Reportagem publicada originalmente no Puntero Izquierdo. Conheça e apoie o projeto

Por Paulo Júnior, do Puntero Izquiero

No inverno de 1987, Seu Nestor tinha duas certezas na vida. Primeiro que, aos 80 anos, independentemente do sol, a caminhada matinal tinha de ser sempre muito bem agasalhado, faz frio na terra da garoa, e ainda chove o ano todo, um resfriado e não consigo ir ao Morumbi, fico derrubado no sofá. Segundo, o São Paulo Futebol Clube: esse time, mesmo sem o Careca, vai bater campeão de novo, pode escrever.

Depois do título brasileiro no ano anterior, a equipe fez uma Libertadores frustrante, mas cresceu no segundo turno do Paulista e foi para as semifinais que reuniram os quatro grandes do estado. Despachou o Palmeiras e chegou à decisão contra o Corinthians, levantando a taça em casa diante de mais de 100 mil pessoas.

Durante toda aquela campanha, Nestor se empolgava ao falar de Silas, Pita e Muller todas as manhãs, em conversas com um funcionário do lugar onde dava suas voltas logo cedo. O jovem com o crachá do Instituto de Pesca, alojado ali no Parque da Água Branca, também fazia seus exercícios antes do trabalho, e vestia uma camiseta do São Paulo, ainda que nunca tenha sido alguém que acompanhasse futebol regularmente — no máximo gostava do Waldir Peres, e dos papos com aquele senhor. Nestor, diariamente acolhido por sua jaqueta tricolor, não se conformava que aquele menino de bom papo, recém chegado na vida adulta, era responsável por um trabalho braçal tão duro, de horas sob o sol.

– São-paulino, eu vou te dar uma coisa que um dia vai mudar sua vida.

Nestor de Almeida, o primeiro goleiro da história do São Paulo Futebol Clube, era por consequência disso o sócio-atleta número 1 do atual tricampeão mundial. Naqueles dias, ele resolveu dar a sua carteirinha histórica, guardada como a grande lembrança da vitoriosa vida de atleta, para o rapaz do parque.

As três carteirinhas: sócio honorário; acesso às tribunas especiais; e sócio-atleta número 1

Ronaldo Mazotto de Lima ainda tinha seus 20 e poucos anos quando arrumou um emprego na Penitenciária do Carandiru, pouco depois do massacre que matou 111 detentos em outubro de 1992. Com um histórico de carceireiros na família, foi incentivado a tentar um trabalho na repartição pública, onde se mantém até hoje, agora deslocado para o presídio de Serra Azul, no interior paulista, junto de outros colegas desde a desativação da mais famosa cadeia do país, em 2002. Trocou os bichos e o verde do Parque da Água Branca, no distrito da Barra Funda, em São Paulo, pela rotina do cárcere — antes na própria capital, hoje na quieta e pequena cidade próxima de Ribeirão Preto.

Os objetos que ganhou de Nestor em 1987 estão bem preservados, selados por vidros, como se prontos para serem expostos, além de fotografados e xerocados num caderno-arquivo. Além da carteirinha de primeiro sócio do São Paulo, está uma posterior, de sócio honorário, e um cartão que garantia a Nestor o acesso às tribunas especiais do Morumbi.

Ronaldo Mazotto, o colecionador, em Serra Azul | Foto: Paulo Junior/Puntero

Ronaldo, também conhecido como Mazotto Carandiru, é considerado um dos maiores colecionadores relacionados ao complexo. Diz ter cerca de 5 mil itens, e é figura certa em filmes e reportagens sobre o massacre, principalmente nas tantas feitas no ano passado, em que o evento completou 25 anos. Segundo ele, pedia autorização à direção da penitenciária para registrar fotos e vídeos dos detentos, e os objetos guardados foram se acumulando quando ele revisava os lixos após as vistorias nas celas e também por meio de trocas — um maço de cigarro, a moeda corrente, por uma peça de artesanato, por exemplo.

Visitei a casa de Mazotto em fevereiro deste ano. Ele me contou algumas impressões sobre a vida no cárcere: de forma geral, defende a atuação policial e critica “essa coisa de Direitos Humanos”, inclusive testemunhando, na Justiça, a favor da PM no massacre de 1992. “A coisa lá era tão pesada que você vai se acostumando. Perdi as contas quantas vezes fui feito de refém. É gente cortando a cabeça do outro o tempo todo. Então a polícia precisou agir naquele momento, estava tudo sendo destruído”.

