Se a temporada de Santi Cazorla fosse um bolo, poderíamos dizer que a cereja acabou de ser posicionada em seu topo. Mais de três anos e meio depois, o meio-campista está de volta à seleção espanhola, após convocação anunciada por Luis Enrique. O jogador, que enfrentou o medo real de não voltar aos gramados – e até mesmo de não poder mais andar –, pode dizer que nada mais falta em sua reviravolta heroica.

Em entrevista ao jornal Marca, Cazorla revelou que descobriu sobre a convocação ao entrar no vestiário do centro de treinamento do Villarreal. Seus companheiros cantavam seu nome, e a surpresa tomou conta do ex-jogador do Arsenal. Mesmo agora ele diz ainda não ter assimilado a novidade completamente.

“Nem nos meus melhores desejos eu teria imaginado. Agradeço novamente a Juan Carlos Herranz, a toda a equipe médica de Mikel Sánchez, em Vitória, e à minha família. Sem todos eles, teria sido impossível. Não vou esquecer um ano tão bonito, com tudo o que vivi”, contou o espanhol ao jornal.

Cazorla foi chamado por Luis Enrique para os jogos das eliminatórias para a Eurocopa 2020 contra Ilhas Faroé e Suécia, em 7 e 10 de junho. Sua última convocação havia sido em outubro de 2015. Com a Roja, o meio-campista conquistou dois títulos, as Euros de 2008 e 2012. Agora, o chamado é um troféu em si, por tudo o que passou nos últimos anos.

“Se alguém me tivesse dito que o fim da história era este, eu não poderia ter imaginado. Foram dois anos difíceis de contusão, e sei que já estou em uma idade em que é difícil voltar à seleção. Eu sempre tento contribuir com o meu clube e me sinto importante. Graças a todos, consegui recuperar o meu melhor nível.”

A última partida oficial de Cazorla antes dos problemas no pé havia sido em outubro de 2016, pelo Arsenal. Desde então, batalhou contra diferentes lesões, fazendo nove cirurgias. O veterano chegou a correr o risco de ter que amputar o pé, com os prognósticos indicando que era possível que ele sequer voltasse a caminhar normalmente.

Seu novo tendão de Aquiles foi feito a partir das fibras da panturrilha. No pé, possui uma estrutura de metal. E o símbolo de sua batalha vem na superfície: um pedaço da pele de seu braço transplantado ao tornozelo, carregando consigo também uma porção da tatuagem que fizera em homenagem à filha.

A imagem de seu pé com o transplante, capa do jornal Marca, deixou sua impressão na cobertura esportiva daquele final de 2017. Desde então, a dura batalha se seguiu, e a partir do começo da temporada 2018/19, capítulo por capítulo, veio a redenção.

Capa do Marca que revelou ao mundo o calvário de Cazorla. Imagem: Reprodução

Primeiro, a aposta do Villarreal no seu prata da casa. Depois, o retorno aos gramados em julho de 2018, em amistoso contra o Hércules, pondo fim a um período de 636 dias longe do campo. Vieram então o golaço e os aplausos da torcida adversária no jogo da Copa do Rei contra o Almería, no Estádio de los Juegos Mediterráneos. Em janeiro de 2019, os dois gols do empate por 2 a 2 com o Real Madrid no Estádio de La Cerámica. Agora, por fim, a volta à seleção.

Mais do que marcar uma belíssima história de superação, o chamado nada mais faz do que recompensar o jogador pela temporada de sucesso dentro de campo. Cazorla, aos 34 anos e voltando de longo período de inatividade, terminou La Liga como o terceiro melhor assistente, com dez passes para gol, atrás apenas de Pablo Sarabia e Lionel Messi, ambos com 13.

O jogador afirma que, em todos esses anos de trabalho para voltar a jogar, seu único objetivo era retornar ao primeiro nível, e não ter de se contentar em atuar em uma liga inferior. Se o parâmetro de sucesso era esse, é seguro dizer que a missão foi concluída.

“Estava ansioso pelas férias, mas elas podem esperar. O importante é continuar desfrutando do futebol e desta aventura que estou vivendo neste momento.”