Foram duas decisões inexplicáveis envolvendo Vadão. A primeira foi da CBF, especialista no assunto, que manteve o treinador no seu emprego mesmo depois dos Jogos Olímpicos, nos quais a seleção feminina chegou até às semifinais na base das individualidades, com pouco jogo coletivo e quase nenhum padrão tático. A entidade brasileira pelo menos corrigiu o seu erro, o que é mais do que se pode dizer da Fifa: no dia em que Vadão aparece entre os 10 finalistas do prêmio de melhor técnico de futebol feminino da temporada, a CBF anunciou a sua demissão e se saiu com uma rara e acertada novidade. Emily Lima, ex-treinadora do São José Esporte Clube, assumirá a equipe de Marta e companhia.

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Emily Lima começou a sua carreira de treinadora em 2010 e teve passagens pelos times femininos de Portuguesa e Juventus antes de assumir as seleções sub-15 e sub-17 do Brasil, em 2013. Uma experiência com categorias de base que será essencial em um time que faria muito bem em se renovar: o elenco da Olimpíada do Rio de Janeiro tinha média de idade de 27,4 anos, com apenas três jogadoras abaixo dos 25 anos (Andressinha, Andressa Alves e Beatriz). Estarão três outonos mais velhas na próxima Copa do Mundo, em 2019.

Depois da sua primeira passagem pela CBF, que já lhe tornou pioneira como a primeira mulher a comandar uma seleção brasileira de qualquer gênero ou categoria, Lima assumiu o comando do São José Esporte Clube, tricampeão da Libertadores e, naquela época, janeiro de 2015, atual campeão mundial – em um torneio extraoficial. Em duas temporadas, levantou a taça do Campeonato Paulista, foi vice-campeã brasileira e da Copa do Brasil Feminina. Recentemente, completou o curso da CBF para tirar a Licença B, focada em categorias de base, no qual foi a única mulher da turma.

Ela já mostrou que tem currículo, experiência e capacidade para a função. O incrível é a CBF reconhecer isso. As suas decisões, especialmente para cargos que não são o de técnico da seleção brasileira de futebol masculino, costumam levar mais em conta o lado político do que meritocrático. Diretores e coordenadores (o nome do cargo muda a cada alguns anos) vêm e vão de acordo com a afinidade com o treinador (alô, Gilmar Rinaldi) ou com a proximidade em relação à CBF (alô, Parreira). O coordenador de futebol feminino era Marco Aurélio Cunha. O secretário-geral é Walter Feldman.

E mesmo o técnico da seleção masculina de futebol nem sempre é escolhido com base apenas em seus méritos. Também há toda a conjuntura do momento. Felipão foi chamado para aguentar a pressão de uma Copa do Mundo em casa por ter sido o último campeão do mundo pelo Brasil. Dunga e seu jeito turrão foram os escudos escolhidos depois do 7 a 1. Às vezes, a CBF dá sorte de juntar a competência com a política: Tite era evidentemente o brasileiro mais bem preparado para ser técnico da Seleção e sua escolha aplacaria críticas da imprensa que, em massa, defendia-o para o cargo e criticava seu hoje antecessor. Emily Lima parece ser um caso parecido. Ela não só apenas é mais capacitada para o cargo do que Vadão como também dialoga com a reivindicação de longa data de ver uma mulher no comando do time feminino. Sim, será a primeira vez na história.

Porque mesmo dentro do futebol feminino o espaço para as mulheres em cargos de comando é reduzido. Entre 32 clubes, apenas seis mulheres seguraram a prancheta durante a Copa do Brasil Feminina, competição que nunca foi vencida por uma técnica. A Copa do Mundo do Canadá teve 24 seleções e apenas sete técnicas. A Olimpíada do Rio de Janeiro foi disputada por 12 times, apenas quatro treinados por mulheres.

“Vamos falar na Copa do Brasil. São 32 equipes, mas a gente não tem 32 treinadoras para estar à frente dos times. Não por capacidade, mas simplesmente porque não tem”, afirmou Emily Lima, em entrevista à Trivela, publicada semana passada. Segundo ela, há uma mistura de desinteresse das jogadoras de futebol, porque “dificilmente você sobrevive só com o futebol feminino, mesmo sendo treinadora”, e falta de estrutura oferecida pela CBF e federações para tornar a profissão de técnica atraente no Brasil. “É cultural, é ir ganhando espaço”, explica. “Com o tempo a gente vai se desenvolvendo melhor, mostrando a cada dia que somos capazes. Porque, senão, ela não serve por ser mulher. Quando olham que a gente tem capacidade para fazer aquela função, acabam acreditando. O homem não precisa provar que é capaz, mas a gente precisa provar a cada dia que nós somos capazes de estar nesta função”.

No mesmo papo, Emily Lima falou sobre algumas ideias para o futebol feminino. Ela não acha ruim a seleção permanente da CBF, mas a maneira como esse projeto foi conduzido. “Eu achei o planejamento ruim”, disse. “Não é que a seleção permanente não possa acrescentar ou tirar atletas. Você tem uma base. É como se fosse um clube. Com essa base você vai trabalhar e vai prepará-la à competição. O que foi feito? Eu ouvia do nosso coordenador, o Marco Aurélio, que a seleção era permanente, as atletas não. Então não é permanente. O que eu conheço como permanente, como a seleção americana faz e o professor Renê (Simões, ex-técnico da seleção feminina) fez, é manter o máximo de atletas que estarão na competição. Para que todo mundo chegue igual fisicamente, taticamente, tecnicamente. Nesta última seleção, foi o contrário. A maior parte do grupo que jogou as Olimpíadas estava fora do país”.

Com foco nas categorias de base, ela afirmou que seria ideal que todas as categorias do futebol feminino fossem trabalhadas dentro do mesmo modelo, nas partes física, técnica e tática. Também disse que, ao fim de um ciclo olímpico, é a hora de já pensar no próximo. “Acabou em agosto, temos que pensar em renovação, no que vai acontecer, acompanhar o Mundial Sub-20”, explica. “Eu tenho que, no amistoso seguinte, como foi contra a França (no último mês de setembro), preciso das atletas do meu próximo ciclo. Será que a Formiga vai estar na próxima Olimpíada? Eu acho que não. É trocar, renovar. Por isso que a gente não consegue renovar, porque fica na mesmice e não tem peito de arriscar. Na própria Copa do Brasil e no Brasileiro, existem muitas atletas que podem ser trabalhadas na seleção. Não é uma crítica, mas é uma maneira que eu vejo, que eu sempre vi”.

Passou da hora de a seleção brasileira feminina ter uma mulher no comando. Uma mulher preparada que entenda profundamente as dificuldades desse esporte porque já passou por todas elas. Alguém que tenha vivência para lidar com os obstáculos e que possa servir de exemplo para jogadoras de futebol próximas do fim da carreira que sonham em seguir a vida nessa profissão. Emily Lima sempre foi um bom nome, mas a escolha poderia ser outra, como, por exemplo, Sissi e tantas outras que dedicam a vida à modalidade. É certamente melhor do que escolher técnicos de futebol masculino médios – às vezes, ruins mesmo – ou desconhecidos.