Em setembro de 2016, o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou os julgamentos que condenaram 74 policiais militares pelo massacre. Em outubro do ano passado, levantamento do UOL mostrou que, entre os PMs processados, 58 foram promovidos entre outubro de 1992 e 2017 — pelo menos três por mérito, e os demais por tempo de serviço.

Agora, Mazotto sonha em viver de exposições e palestras sobre o que aprendeu ao longo desses anos, como uma contribuição para tirar os jovens da criminalidade. Acredita que virar bandido seja uma opção e que “não tem essa de sociedade, é o cara que escolhe”. Não gostou do filme Carandiru, de Hector Babenco, inspirado no livro de Dráuzio Varella — “aquilo não mostra a realidade, o doutor não saía andando pelas celas daquele jeito” — , ainda que respeite o trabalho do médico e tenha gostado bastante da série Carcereiros, baseada em outra obra de Dráuzio e que já está disponível na internet, mas estreia na TV Globo em breve. “Ali, sim, mostraram nossa rotina”.

Caderno de Mazotto, um arquivo de todos os itens que possui | Foto: Paulo Junior/Puntero

Chegamos à carteirinha. O agente disse que já teve muitas ofertas pelo objeto, como a de uma liderança da escola de samba Rosas de Ouro que lhe ofereceu uma cadeira cativa no Morumbi em troca da relíquia. Anunciou a peça na internet sob o preço de R$150 mil. Conta que, há uns sete anos, uma pessoa do São Paulo ofereceu metade disso.

Os clubes brasileiros, via de regra, abrem seus museus para receberem doações e não têm uma verba para reaver objetos do tipo. Pelas conversas que a reportagem teve com especialistas da área, a proposta a que se refere Mazotto possivelmente foi uma sondagem ou uma curiosidade pessoal de alguém que gostaria de saber o preço pedido pelo vendedor.

Ainda assim, é fato que o São Paulo Futebol Clube sabe do paradeiro das peças e convive com diversas abordagens de seu atual dono. Mas ninguém gostaria mais de revê-las que o último atacante a parar nas defesas de Nestor de Almeida.

Um dos primeiros times do São Paulo, com Nestor (ao centro) e Friedenreich (terceiro da esquerda para a direita) | Foto: Acervo Pessoal Luiz Fernando Foz

Luiz Fernando Foz mostra, orgulhoso, uma cópia da foto de seu casamento, em 1976, com ele, claro, o noivo, em primeiro plano; e com Nestor atrás, um dos padrinhos.

Cresceu com o tio-avô o levando, garotinho, para ver as obras do Estádio do Morumbi. Andavam sobre as faixas de madeira, os sapatos cheio de barro, só para que Nestor pudesse parar no lugar exato e apontar sob os olhares fixos do sobrinho.

– Aqui vai ser o meio-campo do nosso estádio. Um gol ali, o outro do lado de lá. Arquibancadas em toda a volta.

Luiz Fernando Foz, sobrinho de Nestor de Almeida, é o grande herdeiro da paixão futebolística do goleiro | Foto: Paulo Junior/Puntero

Depois, frequentava religiosamente as cativas vermelhas do Cícero Pompeu de Toledo, onde conviveu com os amigos do tio: Gino, Poy, Luisinho, entre outros.

– Lembro da estreia do Casagrande, aquela época a gente ia a todos os jogos. E nesses anos eu ia sendo apresentado aos ex-jogadores do São Paulo, batendo papo com uns senhores que depois eu ficava sabendo tudo que tinham feito pelo clube.

Nestor tinha em Luiz seu grande fã e amigo de arquibancada. Na infância, desafiava o sobrinho em chutes a gol onde quer que estivessem, vai, pode chutar forte, tá pensando o quê? Luiz era bom de bola, dava trabalho ao velho. Foi camisa 10 do Paulistano em torneios interclubes na cidade e, ainda adolescente, tentou uma peneira no Corinthians, onde a experiência não foi das melhores — um atacante do time oposto fez cinco gols, e Luiz, na meia da equipe goleada, mal pegou na bola.

Passada a frustração, seguiu firme no futebol amador e foi tocar a vida, sempre na companhia de Nestor. Desde então, frequenta o Paulistano e o Morumbi com a vida futebolística atravessada pelas memórias que tem do tio.

