Entre os muitos problemas do Catar como sede da Copa do Mundo de 2022, o mais sério é a forma como ele trata os trabalhadores imigrantes, de países como Nepal, Índia e Sri Lanka, que estão construíndo os estádios do torneio. Relatos de escravidão, maus tratos e mortes. Para provar que a comunidade mundial está errada ao criticar o país, foi organizada uma maratona, e esses trabalhadores foram encorajados a participar dela, às duas horas da tarde, em 27 de março, quando as temperaturas já estão bem elevadas na região.

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Encorajados talvez seja um eufemismo porque há pelo menos um relato, colhido pelo site Doha News, que os organizadores obrigaram os imigantes a compor o evento. “A pior parte”, conta uma testemunha, “é que havia uma grande massa de trabalhadores usando calças jeans, chinelos e sem o equipamento correto de corrida. Alguns trabalhadores tentaram sair, mas foram obrigados a voltar e gritaram que eles precisavam ficar para cruzar a linha de chegada”.

Um porta-voz do clube confirmou ao The Telegraph que o evento pediu que as empresas “incentivassem” os trabalhadores “com trabalhos decentes” a participarem da meia-maratona, mas de forma voluntária. Também admitiu que gritou para que eles fossem até o fim, de forma encorajadora, porque queria bater o recorde mundial. Eram esperadas 50 mil pessoas para o evento entrar no Guiness, mas apareceram, no máximo, 33 mil. “Eu falei com eles de forma educada. Eles são pessoas também, certo?”.

O site da Mega Maratona do Catar afirma que a organização queria bater o recorde mundial em, “resposta à campanha dos invejosos do sucesso do Catar na candidatura à Copa do Mundo de 2022 e às falsas alegações de perseguição de trabalhadores e residentes do nosso amado país”. A maratona deveria ter sido realizada em 6 de fevereiro, Dia Nacional do Esporte, mas só conseguiu ser organizada para 27 de março. Também deveria ter 42 kms de percurso, como toda maratona, mas teve apenas 21. Foi encerrada após três horas pela polícia e não havia ninguém na linha de chegada para receber os corredores.

Se a ideia do clube era provar que o Catar é tão capaz quanto outro país, não funcionou muito bem. Se era provar que trata bem os seus imigantes, também não.