Carlos Carvalhal não teve uma passagem tão expressiva pelo futebol inglês, mas deixou uma boa impressão principalmente pela forma de ver o futebol. As entrevistas do treinador português no Swansea e no Sheffield Wednesday eram atrações à parte. E as análises de Carvalhal seguem interessantes neste momento excepcional de pandemia, diante de desafios que exigem uma análise mais profunda. Em entrevista ao jornal The Guardian, o atual comandante do Rio Ave deu respostas que saem do lugar comum para refletir sobre a paralisação.

“Antes dessa situação, eu nem sabia que tinha flores em meu jardim. Quando isso acabar, acredito que olharei para minhas flores o tempo todo. Estou falando simbolicamente. Podemos olhar para as pequenas coisas, não apenas para as grandes”, refletiu Carvalhal. O treinador precisou redobrar sua cautela dentro da própria casa, já que tem dois filhos diabéticos. Durante o início da quarentena, ele passou a morar no apartamento de um amigo, visitando a família durante as refeições – mas com distanciamento e medidas de proteção. Agora, voltou para casa, mas evitando as áreas comuns.

Enquanto isso, a nova rotina também se aplica aos treinamentos do Rio Ave. Quinto colocado no Campeonato Português e em boa sequência até a suspensão do torneio, o time retomou suas atividades no início de maio, para voltar a atuar no final do mês. Todavia, os exercícios precisam seguir as orientações de isolamento, com o trabalho gradual em pequenos grupos até a retomada completa dos treinos. Um desafio por si.

“Não posso dizer que não gosto do desafio. Estamos usando nosso cérebro o tempo todo. Mas devemos ser muito criativos, tentando simular o jogo. Como posso fazer os jogadores, quando estão um aqui e outro ali, pensar que estão jogando uma partida de futebol? E como eles podem fazer o trabalho tático, de organização? É um teste interessante”, pontuou.

Para Carvalhal, a volta do Campeonato Português pode ser positiva. O treinador vê o futebol como um exemplo ao restante da sociedade. Segundo ele, os clubes do país já estavam tomando medidas preventivas muito antes de outros setores – e ele chegou a dar uma “bronca” em seus pais octogenários, que insistiam em fazer compras durante o início da pandemia. Carvalhal aponta que o respeito às regras foi um dos méritos de Portugal ao controlar a doença. E, para ele, o futebol pode orientar a reabertura.

“Sabemos que estamos tomando alguns riscos. Mas precisamos salvar o futebol em Portugal. Se não jogarmos, haverá caos nos clubes. Ninguém nos pressionou, mas entendemos a situação. Ao mesmo tempo, o estado de emergência acabou. Então, minha esperança é que, se continuarmos com nosso trabalho respeitando as regras, então talvez possamos dar um exemplo à sociedade”, declarou o treinador.

Além do mais, embora prefira os jogos com público, Carvalhal entende a importância de voltar a campo com portões fechados neste momento. O futebol precisa evitar um impacto maior nas suas contas e o dinheiro da televisão servirá para isso. Para o comandante, os clubes necessitam ser menos dependentes dos direitos de transmissão. Em compensação, a retomada pode ser um momento de transformação à liga local, e o mercado de transferências será determinante neste novo passo.

“Não se trata apenas de dinheiro, mas de respeitar a sociedade. Se os negócios não têm muito dinheiro, os clubes não querem gastar muito e dar mau exemplo. Haverá um ano em que os times terão certa relutância em fazer grandes transferências, de modo que o mercado intermediário terá mais movimentações que o mercado principal”, pontuou.

A volta do Rio Ave ao campeonato tem uma motivação a mais. Além de pleitear uma vaga na Liga Europa, o time sustenta uma invencibilidade de nove partidas. Com mais uma, quebrará seu recorde histórico na primeira divisão, registrado pelo então treinador Félix Mourinho – o pai de José: “Meus amigos disseram quando acertei com o Rio Ave: ‘Você tem uma grande autoconfiança ou está maluco, porque, se as coisas não derem certo, sua carreira será muito difícil depois’. Agora, estou pronto para ligar a Mourinho depois do nosso décimo jogo de invencibilidade. Quero apenas dizer: ‘Três congratulações ao seu pai: batemos o recorde, mas sou seu amigo e seu pai foi um grande treinador'”.

Por fim, Carvalhal deixou uma mensagem positiva sobre a relação do futebol com o restante da sociedade: “Acredito que a sociedade e o futebol estão o tempo todo juntos, chegarão a uma nova harmonia. Como isso será exatamente, ainda não sabemos. Mas podemos agir juntos e aprender uma grande lição. O coronavírus é uma oportunidade de fazer algo melhor”.