Em meados de março, a CBF aprovou em assembleia geral o seu demonstrativo financeiro sobre o ano de 2019. A entidade apresentou recordes de receita, bem como de superávit. Já nesta segunda-feira, a confederação confirmou o redirecionamento de uma parcela de seus lucros para ajudar o futebol brasileiro em meio à crise causada pela suspensão das competições. Serão doados R$19 milhões, endereçados sobretudo aos clubes classificados às Séries C e D em 2020 e aos times femininos das duas primeiras divisões do Brasileiro. Também haverá um repasse às federações estaduais.

Os elencos integrantes da Série C e da Série D receberão um auxílio financeiro. O valor será referente a duas vezes a folha salarial média destinada aos atletas dessas divisões. A base do cálculo foi realizada a partir de dados disponibilizados pelos clubes à própria CBF. A mesma medida será realizada no Brasileiro Feminino, com o cálculo referente às equipes que integram as Séries A1 e A2 da competição.

“Serão beneficiados 140 clubes, em uma ação realizada pela CBF com o apoio das Federações Estaduais. O objetivo é colaborar para que esses clubes possam cumprir seus compromissos com os jogadores e jogadoras durante o período de paralisação do futebol”, escreveu a CBF. Os 20 clubes da Série C receberão R$200 mil cada, enquanto os da Série D ganharão R$120 mil. Já no Brasileirão Feminino, serão R$120 mil por cada equipe da Série A1, mais R$50 mil para os membros da Série A2.

A CBF ainda decidiu beneficiar as federações, enquanto os estaduais permanecem paralisados. As entidades locais ganharão R$120 mil cada, embora a confederação não tenha especificado o uso deste dinheiro – provavelmente, para cobrir custos com pessoal. “Vivemos um momento inédito, de crise mundial, cuja extensão e consequências ainda não podem ser calculadas. É necessário, portanto, agir com critério e responsabilidade. O nosso objetivo, com essas novas medidas, é fornecer um auxílio direto imediato”, apontou Rogério Caboclo, reiterando que a intenção é retomar o futebol brasileiro “no menor prazo possível, quando as atividades puderem ser normalizadas”.

Anteriormente, a CBF havia anunciado outras iniciativas. Garantiu a isenção das taxas de registro e transferência de atletas por tempo indeterminado aos clubes. Na Série B, a confederação mexeu em seus fundos e adiantou uma parcela de R$600 mil a cada time, referente aos direitos de TV. Além disso, também houve o adiantamento de uma taxa de arbitragem aos árbitros que são membros do quadro nacional, calculada a partir do maior valor pago em 2019 à categoria. Segundo a própria prestação de contas da CBF, são mais de R$36 milhões liberados entre doações, isenções e adiantamentos.

O valor, embora significativo, representa ainda uma parcela relativamente pequena do balanço financeiro da CBF em 2019. As receitas chegaram a R$957 milhões, superando em R$298 milhões o registro do ano anterior. Além disso, o superávit no período foi de R$190 milhões. A confederação declarou que R$535 milhões foram investidos em 2019, com R$320 milhões empregados na realização de competições, enquanto R$215 milhões ficaram com as seleções nacionais.

O salto nos números de receita e superávit se explica, além dos patrocínios e direitos comerciais, também pelo chamado “Fundo de Legado da Copa do Mundo”, com a liberação de US$25 milhões junto à Fifa para programas de desenvolvimento no futebol. Este dinheiro, que deveria ter sido recebido logo após o Mundial de 2014 e estava congelado depois dos escândalos de corrupção na entidade, ainda deve garantir mais US$66 milhões à CBF nos próximos anos.

A CBF declarou, por fim, que mantém seu compromisso de investimento no futebol. A entidade arca com os custos, parciais ou totais, de 20 competições, “que garantem milhares de empregos na indústria do futebol”. A promessa é de que os investimentos serão mantidos, para não afetar a modalidade e preservar empregos.

Entre as articulações internas com as federações, a CBF aponta que trabalha em quatro frentes: preservação dos contratos e receitas dos clubes, em especial os direitos de televisão; acordos trabalhistas para atletas e funcionários, já incluindo a concessão de férias coletivas em abril; extensão aos clubes das propostas feitas pelo governo às empresas, no sentido de resguardar empregos e compromissos financeiros de curto prazo, bem como um pedido de readequação ao Profut; e criação de linhas de crédito com juros baixos no mercado financeiro.

A CBF é a responsável pela proteção do futebol brasileiro e toma os primeiros passos, alguns deles fundamentais. No entanto, há outras necessidades que permanecem sem cobertura, como a própria situação dos clubes sem divisão ou mesmo uma ação voltada aos demais funcionários das agremiações. Também é preciso encontrar caminhos aos times da Série A, muitos deles com problemas financeiros antes da deflagração da crise, outros com condições de até mesmo ajudar os menores. Apesar da injeção financeira neste primeiro momento, a confederação permanece com outros compromissos a assumir e tem condições para seguir em frente. “Agir com responsabilidade”, como declarou a entidade, será essencial – e em diferentes sentidos do conceito.