*

Nestor fez só 35 jogos com a camisa do São Paulo. Foi o guardião, termo usado pela imprensa na época, na primeira partida do novo clube pelo Campeonato Paulista, há 88 anos, em 16 de março de 1930.

Rara imagem de uma defesa de Nestor | Fonte: Arquivo Histórico do São Paulo FC

E tinha tudo para jogar muito mais. Eram só 24 anos de idade quando encerrou a carreira precocemente após uma dividida num jogo contra o Palestra Itália, no Parque Antártica, em 1 de maio de 1931. O lance, no relato do historiador do São Paulo, Michael Serra:

– No começo do segundo tempo, ele dividiu uma jogada com o Osses, do Palestra. Ambos caíram, mas Osses logo levantou. Nestor não. Passados uns cinco mintuos de atendimento do massagista, ele ainda tentou ficar em campo, mas Barthô que cobrou a falta, porque ele mal se firmava em pé. Nem dois minutos depois, ele saiu de campo, por volta dos 15, carregado para o vestiário com uma contusão séria no joelho, e Luisinho teve de ir para o gol. Armandinho também estava com o pé torcido desde os cinco minutos de jogo. Com dois atletas a menos, o time são-paulino se postou heroicamente em campo (principalmente os defensores Clodô e Barthô, além de Bino, na linha média), não deixando o time mandante chutar uma vez sequer no gol, mesmo de longe, durante quase toda a etapa complementar. Mas, aos 42 minutos, o tento injusto de Aldo aconteceu e Luisinho nada pode fazer para impedir a derrota.

A Revista O Tricolor, em 1931, estampando uma ponte de Nestor | Fonte: Arquivo Histórico do São Paulo FC

Folha da Manhã, na edição do dia seguinte, criticou o jogo e relatou a infelicidade de Nestor:

– O jogo entre as turmas do S. Paulo F. C e o Palestra Itália reuniu, ontem, no velho campo do Palestra, uma assistência bastante numerosa e muito animadora. O jogo, entretanto, não correspondeu ao que era esperado. Foi falho de technical e cheio de lances medíocres. Dava mesmo a impressão de que estavam jogando quadros secundários (…) A segunda parte foi deveras desastrosa. O S. Paulo foi logo no começo gravemente prejudicado pelo lamentável acidente que vitimou o seu guardião Nestor. Isso obrigou a vinda de Luisinho para a meta, resultando um novo enfraquecimento da linha atacante.

O último onze do primeiro goleiro, portanto: Nestor; Clodô e Barthô; Milton, Bino e Arminana; Luisinho, Siriri, Friedenreich, Araken e Armandinho.

Aquele Estadual de 1931 teve o São Paulo como campeão, no seu segundo campeonato e também no segundo Paulista unificado, depois de anos de cisão entre a elite (Liga de Amadores de Futebol, a LAF, formada por Paulistano, Germânia e outros clubes tradicionais) e os populares (Associação Paulista de Esportes Atléticos, a APEA, com Palestra Itália, Corinthians, Santos, Portuguesa e companhia). Os dois eventos, inclusive, são conectados: à medida que termina a liga dos ricos, o Paulistano fecha seu departamento de futebol e funda, junto da Associação Atlética das Palmeiras, o novo São Paulo. Assim, jogadores do Paulistano, campeões estaduais de 1929, mudaram de casa, entre eles o goleiro Nestor.

Naqueles tempos pré-profissionalismo, os jogadores tinham, por regulamento, de fazer parte do quadro de associados do clube que defendiam nas competições oficiais. É por iso que Nestor, o primeiro goleiro, acabou com a carteirinha 1.

Antes, começou a jogar no infantil do São Bento, onde depois brigou ponto a ponto pelo título paulista de 1924 (vencido pelo Corinthians), com 17 anos. Foi então convidado pelo Paulistano, onde fez parte da famosa excursão de 1925 quando o time, pioneiro, fez 10 jogos em 43 dias na Europa, venceu 9 e ganhou o apelido de Reis do Futebol. Mais do que as partidas — Nestor foi o goleiro em cinco jogos -, ficam as histórias narradas no livro do atacante e escritor Araken Patuska, chamado, claro, Os Reis do Futebol:

– O Nestor negociara com o Netinho uma libra, pagando-a quarenta mil réis. Contando a transação ao Filó, este perguntou se a nota inglesa que lhe fora entregue estava escrito “One Pound”, o que na opinião do Filó queria dizer um quarto de libra. Nestor zangou-se com a estória e foi pedir satisfação ao Netinho, que logo se prontificou a restituir os quarenta mil réis, provando assim a seriedade do negócio.

