O terremoto no Nepal que vitimou mais de 7,5 mil pessoas e deixou mais de 15 mil feridos em 25 de abril foi um dos grandes e trágicos assuntos das últimas semanas, mas a dor e a lamentação pelo ocorrido não se limitou ao incidente. Respingou também no esporte, de maneira lamentável. Dentre as centenas de milhares de operários imigrantes que trabalham em condições sub-humanas nas obras para a Copa do Mundo de 2022, no Catar, estão 400 mil nepaleses. Muitos dos quais, segundo o jornal inglês Independent, foram impedidos de deixar o país para se despedirem dos entes queridos que perderam na tragédia em seu país-natal.

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A kafala, legislação trabalhista de imigrantes no Catar, é bastante restritiva, e os 400 mil nepaleses trabalhando no país tiveram seus passaportes tomados por seus empregadores e não conseguem permissão para ir para o Nepal. O Avaaz escreveu às autoridades catarianas, solicitando a liberação dos operários, mas ainda não recebeu uma resposta.

Em entrevista ao Independent, Sam Barratt, diretor de campanha do Avaaz, revelou o pedido da organização e cobrou do governo catariano a liberação dos trabalhadores. “Estamos pedindo que esses trabalhadores ganhem anistia para irem para casa. Eles estão trabalhando em projetos de infraestrutura da Copa do Mundo. O Catar foi construído com a mão de obra barata do Nepal, o mínimo que poderiam fazer é permitir que eles fossem para casa ficar de luto”, sugeriu.

Também em conversa com o jornal inglês, um operário que trabalha em Doha e pediu para não ser identificado contou brevemente sua história, em uma fala pequena, mas que já escancara muitos dos absurdos aos quais esses operários são submetidos na construção de uma Copa do Mundo que já deu motivos de sobra para ter sua sede alterada.

“Minha família vive em uma vila perto de Kathmandu. Desde o terremoto, não consigo falar com eles. Dois dos meus parentes em Kathmandu morreram no terremoto. Minha esposa e meus dois filhos estão dormindo na rua. Estou desesperado para voltar, mas não posso sair porque meu empregador não deixa. Não posso largar meu trabalho, porque tenho que pagar de volta o empréstimo que tomei para vir para o Catar”, contou o trabalhador.

As denúncias das condições de trabalho análogas à escravidão já rolam há muito tempo, com o Guardian tendo produzido o mais rico e aprofundado material sobre o assunto, ainda em julho do ano passado. Mesmo diante das informações, não só nada é feito para amenizar a situação desses operários, como a cada dia, a despeito de tantos incidentes lamentáveis, como a prisão de jornalistas alemães nesta semana, o Mundial no país ganha cada vez mais força. Nem mesmo a Uefa ou a ECA (European Club Association), que defendiam os poderosos interesses dos clubes europeus, conseguiram aplacar a continuidade do Catar como sede. Com data marcada e obras a todo vapor – e a todo custo, inclusive humano –, a Copa de 2022 já carrega em tão pouco tempo tantos fantasmas negativos. Celebrar o futebol nestes futuros gramados é inimaginável.