O futebol e a música no Brasil sofreram verdadeiras revoluções na década de 1930. Um fenômeno explicado pela consolidação do rádio nas massas. O que as ondas levavam consigo ganhavam um grande apelo popular, e assim era com jogos e canções. No entanto, a transformação também dependeu de grandes personagens. A profissionalização em 1933 foi um passo fundamental ao futebol, abrindo as portas de vez a todos e melhorando o nível das equipes. E a consequência maior veio em 1938, quando a Seleção expandiu fronteiras em definitivo com a grande campanha na Copa do Mundo. Enquanto isso, a música brasileira também via surgir sua primeira estrela de fama internacional. E era impossível que a bola não cruzasse o caminho de Carmen Miranda, a Pequena Notável que o Brasil perdeu há 60 anos.

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Antes de se tornar uma estrela de Hollywood e antecipar Pelé como um fenômeno brasileiro nos Estados Unidos, a portuguesa de nascimento ganhou reconhecimento no rádio. Época em que o futebol também ganhava cada vez mais espaço na programação. Em 1932, quando ainda não tinha emplacado os seus maiores sucessos, gravou a canção “2×2”. A letra compara um jogo de futebol com um encontro de namorados. Composição de ninguém menos do que Lamartine Babo, o autor dos hinos dos clubes cariocas, que no ano seguinte entregaria para a cantora “As Cinco Estações do Ano” e “Moleque Indigesto”, dois hits da época.

Seis anos depois, quando Carmen Miranda já tinha gravado “Cantoras do Rádio” e já vivia o auge da fama no Brasil, interpretou o seu sucesso mais boleiro. Emprestou a voz para homenagear o que a Seleção fizera no Mundial da França, em especial Leônidas da Silva. O craque era o principal personagem de “Deixa Falar”, escrita por Nelson Petersen. A letra fala sobre o Diamante e o Caboclinho, apelidos do centroavante, que “deixou o mundo inteiro em revolução”. O início da música, aliás, começa com uma narração de Ary Barroso sobre o jogo contra a Tchecoslováquia, nas quartas de final da Copa. Colega da cantora na Rádio Nacional, ele criaria em 1943 sua composição mais marcante, Aquarela do Brasil. Também eternizada muito graças à Pequena Notável.

Inclusive, Barroso traçava um paralelo entre a cantora e outro craque daquela geração, Domingos da Guia: “O maior jogador de todos os tempos foi Domingos da Guia, comparável a Carmen Miranda: ela não tinha grande voz, não era muito bonita de corpo nem de rosto, mas era a maior; Domingos não sabia chutar, e apesar de ser até meio corcunda, também era o maior”.

A partir de 1940, Carmen Miranda passou a participar dos filmes de Hollywood, até se mudar de vez para os Estados Unidos. Ela se manteve mais distante do futebol brasileiro, mas não por completo. Em 1950, sua marchinha “Touradas de Madri” passou a ser cantada também nas arquibancadas do Maracanã, embalando a campanha do Brasil na Copa de 1950. A festa da torcida na goleada sobre a Espanha, já no quadrangular final, se tornou um dos momentos mais marcantes da história da Seleção. Só não teve um final feliz, diante do Uruguai.

Sofrendo com a depressão e a dependência de substâncias químicas, Carmen Miranda morreu cedo. Tinha apenas 46 anos quando sofreu um colapso cardíaco em sua casa em Bervely Hills, em 4 de agosto de 1955. Três anos antes que a Seleção conquistasse sua primeira Copa do Mundo, não pôde outra vez emprestar sua voz ao futebol. Mesmo assim, já havia deixado um legado notável. Que ajudou a marcar não apenas o futebol em si, mas um período de transformações na cultura brasileira.