A letargia durou 29 dias até que, finalmente, a CBF fizesse o anúncio mais aguardado desde a eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo Feminina: Vadão não será mais o técnico da equipe. Apesar do digno desempenho do Brasil, as carências táticas e os problemas na utilização das jogadoras se arrastavam ao longo dos últimos meses. A seleção feminina chegou à Copa com sua pior sequência de resultados na história, somando nove derrotas consecutivas, e tinha elenco para uma campanha melhor na competição. Estava bem claro que a permanência do treinador era insustentável dentro de um necessário ciclo de renovação. Levou quase um mês para oficializarem isso.

Somente o bom trânsito de Vadão com a CBF e com Marco Aurélio Cunha, coordenador das seleções femininas, explica a sua manutenção no cargo por tanto tempo. O treinador fez um trabalho bastante questionável à frente da Seleção na época das Olimpíadas, em que o time avançou mais por talento individual do que por capacidade coletiva. Deixou o comando, mas não demorou a retornar, diante da demissão de Emily Lima. Diferentemente de sua antecessora, Vadão desfrutou de uma enorme paciência, entre os resultados que não vinham e a parca qualidade do futebol apresentado pela Seleção. Sem grandes pressões internas ou mesmo da grande imprensa, manteve-se inexplicavelmente até a Copa.

Já na França, as lacunas na montagem da Seleção ficaram evidentes. O time apresentava carências em sua convocação, teve muitas dificuldades a partir das substituições realizadas, não apresentou uma preparação física ideal e ainda não possuía consistência em campo. Pior, sequer se mostrava consciente de seus objetivos, pela maneira como deixou resultados escaparem e não os buscou quando necessário. Dependeu mais do empenho das jogadoras e de seus lampejos do que propriamente de uma estratégia bem estruturada à competição. Nada de novo, entre o que se observara nas Olimpíadas ou nos amistosos preparatórios. Ao menos, a garra valeu uma campanha razoável até as oitavas de final, apesar dos riscos na fase de grupos e do que faltou para desbancar as francesas nos mata-matas.

Salta aos olhos que a CBF tenha demorado um mês para confirmar a saída de Vadão. Mas não é nada surpreendente, considerando as relações obtusas na confederação, ainda mais dentro do futebol feminino. A impressão é de que não há interesse, ao mesmo tempo em que se desconsideram as cobranças. A própria volta de Vadão já era um tanto quanto absurda, diante de seu histórico. Era um comandante sem mercado até nas divisões de acesso, com nula experiência no futebol feminino e claras dificuldades na condução da Seleção em sua primeira passagem. Ao menos, neste momento, o adeus do técnico indica um primeiro passo ao muito que precisa ser feito entre as mulheres.

Durante os últimos dias, surgiu a notícia de que Pia Sundhage era a favorita para assumir a seleção feminina. Segundo a jornalista Gabriela Moreira, em seu blog no Globo Esporte, a confederação procurou a sueca e ela se mostrou aberta à proposta. Faltava oficializar o interesse e discutir os detalhes, além de conversar com Vadão. Sem dúvidas, a chegada da treinadora dona de três medalhas olímpicas (dois ouros com os Estados Unidos e uma prata com a Suécia) seria um salto em termos de currículo e na própria relação com o futebol feminino. Porém, o impulso precisaria se desenvolver além de uma tentativa da CBF em querer mostrar serviço.

Muito provavelmente, Pia Sundhage ajudaria as seleções femininas a realizarem um projeto mais amplo e aprofundado. Por mais que Vadão tenha seus muitos problemas, cabe dizer, não deve ser o único responsável pela falta de desenvolvimento da modalidade no país. As más atuações da seleção principal são apenas a ponta de um iceberg que inclui a falta de um planejamento mais amplo e de um próprio trabalho de formação bem feito, quando as competições de base ficam restritas a migalhas. O envelhecimento da Seleção, sobretudo em relação às suas protagonistas, é um sinal inegável. Que Pia possa fazer o time jogar mais, o buraco tende a se tornar mais fundo dentro de algum tempo, caso outros pontos fundamentais não recebam a devida atenção.

Entretanto, se a simples demissão de Vadão demorou um mês para acontecer, preocupa a lentidão na tomada de decisões diante daquilo que precisa ser amplo e urgente. A própria continuidade de Marco Aurélio Cunha não está garantida pela cúpula da CBF. Enquanto a confederação utilizar o futebol feminino para clientelismos e velhas amizades, as perspectivas são pequenas. O momento é favorável a transformações, até pela repercussão que a campanha da seleção brasileira gerou – mais por exposição do que pelo sucesso esportivo em si, diga-se. No entanto, os absurdos da falta de estrutura voltaram aos noticiários muito antes que a CBF começasse a se mexer.

Se a seleção brasileira se manteve como um time de ponta nos primórdios da Copa do Mundo, graças ao talento de suas jogadoras, cada vez fica mais claro que o país não acompanha o desenvolvimento que a modalidade vive em outras partes do mundo. E não há habilidade que supere as defasagens em todo o processo. A mudança precisa acontecer agora, sobretudo na mentalidade. O técnico da seleção principal é a face mais exposta. Mas que também não pode servir apenas de bode expiatório a tudo aquilo que não acontece com um mínimo padrão.

Muitas das novidades recentes da CBF em prol do futebol feminino aconteceram por conta das exigências de instâncias superiores, sobretudo a Fifa. Não existe confiança no trabalho de profissionais, sobretudo mulheres, com experiências dentro do próprio futebol feminino. Não há uma atenção à própria demanda que o futebol feminino pode criar no Brasil – entre jogadoras, treinadoras e dirigentes. Por enquanto, o descaso é tamanho que as discussões giram sobre as mínimas condições de treinamento e preparação. A saída de Vadão, para a chegada de Pia Sundhage, significaria a troca de alguém agradecido pelo mero emprego por uma treinadora que, mais do que melhorar a Seleção, possa brigar por um tratamento mais profissional do esporte dentro da CBF. A luta no Brasil ainda é pelo básico.

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