Uma das grandes discussões no futebol dos Estados Unidos é sobre o pagamento igualitário. As jogadoras da seleção feminina moveram um processo contra a US Soccer exigindo pagamento de prêmios iguais aos da seleção masculina. O grito de “equal pay” reverberou forte, especialmente pelo sucesso da seleção americana na Copa do Mundo de 2019, com o título. Em dezembro, Carli Lloyd, uma das estrelas do time, foi convocada para um depoimento no processo. E o diálogo dentro do processo ganhou repercussão.

“Você acha que o time poderia ser competitivo contra a seleção masculina?”, pergunta um advogado da US Soccer à estrela da seleção feminina. “Eu não tenho certeza. Deveríamos jogar para ver quem ganha e então passarmos a ganhar mais?”, respondeu Lloyd. A estratégia da US Soccer foi muito criticada. E a crise gerada pela repercussão enorme fez com que os jogadores do time masculino tenham ficado ao lado das colegas da seleção feminina; patrocinadores se posicionassem a favor do pedido das jogadoras; e críticas tenham sido duras na imprensa contra os dirigentes.

O argumento que as jogadoras tinham menos habilidade que os jogadores gerou uma crise enorme. Carlos Cordeiro, presidente da entidade, renunciou. Cindy Parlow Cone, ex-jogadora da seleção, assumiu o cargo interinamente. Mudou a estratégia legal da federação e já anunciou que tentarão um acordo, e não que o processo seja julgado.

Em entrevista ao podcast Planet Fútbol, da Sports Illustrated, a jogadora falou sobre isso. “Todo o argumento de ‘não ter a mesma habilidade que os homens’, parecia ser algo preto ou branco”, afirmou. “Eu não quero ninguém nunca entre em uma sala e me diga que eu tenho menos habilidade que os homens, porque eu acho que minhas habilidades são mais eficientes e muito melhores que muitos jogadores homens”.

“Mas eu não tenho os atributos físicos e a velocidade e força que eles nascem”, afirmou. “Nenhum de nós mulheres têm. Há algumas jogadoras incrivelmente habilidosas que jogam futebol e é decepcionante para nós ouvir de novo e de novo o argumento que não somos tão habilidosos quanto os homens. Então eu tive que encontrar algumas observações engraçadas apenas para manter o clima leve. E esse foi apenas um deles que saiu e se tornou público”, revelou Lloyd.

“Como um todo, nós precisamos de uma mudança de cultura”, afirmou Lloyd. “Nós precisamos que todo mundo se sinta unido. Eu desejo que nós nos integremos mais com o time masculino. Eu quero que nós tenhamos treinamentos lado a lado. Talvez para os treinamentos de janeiro nós poderíamos todos ir para o mesmo lugar e termos um pouco mais de interação. Porque desde que eu comecei a jogar pela seleção, isso nunca aconteceu. O slogan é ‘Uma nação, um time’ e eu acho que nós precisamos realmente criar uma ponte para isso”.

“Eu não estou dizendo que nós precisamos integrar as práticas, mas eu acho que seria divertido fazer uns bobinhos com os caras, nos misturarmos e termos algumas de nós, mulheres, lá com os homens. Seria divertido. E então, quando você assiste aos jogos deles e você vai conhecer mais com esses jogadores, você os atrai mais e meio que os entende melhor do ponto de vista do relacionamento. Então essa é a minha ideia. E talvez isso aconteça um dia”, declarou ainda a jogadora.

A ideia não é inédita e nos últimos tempos as duas seleções têm se aproximado. O time masculino inclusive passou a fazer campanha pelo “equal pay”, para pagamento igualitário das premiações da federação americana, a US Soccer. A proximidade entre os dois times poderia fazer com que as duas categorias brigassem juntos nos acordos coletivos, o que daria mais força à campanha por pagamentos iguais.

Lloyd é uma das principais jogadoras do mundo e vive dias bastante diferentes em relação ao que estava acostumada na sua vida de atleta de alto nível. Com a paralisação do futebol por causa do coronavírus, a jogadora está ficando mais tempo sem casa com a família. Ela tem treinado em casa, com seu treinador pessoal, James Galanis.

“Eu provavelmente estou tendo um treinamento melhor agora do que nunca na minha carreira, porque não tenho mais nada para focar. Eu não tenho que me preocupar com compromissos, nenhum lugar para viajar, sem agenda. Eu tenho uma pista de corrida aqui perto que eu uso, e tenho um campo também. Os próximos meses ou qualquer que for o período que isso vai durar será realmente enorme para mim. Então, eu vou aproveitar a oportunidade como eu puder”, afirmou o jogador.

Lloyd completará 38 anos em julho. Ela esperava participar da Olimpíada de Tóquio, que seria em julho e agosto deste ano, mas foi transferido para 2021. A jogadora tem como objetivo chegar até a Olimpíada em 2021 para, aí sim, encerrar a carreira. Por isso, o treinamento em casa acaba sendo crucial para que ela mantenha o máximo possível da forma.

“Mesmo que todos nós adoraríamos competir neste verão, eu acho que foi no melhor interesse de todos o adiamento, atletas, trabalhadores de saúde, pessoas ao redor do mundo, torcedores”, afirmou a jogadora. “Por ninguém está com a cabeça no lugar agora. Ninguém está na sua agenda de treinamentos normal. Então, para mim, novamente, é encontrar o lado bom nas situações mais difíceis. Eu tenho mais um ano para me preparar, nosso time tem outro ano para se preparar. Espero que o país e o mundo possam se recuperar do que está acontecendo agora”.

“Eu não tenho uma data em si na minha cabeça para oficialmente me aposentar. Eu acho que outro ano é provavelmente a hora certa. Espero que eu continue a ter bom desempenho e chegue ao elenco da Olimpíada de Tóquio, e não tem nada que eu queira mais que uma medalha de ouro com minhas companheiras e voltar para o pôr do sol”, disse Lloyd.

Nos últimos meses, Lloyd chegou a ser especulada como kicker em times da NFL, depois de fazer um treino e mandar a bola a 50 jardas. Ela, porém, desconversou. “Primeiro de tudo, eu sou uma jogadora de futebol, e esse é o meu objetivo e minha motivação para ser o melhor que eu posso”, afirmou Lloyd. “Neste momento, meu foco é obviamente outro ano de preparação do futebol. Então nós veremos o que acontece”, afirmou a jogadora.

Estar no elenco da Olimpíada de Tóquio será um desafio para Lloyd, que terá 39 anos quando chegar o momento dos jogos. E espera convencer o técnico Vlatko Andonovski a levá-la em um elenco com apenas 18 jogadoras é um grande desafio. Ela acredita que é possível convencer o treinador, a quem elogiou pelo trabalho realizado até aqui. “Ele fez um grande trabalho em tornar cada jogadora individualmente melhor e então o time coletivamente melhor”, afirmou Lloyd.

“Acho que isso tem sido realmente fantástico e diferente dele, em oposição a outros treinadores que já tive na seleção. A parte do desenvolvimento individual é grande. Ele é muito detalhista e temos muitas reuniões, muitas reuniões táticas”, continuou a jogadora.

“Ele está nos levando a jogar um futebol muito, muito bom. A maior coisa, que agora obviamente vamos ter muito mais tempo para fazer, é trabalhar no terço final. Essa é provavelmente a parte mais difícil de qualquer equipe na última fase. Mas, para ser sofisticado com isso, ser habilidoso, ser capaz se os times estiverem retrancados, temos que encontrar outra maneira de sermos bem-sucedidos”.