As bolinhas no sorteio da Copa da Ásia foram ardilosas ao fazerem Catar e Arábia Saudita se cruzarem no Grupo E da competição continental. E o futebol não tem tanto a ver com isso, apesar da proeminência de ambas as seleções e de suas ligas nacionais no Oriente Médio. O maior entrave gira ao redor da geopolítica, numa crise diplomática que se arrasta há quase dois anos na região. Desde junho de 2017, uma série de países boicota os catarianos, em movimento liderado pelos sauditas – e que, vejam só, também conta com a participação dos Emirados Árabes Unidos. Por conta disso, jogadores e outros cidadãos do Catar enfrentaram problemas na viagem rumo ao torneio emiratense. Um ranço que se potencializa no confronto direto desta quinta, valendo a liderança da chave, entre duas equipes que mantêm os 100% de aproveitamento na Copa da Ásia.

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A crise diplomática ao redor do Catar possui o seu pano de fundo na década de 1990, quando Hamad bin Khalifa Al Thani virou o emir catariano. Ele colocou seu país, de uma relação de dependência com a Arábia Saudita, a um certo antagonismo com os vizinhos por posições políticas. Apesar das tensões recorrentes entre os governos, o alinhamento de ambos com os Estados Unidos evitava embates diretos. Contudo, no primeiro semestre de 2017, os atritos levaram à pressão e ao rompimento. O bloco inicialmente composto por seis países, encabeçados pela Arábia Saudita, alegou que o Catar apoiava o terrorismo, violando os acordos do Conselho de Cooperação do Golfo. Mais do que isso, outro ponto nevrálgico eram as relações dos catarianos com o Irã, que se ampliavam.

Os países opositores exigiam uma série de 13 atitudes do Qatar. Iam desde o esclarecimento das relações com grupos extremistas (incluindo Irmandade Muçulmana, Hamas, Estado Islâmico do Iraque e do Levante, Al-Qaeda, Hezbollah) ao pagamento de indenizações por medidas alegadamente “erradas”. Também incluíam o fechamento de uma base militar da Turquia no território catariano e o próprio fim da Al-Jazeera, grupo de mídia administrado pelo governo local. E, mais importante, além de imporem um alinhamento com os outros países do Golfo Pérsico (“militar, político, social e econômico”), também ordenavam a redução das relações diplomáticas com o Irã, a serem limitadas ao comércio, não mais à cooperação em inteligência militar.

Dentro disso, é importante entender outra queda de braço no Oriente Médio. A Arábia Saudita sunita e o Irã xiita possuem uma briga histórica pelo posto de grande influência na região. A aproximação do Catar junto ao governo persa significa, em contrapartida, a depreciação de seus vizinhos no Golfo Pérsico. Assim, os sauditas e sua turma iniciaram um bloqueio aos catarianos. A única fronteira terrestre do Catar, com a própria Arábia Saudita, foi fechada. Os países passaram a impedir o trânsito de aeronaves da Qatar Airways por seu espaço aéreo. Mesmo os portos dessas nações, sobretudo Arábia Saudita e Emirados Árabes, se tornaram fechados aos navios de bandeira catariana. E obviamente, como o Catar não acatou as demandas, Doha fortaleceu os laços (econômicos, mas também políticos e militares) com a Turquia e o próprio Irã.

Atualmente, o grupo de países que cortaram relações diplomáticas com o Catar inclui Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Egito, Iêmen e outros de menor importância ao contexto geopolítico, além da própria Arábia Saudita. Há outro conjunto que reduziu as relações, entre eles a Jordânia. Obviamente, existe uma pressão internacional considerável para que as conversas se restabeleçam. União Europeia e ONU estão envolvidas nesta demanda, assim como o governo de nações como China, Rússia, Índia, Irã, Turquia, Omã e Kuwait. Só que, enquanto as nações envolvidas no boicote não dão sinais que diminuirão as exigências, da mesma forma o Catar não pretende se curvar.

