Assim como diversos outros países da América Latina, o Chile viveu um golpe de estado em 1973. No dia 11 de setembro, as forças militares atacaram o Palácio de La Moneda e mataram o presidente Salvador Allende, com o General Augusto Pinochet tomando o poder. Sem entrar no mérito de qual ditadura sul-americana foi mais pesada, os chilenos sofreram com a repressão e até mesmo o Estádio Nacional de Santiago foi usado para oprimir a população.

Entre os perseguidos, o principal jogador do futebol chileno no momento. Estrela do Colo Colo e da seleção, Carlos Caszely havia se transferido ao Levante meses antes. Partidário das ideias de Allende, prontamente se opôs ao golpe de Pinochet. E sofreu por sua posição política. Não na própria pele, mas na pele de sua mãe, torturada pelo regime.

“Eu penso que eles estavam me fazendo pagar pela oposição. Pagar por isso com o que era mais querido por mim – a minha mãe. Só porque eu disse não à ditadura. Eu disse não à ditadura em todos os níveis: não ao ditador, não à tortura. Então eles me fizeram pagar por isso com o que fizeram com minha mãe”, declarou Caszely.

Mesmo diante do uso do força, Caszely não cedeu a Pinochet. Em um encontro com o general, recusou-se a apertar sua mão. Continuou defendendo a seleção e, em 1978, voltou a jogar pelo Colo Colo. E ainda desempenhou papel-chave na reabertura política do Chile, em 1988, dois anos depois de ter se aposentado. Foi à televisão com sua mãe fazer campanha pelo “não”, no plebiscito que decidiu que Pinochet sairia do poder.

“Desde que eu era um garotinho e comecei a andar, segurando a mão do meu pai, as pessoas no distrito jogavam futebol contra uma parede, contra uma árvore, contra uma pedra, contra seu oponente. Com uma bola qualquer, seja de plástico, de trapo, de papel ou de lata. Com se nada mais existisse”, comentou Caszely, destacando o papel transformador do futebol.

A história de Caszely é contada no quarto capítulo da série Os Rebeldes do Futebol, documentário produzido por um cineasta francês e exibido pela rede de televisão Al Jazeera. O áudio é em inglês e o vídeo não conta com legendas, mas o episódio conta com cenas marcantes, como a prisão de pessoas no Estádio Nacional de Santiago e o depoimento da mãe de Caszely na TV. Nas semanas anteriores, foram contadas as histórias de Didier Drogba, Rachid Mekhloufi e Predrag Pasic. O último personagem será Sócrates.