Para se jogar bem uma partida, óbvio ululante, não é necessário ser decisivo ou balançar as redes. Aliás, aparecer na hora de empurrar a bola para dentro pode até maquiar uma atuação ruim. Ao atacante, ainda assim, o ofício é claro. Se ele não marca, há um vazio que não se preenche de outras maneiras. Edinson Cavani já fazia uma Copa do Mundo excelente na fase de grupos. Correu, lutou, criou. Até marcou um gol, num lance feio contra a Rússia, típico dos centroavantes que sabem o atalho às redes. Mas pede-se sempre mais àquele que pode definir um confronto, que pode destravar uma partida difícil, que pode marcar a história. Justamente o que o camisa 21 alcançou, em uma vitória para ser recontada pelos uruguaios por muito tempo. A Celeste jogou como se imagina que a Celeste jogue. O atacante se imbuiu deste espírito e fez mais. Dois belos gols, que botam os charruas nas quartas de final.

Pela seleção uruguaia, Cavani ainda devia uma grande competição. Se conquistou a idolatria nos diferentes clubes que defendeu, quase sempre foi um mero coadjuvante na Celeste, fazendo parte de boas campanhas, mas não necessariamente brilhando. Anotou dois gols em Mundiais, um em 2010 e outro em 2014, que não necessariamente renderam vitórias à Celeste. Já na Copa América de 2011, com uma lesão no joelho, ele assistiu do banco de reservas às noites triunfais de Luis Suárez e Diego Forlán na Argentina. No entanto, o atual ciclo foi importante para que o centroavante crescesse na equipe nacional. A fase goleadora no Paris Saint-Germain se refletiu no time de Óscar Tabárez, sobretudo nas Eliminatórias, com excelentes partidas e dez gols. A prova final viria na Rússia.

Cada vez mais, Cavani e Luis Suárez parecem ser monstros a se complementar. É o que acontece desde o início do Mundial. Enquanto o camisa 9 fica preso na linha de frente e incomoda as defesas com suas arrancadas, o companheiro recua, cria, defende. O excelente preparo físico de Cavani o torna em mais um trabalhador no coletivo charrua. Ao mesmo tempo, oferece o refinamento. E o gol dos sonhos não saiu por detalhes durante o Grupo A, ainda que a bola empurrada para dentro contra a Rússia servisse para lavar a alma. Ainda assim, a incumbência do camisa 21 seria enorme contra Portugal. Ele, mais do que Suárez, precisava se sobressair. Fazer valer o renome.

Cavani não precisou de muito tempo para isso. Afinal, com sete minutos aconteceu a jogada de um gol que, se não está exatamente entre os mais bonitos da Copa, aparece entre os mais bem construídos. A virada de jogo do camisa 21 é soberba. O cruzamento de Suárez, tão bom quanto, sabendo o que o companheiro faria, apesar da pancada que foi. Saiu na medida para a projeção do centroavante, passando às costas da defesa, para concluir às redes. Não pegou perfeitamente de cabeça, mas quem se importa com isso diante de um arremate indefensável? Perfeito por proporcionar o grito, a vibração, os olhos brilhantes. Cavani se emocionou. Queria jogo. Teria jogo.

A partidaça de Cavani, aliás, se conta pelos gols, mas não só por isso. É a noite cheia de vontade do centroavante que virava quase um volante para correr atrás da bola, para bloquear os espaços, para realizar os desarmes. Jogou nas duas áreas, sempre bem. Desta vez, sequer podem reclamar dos gols perdidos ou dos erros, que por vezes acontecem com uma frequência incômoda a um atacante. Em Sochi, até quando não acertou o camisa 21 fez mais do que se esperava. A bola longa de Suárez resultou em bom domínio e em chute perigoso ao final do primeiro tempo. O maior acerto, de qualquer forma, seria o da segunda etapa. O que evitou a aflição pelo empate sofrido e garantiu a classificação aos uruguaios.

