e que serviu de oportunidade para que ele apresentasse o que se pretende a ser uma nova CBF. Como diz a legenda de um vídeo até bem produzido que a entidade publicou no Twitter: “Nos transformamos hoje para melhor transformar. Mudamos”.

Mas o que de fato mudou? Caboclo anunciou realmente algumas novidades: Leonardo Gaciba será o novo chefe de arbitragem, e Juninho Paulista, gestor do Ituano, assume a Diretoria de Desenvolvimento, cujos propósitos não ficaram muito claros e não constam em cinco parágrafos da nota oficial de anúncio no site da CBF. O mais próximo de uma missão saiu na própria declaração do ex-jogador: “Queremos resgatar a essência do nosso futebol, o amor que a minha geração tinha em representar o futebol brasileiro”. Platitudes. Deve ter a ver com o novo Centro de Desenvolvimento que será construído em uma área de 100 mil metros quadrados no Rio de Janeiro.

A CBF também anunciou um Conselho de Craques para colaborar com o futebol brasileiro, o que já existiu anteriormente, e, claro, conta mais uma vez com Carlos Alberto Parreira, sempre envolvido nessas reuniões. Sylvinho, auxiliar de Tite, será treinador da seleção olímpica. As mudanças mais drásticas vieram na imagem. Foi apresentado um novo escudo que já está nas redes sociais e no site da CBF e que constará na camisa a partir de 2020. E novos uniformes, inclusive com o retorno da cor branca, que não era usada desde a derrota na final da Copa do Mundo de 1950.

As novas camisas da CBF (Foto: Divulgação)

O problema para o discurso de que a CBF está mudando é que nada disso tem efeito prático para melhorar os principais gargalos do futebol brasileiro. O novo presidente fazia parte da mesma turma que não pode pisar nos Estados Unidos sem receber a visita de homens vestindo ternos. Qualquer tipo de desenvolvimento que esteja sendo vislumbrado tem, por definição, efeitos em médio ou longo prazo. Mudar o nome de quem comanda a arbitragem já foi feito no passado, sem mudança de práticas. E rebranding não passa de perfumaria.

Enquanto isso, a estrutura de federações estaduais que mantém o poder da CBF segue praticamente intacta. Caboclo limitou-se a anunciar que os campeonatos regionais terão duas datas a menos ano que vem. Uma melhora ínfima, muito distante de resolver o problema do calendário inchado do futebol brasileiro, mesmo que o presidente cumpra a promessa de, finalmente, respeitar as Datas Fifas a partir de 2020 – uma promessa que nós também já ouvimos no passado. Pelo menos, essa gestão conseguiu colocar o assistente de vídeo em ação no Campeonato Brasileiro, aprovado pelos clubes em fevereiro.

Para dar uma boa medida, talvez a ação mais interessante que Caboclo anunciou nesta terça foi a publicação, no site da entidade, do estatuto da CBF, e é absolutamente assustador que, em 2019, as leis que regem o futebol brasileiro ainda não fossem plenamente acessíveis ao público. Disponibilizá-las não é mais do que a obrigação. Desenvolver o futebol brasileiro também. Assim como colocar gente capacitada em posições de comando ou diminuir os estaduais, o que não será feito, em curto prazo, com a profundidade necessária.

Não teve nada de revolucionário nas medidas anunciadas por Caboclo, além da reformulação da marca, que só convence que a CBF mudou de verdade quem não está prestando atenção. Para provar que a entidade está diferente, o novo presidente precisará fazer muito mais.