 
Time do Paulistano que jogou na Europa, com Nestor, jovem, no gol. | Fonte: Acervo Clube Athletico Paulistano

Em determinado momento, por entre as descrições desses detalhes da longa viagem de navio, Araken revela os apelidos dentro do elenco. Todos eram ‘reis’, ainda mesmo na ida para a Europa. Nondas era o Rei do Vômito, Netinho era o Rei da Embromação, Guarany era o Rei das Poucas Falas. Nestor era o Rei da Elegância.

O décimo jogo da viagem aconteceu em Lisboa, em 26 de abril de 1925, quando o Paulistano fez 6–0 num selecionado português. Lá, jogou Kuntz no gol, e Nestor voltou acompanhado do grande amor de sua vida. A portuguesa Aurora se meteu no navio brasileiro para tentar a vida por aqui, na companhia do novo namorado. Ela era mais velha, na casa dos 30, e viveram juntos por quarenta anos, toda a vida dela a partir dali. Tiveram um filho, mas que morreu ainda criança. E apesar de grandes companheiros, Aurora não foi tão próxima da família do goleiro, que estranhava o casal.

Há quem diga que, não fosse a briga entre paulistas e cariocas que levou só jogadores de times do Rio à Copa do Mundo de 1930, Nestor poderia ter ido ao Mundial. Ele fazia parte do grupo dos 19 jogadores paulistas que treinavam sob convocação da CBD, em maio, numa segunda etapa de definições para a seleção, junto dos colegas de time Clodô, Barthô e Friedenreich. Em entrevista ao Diário de Notícias, do Rio, Fried chegou a escalar sua seleção ideal, com Amado no gol e ele na frente. No fim, não houve acordo para uma participação paulista na cúpula da equipe, a federação local vetou os jogadores do estado e só atletas do Rio foram ao primeiro Campeonato do Mundo, reforçados por Araken, ex-Santos, que sem contrato encontrou uma brecha para ser selecionado.

Nestor morreu em agosto de 1992, aos 85 anos, em tempo de ver o São Paulo campeão da América. Mazotto ficou sabendo, na época, porque conhecia onde o colega de caminhada morava, ali na Turiassu, ao lado do Parque da Água Branca e do Parque Antártica. Onde terminou a carreira, numa entrada de Osses; e onde ficou a lembrança, na mochila de Mazotto.

*

– Eu fui num treino do São Paulo há alguns anos e o pessoal me apresentou ao Rogério Ceni. Quando ele me viu, nossa… até me emociono. Me abraçou, saiu do campo me levando abraçado pelos corredores, apontou uma foto do meu tio num pôster na parede e foi até a sala da diretoria. Não tinha ninguém. Ele abriu um armário, tirou uma medalha de prata e me deu. Disse que era um orgulho gigantesco ter conhecido alguém da família do Nestor, que era um grande ídolo são-paulino.

Mais da Revista O Tricolor, quinzenalmente com conteúdo são-paulino na época | Fonte: Arquivo Histórico do São Paulo FC

Luiz guarda o presente com raro cuidado, mas lamenta a história das tais carteirinhas. Se lembra exatamente do dia em que Nestor lhe contou que havia presenteado um funcionário no parque onde fazia as caminhadas matinais. Foi Luiz, inclusive, quem me contou essa história há alguns anos, quando de uma entrevista sobre a excursão de 1925. Aliás, no museu do Paulistano, na área nobre do Jardim América, em São Paulo, estão objetos e placas de Nestor que Luiz cedeu ao clube em troca de tê-los expostos. Lhe atormenta a ideia de que as memórias relacionadas ao São Paulo Futebol Clube não tenham o mesmo caminho. Quem vai pagar os R$150 mil pedidos? Ninguém sabe. O sobrinho respeita o direito do atual proprietário — “o Nestor deu para ele, oras, ele está no direito, o que eu posso fazer?” -, mas lamenta o paradeiro.

Enquanto isso, Mazotto segue buscando recursos para finalmente fazer o seu museu e bancar suas exposições, amparado na frase que não esquece, vinda daquele inverno de 1987:

– São-paulino, eu vou te dar uma coisa que um dia vai mudar sua vida.

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