Quando Rodrigo Bentancur dá o passe e Suárez faz o corta-luz, Cavani aparece totalmente desmarcado no lado esquerdo da área. A bola doce para que posicione o corpo e dê o tapa, com categoria. No momento em que a bola saiu do pé do atacante, existiam apenas duas possibilidades: ou ela iria para fora, ou entraria. Rui Patrício, distante, não chegaria a tempo de pegar aquele arremate sinuoso, fazendo uma parábola que se distanciava do arqueiro e se aproximava das redes. O gol aconteceu. Outra vez, Cavani explodiu. O elenco inteiro amontou-se sobre o ídolo e certamente outros mais de três milhões de uruguaios queriam se juntar àquele bolo. Ao Pistoleiro, dedicou a cumplicidade de um abraço e um sorriso.

Cavani teria pouco mais de dez minutos para se esforçar. Para correr, para brigar, para negar a insistência de Portugal. Desgastou-se tanto que uma hora o corpo sentiu e a panturrilha não permitiu que o protagonista da noite permanecesse em campo. Conduzido por Cristiano Ronaldo para fora, a transpiração cessaria pelo cansaço, mas começaria pela agonia. Do lado de fora, teria que se limitar a torcer. A ver Godín, Giménez, Cáceres, Laxalt, Torreira, Vecino e outros gigantes uruguaios evitarem cada perigo. Suárez, mais operário, fazer o trabalho de força ao prender a bola, ao brigar por cada lançamento, ao pressionar as saídas.

Ao apito final, ainda com dores, Cavani comemorou timidamente. Mas diante das câmeras, não havia como esconder o sorriso. Não havia como ocultar os olhos brilhando. Era novamente o menino de nove anos, que vivia em uma casa sem videogame, sem televisão grande, sem chuveiro elétrico ou calefação. Mas que, a cada mudança em Salto, cidadezinha no interior do Uruguai, encontrava um campinho e uma bola à sua espera no quarteirão. Que corria descalço e sentia a grama em seus pés, sonhando em marcar seus gols para ganhar um sorvete. Sonhando em ser Gabriel Batistuta. Cabelos ao vento, como seu ídolo, conseguiu algo em Sochi que Bati nunca havia feito: dois gols em um mata-mata de Copa do Mundo. Sentia-se leve. Sentia-se livre.

“Quando chegar ao futebol profissional, terá tudo o que pode sonhar. E por isso terás que ser extremamente agradecido. Mas tenho que ser honesto contigo. Há só um lugar em que poderá ter esta liberdade total. E dura 90 minutos, com sorte. Quando põe as chuteiras, sem importar se está jogando no campinho de Salto, no gramado verde de Nápoles ou à frente de milhões de pessoas na Copa, quero recordar as palavras do seu pai. O que te diz sempre, cada vez que vai jogar uma partida? O que você sabe: ‘No momento em que cruza a linha, é somente futebol. Nada que se passa fora te ajudará. Nada mais existe’. Se você escuta estas palavras e acredita no espírito do que dizem, então, ainda que a pressão seja imensa, que esteja jogando diante de milhões, sairá ao campo e se sentirá como se estivesse jogando descalço. Sentirá o barro grudento na sola de seus pés. Sentirá seu coração pulsando e correrá buscando a bola, como se fosse o maior troféu do mundo. Como se estivesse jogando por um sorvete”, escreveu Cavani, em carta a si mesmo com nove anos de idade, publicada pelo Players’ Tribune nesta sexta.

Contra Portugal, Cavani não teve sorte para jogar os 90 minutos, mas sentiu a liberdade total. Sentiu-se descalço e com o coração pulsando. Correu atrás da bola. Ganhou o maior troféu do mundo. Tão saboroso quanto o sorvete oferecido quando marcava um gol aos nove anos de idade. Qualquer peso se esvaiu ao longo da noite em Sochi.

A gravidade da lesão de Cavani certamente preocupa os uruguaios. Perder o centroavante seria um golpe e tanto à Celeste, ainda mais em um confronto tão especial para ele, encarando a França. Mas, com ou sem o camisa 21, esta já é uma campanha imensa ao Uruguai. Em número de vitórias, é a melhor desde a conquista da Copa de 1930, igualando o total de triunfos do primeiro título mundial. O artilheiro têm grande parte nisso. De seus 45 gols pela Celeste, nenhum outro se compara aos dois deste sábado. Das 105 partidas, estas quatro são realmente as mais especiais. Colocam o artilheiro num lugar merecido, entre as melhores lembranças mundialistas dos charruas. O celeste circula em suas veias. E o prazer de correr e vibrar se vê como em um menino.


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