Por que os cariocas ficaram para trás na Libertadores?

Entre os 12 grandes, Botafogo e Fluminense são os únicos sem um título continental, enquanto Flamengo e Vasco não veem a taça há tempos. Tentamos explicar essa defasagem

Atlético Mineiro, Corinthians e Internacional. Três clubes cujas torcidas tiveram que aguentar por anos as brincadeiras dos rivais pela falta de um “passaporte”, por nunca terem sentido o gosto de conquistar a Libertadores. A partir de 2006, as libertações aconteceram uma a uma e, atualmente, atleticanos, corintianos e colorados podem encher o peito para dizer que são tão donos da América quanto qualquer outro clube que já levantou a taça.

Com a conquista do Atlético Mineiro na semana passada, Minas Gerais passou a três títulos sul-americanos. Isso colocou o Rio de Janeiro apenas como o quarto estado brasileiro na Libertadores, com dois troféus. Uma posição desproporcional à posição dos cariocas nas competições nacionais, em que se acostumou a disputar a hegemonia histórica com São Paulo (algo compreensível pelo poderio econômico das duas cidades, além de terem quatro times disputando título, ao invés de dois de mineiros e gaúchos).

Por que isso acontece?

A constatação: frieza dos números é cruel com os cariocas

Para comparar o desempenho dos grandes clubes de cada estado na Libertadores, duas contas simples: dividimos o total de participações somadas dos grandes de cada estado (ou seja, eliminando Bangu, Juventude, São Caetano, Guarani, Santo André e Paulista) pela quantidade de títulos e também pelas finais disputadas. E os números mostram o baixo aproveitamento do Rio de Janeiro. Paulistas, mineiros e gaúchos precisam, em média, de seis a sete participações para comemorar um título. Os cariocas necessitam de 14, mais que o dobro. Já em relação às decisões, os clubes do Rio têm que disputar 9,33 edições para fazer um finalista, quase o triplo dos outros estados.

Além disso, o histórico das finais da Libertadores nos últimos anos ajuda a evidenciar ainda mais a distância. A década de 1990 marca a superioridade do Brasil em relação aos outros países na competição. A partir de 1992, apenas três decisões não contaram com clubes brasileiros (1996, 2001 e 2004), enquanto duas tiveram campeões e vices daqui. De todos esses 21 finalistas, apenas dois eram cariocas e só um título ficou no estado.

Tantos números negativos são mera coincidência?

Não é tão simples explicar tantos números depondo contra os grandes clubes do Rio de Janeiro na Libertadores. Afinal, não é apenas o determinismo geográfico que culmina em tantas decepções no torneio continental. Os motivos, por vezes, são circunstanciais. De qualquer forma, há uma série de fatores históricos e culturais que ajudam a compor um cenário para entender a questão.

“É difícil você relativizar esses números. O fenômeno não é só de hoje, vem um pouco do passado. A minha impressão é a de que os clubes do Rio demoraram mais para entender a Libertadores do que os de outros estados. O espírito de competição, como funcionam os bastidores. O tempo de maturação dos clubes paulistas, gaúchos e também do Cruzeiro foi mais rápido, o do Atlético aconteceu agora”, explica Lédio Carmona, comentarista do Sportv.

Blogueiro e comentarista da ESPN, André Rocha ressalta ainda mais um ponto dentro dessa mentalidade carioca nos primórdios da Libertadores: o fato de que o torneio não era tratado como prioridade. “A importância que a Libertadores passou a ter no anos 1990 coincidiu com o declínio do futebol carioca. Nos anos 1980, não existia essa mentalidade, apesar do título do Flamengo. Eu me lembro que as equipes poupavam jogadores pensando no Brasileirão, jogavam no Maracanã vazio. Depois disso, as participações dos cariocas passaram a ser mais esporádicas”.

A infeliz (para os cariocas) coincidência histórica também é apontada por Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil: “Na década de 1980, quando os cariocas dominaram o cenário nacional, só se classificava um time por grupo na Libertadores, a situação extracampo era muito pior, muito mais intimidação, arbitragens piores. Além disso, os times estrangeiros eram mais fortes, porque eram bases das seleções de seus países. Mas isso não elimina o fato que o Rio já deveria ter aprendido a jogar a Libertadores”.

O retrospecto do Rio de Janeiro nas primeiras três décadas da Libertadores deixa claro essas dificuldades. Até 1985, foram 11 participações de equipes do estado e seis delas acabaram eliminadas na primeira fase, justamente por este gargalo. Além disso, seis das dez eliminações foram sofridas contra clubes brasileiros – Santos, Palmeiras, Cruzeiro, Internacional e Grêmio, por duas vezes.

Declínio econômico + falta de seriedade = eliminação

A inconsistência de Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo na Libertadores persistiu na década de 1990. E a discussão a partir desse período é bem mais profunda. Envolve o declínio dos clubes do estado, mas também uma série de elementos culturais, que vão desde a forma como os cariocas tratam os adversários até o clima de festa criado em algumas ocasiões em que deveria existir seriedade.

