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De um em um, Zinédine Zidane cumprimentava os seus jogadores após a conquista da Supercopa da Espanha. O clima era festivo, como não poderia deixar de ser. Ainda assim, o treinador pareceu se empolgar um pouco mais na hora de felicitar Casemiro. “Vem aqui. Outra vez! Bem, monstro, bem! Parabéns! Você é um monstro…”, dizia o francês, enquanto escancarava o sorriso no abraço com o volante. E o carinho especial pelo camisa 14 tem sua razão. Não é exagero colocá-lo como o melhor do Real Madrid nesta temporada. Mesmo com outros momentos brilhantes em sua história no Bernabéu, o brasileiro vive seu auge no clube.

Casemiro é imprescindível dentro do Real Madrid atual. A equipe de Zidane ainda não empolga como antes, mas ganhou consistência nos últimos meses graças à sua segurança defensiva. A sequência invicta na Liga e as vitórias emendadas a partir de outubro dependeram basicamente do encaixe na marcação. Federico Valverde é um fenômeno, Ferland Mendy deu mais proteção na lateral esquerda, Dani Carvajal fez o ótimo Álvaro Odriozola buscar novos rumos, Thibaut Courtois voltou ao seu melhor sob as traves, Sergio Ramos e Raphaël Varane mantém um altíssimo entrosamento. Apesar de tudo isso, a pedra angular dos merengues continua sendo a presença de Casemiro na cabeça de área.

O papel central de Casemiro na temporada começa, de fato, antes mesmo do início das competições oficiais. E tem origem nos 7 a 3 aplicados pelo Atlético de Madrid durante os amistosos nos Estados Unidos – uma goleada que hoje parece tão distante. Por conta da Copa América, o volante ganhou o direito de prolongar as suas férias. Viu de casa aquele massacre. O brasileiro já tinha passagens compradas para viajar à Disney com a família, quando resolveu mudar de ideia e remanejar o destino de seu próximo voo. Preferiu retornar à Espanha uma semana antes do previsto e iniciar a sua preparação com o time. O resultado do comprometimento se nota a cada rodada.

Casemiro é o jogador que contabiliza mais tempo em campo pelo Real Madrid na temporada, um total de 2.670 minutos. Somando todas as competições, o volante acumula 30 aparições com a camisa merengue – sempre como titular e em apenas dois jogos substituído. Zidane sabe que nenhum outro atleta do elenco tem capacidade para cumprir a função do brasileiro. E quando Federico Valverde ocupou a posição durante o embate contra a Real Sociedad pela Copa do Rei, a diferença foi visível, com a derrota por 4 a 3. A imprensa espanhola até já cunhou um nome à situação: é a “Casemirodependência”, segundo o Marca.

Embora seja titular do Real Madrid há cinco temporadas, Casemiro construiu sua história gradualmente antes disso. Em sua própria afirmação no Bernabéu, ganhou moral com diferentes treinadores. Trazido do São Paulo, até sob certa desconfiança por muita gente que via de fora, o novato passou uma temporada de adaptação no Real Madrid Castilla. Teve um período importante na filial, segundo suas próprias palavras, “para entender os valores do clube e os torcedores como se eu fosse formado na base”. Experimentou um lado bem menos glamouroso do madridismo, jogando na segunda divisão. Já sua estreia foi obra ainda de José Mourinho, em abril de 2013.

Antes de um jogo contra o Betis por La Liga, Mou chamou o garoto para uma conversa particular. O que Casemiro pensava ser uma possível bronca o surpreendeu, ao ver seu nome numa lousa, entre os titulares. “Eu te conheço, sei que você tem mais de 100 partidas pelo São Paulo. Você vai ser titular. Você joga muito, eu sei. Sei como você joga, fique tranquilo. Durante os primeiros 15 minutos, dê sua vida. Na primeira bola, arrebenta. O Bernabéu gosta disso, de quem transmite dentro de campo, de quem joga com o coração. Depois, um lançamento de 70 metros, Case, que o Bernabéu gosta também. Eu te conheço, vai com tudo”, disse Mourinho, conforme contou o próprio brasileiro em entrevista recente à Revista Líbero. Casemiro saiu do quarto se sentindo o melhor volante do mundo. E começaria aí, com bons 90 minutos e uma vitória por 3 a 1, sua ascensão no Bernabéu.