O futebol já havia sentido as consequências da crise diplomática em outros momentos. A Copa do Golfo precisou ser adiada e teve sua sede transferida para o Kuwait, depois que as seleções de Arábia Saudita, Emirados Árabes e Bahrein ameaçaram abandonar o torneio que seria realizado no Catar. Os jogadores destas equipes, inclusive, se recusavam a permanecer em coletivas de imprensa com jornalistas da nação inimiga. Já na Liga dos Campeões da Ásia, os clubes catarianos passaram a enfrentar verdadeiras epopeias em seus deslocamentos, por todos os entraves logísticos provocados pelo embargo, e seus jogadores tiveram problemas de visto para entrar nos territórios “proibidos”. A paranoia era tamanha que, em duelos contra os representantes do Catar, clubes dos Emirados Árabes chegaram a deixar suas braçadeiras com estrangeiros, apenas para que os atletas emiratenses não cumprimentassem seus rivais diplomáticos na entrada em campo. Enquanto isso, sinal da outra queda de braço, desde 2016 os jogos entre times da Arábia Saudita e do Irã ocorrem invariavelmente em campo neutro.

E a Copa da Ásia se transforma no ápice da crise diplomática dentro dos estádios. A própria chegada dos catarianos aos Emirados Árabes Unidos para a competição se tornou extremamente complicada. Deveriam gastar cerca de uma hora de voo, em condições normais. Acabaram encarando uma jornada de cinco horas, obrigatoriamente passando pelo Kuwait. Diante dos temores, a organização do torneio se comprometeu a facilitar os vistos para os torcedores, embora isso não parecesse garantia suficiente em um país onde demonstrar simpatia ao Catar pode levar à prisão. Não à toa, importantes dirigentes evitaram a viagem e a seleção catariana viajou ao certame com uma delegação reduzida. Entre a imprensa, cinco jornalistas previamente credenciados tiveram sua entrada em Dubai barrada.

Mais uma questão delicada envolve a transmissão oficial da Copa da Ásia. A beIN Sports, emissora esportiva administrada pelo governo do Catar, comprou os direitos exclusivos para todo o Oriente Médio. O problema é que sauditas, emiratenses, bareinitas e outros vizinhos se recusam a assistir aos jogos através do canal. Desta maneira, há uma ampla demanda pelos streamings piratas nestes países. Desde 2017, funciona na Arábia Saudita a BeoutQ, que se encarrega a distribuir o conteúdo ilegalmente. Segundo a beIN, o próprio governo saudita apoiaria as transmissões da BeoutQ.

Apesar de tudo isso, ambas as seleções tratam de botar panos quentes no jogo desta quinta-feira. “Acreditamos que o futebol é uma mensagem de paz. O slogan da competição é sobre unir a Ásia. Nunca pensamos que não iríamos apertar as mãos. Respeitamos todos os times”, declarou à Associated Press o porta-voz da federação do Catar, Ali Hassan Al-Salat. Enquanto isso, um dos membros da federação saudita se diz contra misturar política e esportes. “Somos jogadores de futebol, não políticos, e sempre respeitamos o Fair Play. É apenas uma partida. Somos uma equipe profissional e enfrentamos os times catarianos todo o tempo”, afirmou Turki al-Awad, ao The Guardian.

Até o momento, a seleção do Catar não tem enfrentado hostilidades evidentes na Copa da Ásia. Depois de vencer o Líbano diante de 7,8 mil espectadores, a goleada contra a Coreia do Norte registrou míseros 452 pagantes. Nesta quinta, todavia, tende a ser diferente. Os catarianos têm a vantagem do empate para avançar na primeira colocação do Grupo E, embora a Arábia Saudita deva conta com o amplo apoio da torcida em Abu Dhabi. Por mais que se tente dissociar do contexto, é impossível que ele não respingue de alguma forma. E os mata-matas devem guardar mais alguns capítulos desta crise diplomática, a depender dos confrontos, considerando ainda os outros países envolvidos. Prévia de um assunto que pode a se tornar muito mais denso a caminho da Copa do Mundo de 2022.