“Quando eles eram fortes economicamente, não entenderam o que precisavam para jogar a Libertadores. Agora, eles tem que voltar a ser fortes economicamente, já compreendendo o que é a Libertadores. De qualquer forma, os cariocas estão atrasados em relação aos outros nessa competição – exceção feita ao Fluminense, que já tinha um time para ganhar e buscava o seu momento”, pondera Lédio Carmona.

Mauro Cezar Pereira classifica a atual etapa da competição como de grande domínio do futebol brasileiro pela disparidade econômica entre os países, mas a defasagem do futebol carioca o deixou para trás:  “Falta jogar com mais seriedade, respeitar a competição, ter mais malícia em alguns momentos, lotar o estádio para fazer valer o mando, não cair no oba-oba de parte da imprensa, que acha que todo time estrangeiro é ruim”.

Dentro dessa perspectiva de falta de seriedade, André Rocha vê um excesso de respeito aos adversários nos jogos fora de casa: “Isso não é novo. O Flamengo superestimou a partida contra o Boca em 1991, entrou em campo cheio de medo e acabou atropelado. Aconteceu até mesmo com os times campeões, como o Vasco, que era infinitamente melhor que o River em 1998 e só atacou no final, quando viu que ia ser eliminado. E este receio acontece também quando se joga a ida fora. Quando vão decidir no Rio, acham que isso vai fazer a diferença. E nem sempre acontece. O adversário marca um gol fora, o time se desespera, a torcida aqui é exigente e começa a cobrança, aí a coisa pega”.

Por fim, André adiciona mais um elemento interessante na discussão: a forma como o estadual é tratado no estado. “Os mata-matas da Libertadores começam geralmente na mesma época que as finais do Campeonato Carioca. Como a rivalidade aqui é muito grande  e o estadual era muito valorizado, o clima na cidade é completamente diferente. Existe a visão de priorizar o estadual, que vale um título imediato. Você vê esse ponto de vista na rua com o torcedor, que quer ganhar e sacanear o rival. Eu conheço gente que pensa que no dia seguinte a um jogo da Libertadores não vai ter um torcedor do Libertad, do Defensor para sacanear. A irreverência do carioca é notória e isso conta muito”, completa. “O Flamengo em 2008, que criou uma festa para comemorar o título estadual e para se despedir de Joel Santana, mas foi eliminado pelo América do México no Maracanã, é um caso clássico”.

Quem será o próximo carioca a conquistar a Libertadores?

A posição é unânime entre os entrevistados: o Fluminense é o clube do Rio de Janeiro mais próximo de conquistar a América. Não apenas pelos sucessos recentes no Campeonato Brasileiro, como também pela maturidade no torneio. “O Fluminense está em um estágio mais avançado, mas não está dando sorte. É um processo de concentração”, destaca Lédio Carmona. “É mesma questão que levou o Corinthians a esperar anos. Tinha sempre um detalhe, uma escorregada. Quanto mais o time disputa, ele acaba conseguindo. Não vejo o Fluminense tão atrasado assim, o trabalho apoiado na Unimed está acontecendo”.

O Flamengo, em compensação, é quem merece mais críticas. Os rubro-negros sustentam o segundo maior jejum entre os clubes que já foram campeões da Libertadores, há 32 anos sem levantar a taça. Já nas últimas duas décadas, foi o único carioca eliminado na fase de grupos, duas vezes: “O Flamengo é o maior amarelão de Libertadores dos últimos tempos”, analisa Mauro Cezar. “É só ver os micos, tomando três gols em 12 minutos para deixar uma vitória importante escapar em casa contra o Emelec”.

E os problemas econômicos enfrentados pela diretoria do Flamengo nos últimos tempos não trazem boas perspectivas, assim como acontece com o Vasco. Os cruzmaltinos, ao menos, contam com campanhas dignas, eliminados sempre pelo futuro campeão em suas três últimas participações, contra Palmeiras (1999), Boca Juniors (2001) e Corinthians (2012). “O Vasco estava preparado e só não passou às semifinais por um gol sofrido no fim. São fatores que atrapalham qualquer um, não têm fronteira. Não dá para todos ganharem, só um chega na final”, pondera Lédio Carmona.

Por fim, o Botafogo ainda espera seu momento. Longe da Libertadores há 17 anos, os alvinegros veem as perspectivas melhorarem só agora. “Entre os grandes que não têm Liberadores, o Botafogo ainda está em um estágio abaixo do Fluminense. Precisa primeiro de uma grande campanha nacional, para aí chegar à Libertadores, jogá-la com frequência e  aí começar a pensar em título”, diz Mauro Cezar.

Botafoguenses correm atrás da ascensão, tricolores buscam a afirmação, flamenguistas e vascaínos ainda precisam pensar na recuperação. Enquanto nada disso acontece, a lacuna na Libertadores se mantém. E, até que o próximo campeão saia, os cariocas não têm muitos argumentos quando forem discutir Libertadores com paulistas, mineiros e gaúchos.