Mourinho não continuou em Madri, mas Carlo Ancelotti deu sequência a Casemiro no time principal durante a temporada seguinte. Seu espaço aumentou após uma lesão sofrida por Sami Khedira, que quase tirou o alemão da Copa do Mundo. Em especial, o brasileiro contribuiu em um dos momentos mais difíceis da Champions 2013/14, ao sair do banco e trancar a cabeça de área em meio ao sufoco contra o Borussia Dortmund na volta das quartas de final. O Real ganhara por 3 a 0 em Madri, mas já tinha tomado dois gols na Alemanha e perigava sofrer o terceiro. O trauma das semifinais de 2013 seguiam frescos na memória. O novato ajudou a acertar o sistema defensivo nos 20 minutos finais, entrando no lugar de Ángel Di María, e o risco não se concretizou.

Levado ao Porto, Casemiro viveu um bom ano no Estádio do Dragão. Fez o Real Madrid acionar uma cláusula de recompra para a temporada 2015/16. E, por mais que jogasse com frequência sob as ordens de Rafa Benítez, sua ausência no clássico contra o Barcelona em novembro de 2015, para privilegiar as estrelas do ataque na escalação, custou caro: os catalães golearam por 4 a 0 dentro do Bernabéu e o treinador perdeu seu emprego semanas depois.

Zidane demorou um pouco para promover Casemiro como titular, o que aconteceu a partir de março de 2016, logo após uma derrota no dérbi contra o Atlético de Madrid. O reencontro ante o Barcelona em abril, com vitória merengue por 2 a 1 no Camp Nou, confirmou seu lugar cativo no 11 inicial depois de uma baita atuação.  O crescimento do Real Madrid naquela reta final de temporada está diretamente ligado à solidez providenciada pelo camisa 14 – o time perdeu apenas um jogo a partir de então. Agora como coadjuvante, não mais como reserva, voltou a conquistar a Champions. E ainda faria isso mais duas vezes nos anos seguintes, com direito a gol na final contra a Juventus. Virou nome intocável na formação tricampeã continental.

Não que a passagem de Casemiro por Madri seja impecável. O volante costuma ser criticado por suas entradas duras e, com certa frequência, conta com a benevolência dos árbitros nos cartões. Porém, limitar sua definição como um “jogador faltoso” ou mesmo um “jogador de marcação” é pouco ao trabalho enorme que faz. Obviamente, sua grande tarefa está na cobertura que realiza à frente da zaga. Não é simples penetrar na área merengue, com o cão de guarda a postos. Vai firme nos combates e também sabe muito bem como cobrir os espaços na intermediária. Na atual temporada, está entre os três primeiros de La Liga em desarmes e passes interceptados. Apesar disso, sua função com a bola também é importante, e fica em evidência nesta campanha.

Casemiro possui uma qualidade técnica acima da média para um volante. Sabe sair jogando e oferece um bom passe, especialmente com seus lançamentos para acelerar o jogo. E tem chegado mais à frente, com liberdade para conduzir a bola e aparecer como elemento surpresa. Ao que se exige de um cabeça de área, o camisa 14 é completo. É refinado tecnicamente, é inteligente taticamente, é vigoroso fisicamente. Mais importante, sabe tomar decisões, entre jogar sério e arriscar um pouco mais. Em seu papel, raríssimos jogadores da posição se aproximam de suas capacidades. Não há quem ocupe sua vaga no Real Madrid. Como bem definiu Jorge Valdano em sua coluna no jornal El País, após os dois gols de Casemiro contra o Sevilla, “o antigo soldado virou general”.

Junto com o restante do time, Casemiro decaiu um pouco na temporada passada. No entanto, a escolha de Zidane para reformular o Real Madrid colocando o volante entre os pontos centrais tem os seus motivos. Aos 27 anos, o brasileiro atinge o pico de sua maturidade na carreira, entre a ótima forma física e a experiência adquirida por tanto tempo atuando em alto nível. Neste sentido, o protagonismo não é exatamente surpreendente. E num clube que vive sua transição, a liderança do camisa 14 corresponde à história vitoriosa que construiu.

O sucesso de Casemiro também está ligado à sua ética de trabalho. O grande ponto de virada na sua trajetória está na maneira como compreendeu a oportunidade que surgiu no Castilla. Diferentemente de muitos jogadores que vêm de fora, não se deslumbrou com a Europa. Pelo contrário, a “marra” relatada nos tempos de Morumbi se transformou em esforço e seriedade para crescer. Não teve vaidade de largar a camisa 8 para assumir um papel mais contido na proteção dos astros ao seu lado. E o que se nota em campo, no fim das contas, reflete a aplicação que é necessária no dia a dia para manter o seu nível de rendimento.

“O futebol não são 90 minutos. Sou doente pela forma como me cuido, como me recupero. Sou um dos jogadores que mais se cuida no mundo do futebol”, é o mantra de Casemiro, repetido em uma entrevista a Jorge Valdano. O meio-campista costuma chegar uma hora antes que os companheiros ao centro de treinamentos de Valdebebas, para trabalhar sua preparação física, e também complementa o trabalho na academia particular montada em sua casa. A amizade com Cristiano Ronaldo compartilha tal lição pela forma perfeita. E os elogios de Zidane após a Supercopa certamente não se delimitam apenas àquilo que se vê no campo, mas também compreendem o que se vive nos treinamentos e que é exemplo aos companheiros.

A própria entrega de Casemiro nos jogos valoriza um outro lado do futebol. O encontro com o Unionistas, pela Copa do Rei, é emblemático neste sentido. Enquanto muitos de seus companheiros pareciam indicar ao Real Madrid que estavam fazendo um favor por enfrentar um time pequeno, o meio-campista tratou o compromisso com a seriedade de qualquer outra partida. Não deixou de comemorar com empolgação a vitória e também recebeu elogios dos adversários, pela forma como os respeitou. Em seu tempo livre, o camisa 14 também costuma se dedicar ao futebol, assistindo a jogos e analisando adversários através de plataformas específicas. Entre a obsessão e a paixão pelo esporte, seu sucesso é compreensível – e merecido.

Ao Real Madrid, de uma maneira geral, não é o ideal ficar tão dependente de Casemiro. Qualquer lesão ou mesmo suspensão do volante poderia se tornar um suplício – como a seleção brasileira bem sentiu durante a Copa do Mundo. Valverde seria o nome mais indicado para substituí-lo, mas fica claro como o seu rendimento é mais alto jogando ao lado do brasileiro, também com Toni Kroos. Por isso, naturalmente, os merengues estudam trazer uma nova peça ao setor. O nome mais forte no noticiário é o de Eduardo Camavinga, volante que se tornou uma das maiores revelações da Ligue 1 com a camisa do Rennes. Parece um ótimo negócio, sobretudo a médio prazo. E que não ameaça a preponderância de Casemiro na cabeça de área.

Se um dia Casemiro foi “adotado” pelos medalhões do elenco, desta vez é ele quem começa a se colocar como um tutor no Real Madrid. Valverde já elogiou publicamente o companheiro pelos ensinamentos e pelo auxílio nos treinamentos. “Sempre serei grato a ele. É como um pai para mim”, declarou o uruguaio, em novembro. O novato até contou como o companheiro se tornou importante para acalmá-lo, tremendo ao ser anunciado como titular antes do clássico contra o Atlético de Madrid durante o primeiro turno. O resultado do apoio se nota com a evolução meteórica de Valverde. O mesmo poderá acontecer com Camavinga.

E, se por um lado, a dependência de Casemiro é um problema ao Real Madrid, por outro os merengues precisam agradecer por ter o camisa 14. De certa maneira, a contratação do volante foi uma aposta sem tantas expectativas, mas também sem muitos riscos. Gerou um dos esteios da equipe, numa posição que não está entre as mais bem servidas do futebol mundial atualmente. Contam-se nos dedos (de uma mão) os cabeças de área que poderiam suplantar Casemiro no Santiago Bernabéu. Mesmo assim, são tão confiáveis quanto ele?

Embora o Real Madrid costume se orgulhar de seus atacantes lendários e das contratações bombásticas, há outros jogadores que merecem um lugar privilegiado na história do clube. Casemiro reivindica esse espaço. Mesmo como coadjuvante no tri da Champions, possui um currículo vitorioso o suficiente. E o momento de protagonismo vale para valorizar seu trabalho ainda mais, após quase sempre realizá-lo sem tanto alarde.

Pessoalmente, esta reformulação do Real Madrid tem seu lado positivo. Mesmo que o clube tenha vivido outras fases mais vistosas recentemente, tal estilo de jogo aplicado pelos merengues serve para botar Casemiro em evidência. E que pareça faltar mais um pouco para o time brigar pela Champions desta vez, a conquista de La Liga continua bem palpável. Num torneio que premia a regularidade e a consistência, nada melhor que o título para coroar o camisa 14. A quem se faz notável por tantas taças erguidas, um troféu em meio à “Casemirodependência” seria a chave para sacramentá-lo entre os brasileiros mais importantes que já passaram pela Espanha.