Éric Cantona faz parte de um seletíssimo grupo de ex-atletas que, assim como faziam valer a pena parar para vê-los em campo, vale sentar e ouvir o que têm a dizer fora dele. Em sua mais recente entrevista, dada ao jornal inglês Guardian, falou sobre multiculturalidade, a ascensão do nacionalismo exacerbado no mundo – e os riscos que isso acarreta – e cobrou que mais jogadores se posicionem. Filósofo como ele só, ainda assim ponderou: “Mas quem somos nós para dizer que estamos certos e eles, errados?”

Cantona conversou com o Guardian antes de falar em um evento em nome do Common Goal, movimento criado por Juan Mata, do Manchester United, em que jogadores e técnicos doam 1% de seus salários para financiar trabalhos beneficentes em torno do futebol em todo o mundo. Para ele, mais atletas deveriam estar usando sua plataforma como fez o espanhol ao criar o projeto.

“Como todo mundo ama o futebol, dá para fazer todo tipo de coisa através dele. Mais jogadores e ex-jogadores deveriam usar sua posição. É importante incentivá-los a olhar ao redor. Se eles não querem falar, se querem se concentrar em seu futebol, sem problemas. Mas pelo menos saibam (o que está acontecendo). E, no fim, talvez façamos algo, porque saberemos”, comentou.

Para Cantona, é essencial que os jogadores fiquem de olho no que acontece em torno deles. Ele avalia que existe ignorância entre os atletas, mas não dá um veredito sobre isso. Em vez disso, levanta o debate, reservando ainda ao futebol uma nobre comparação ao falar da inteligência necessária para se tornar jogador profissional.

“Muitos jogadores são curiosos (sobre o mundo). Não acho que seja falta de inteligência. Quem somos nós para dizer que somos mais inteligentes que os outros? E o que é inteligência? Para jogar no mais alto nível, você precisa desse tipo de inteligência, que não é menos importante que aquela de um filósofo.”

Tendo visitado Cartagena das Índias, na Colômbia, Cantona diz ter conhecido uma comunidade bastante pobre, em que cerca de 50 mil pessoas estão, desalojadas pelas Farc. O francês conta que, mesmo sem casas, essa população criou um campo, “porque amam jogar futebol”. A condição para poder jogar, no entanto, seria que frequentassem a escola e trabalhassem. “Talvez nenhum deles se tornará jogador profissional, mas eles terão frequentado a escola, e isso irá ajudar o restante de suas vidas”, reflete.

O ídolo do Manchester United lamenta que muitos jogadores, vindos de áreas como essa, se esqueçam dessa origem. “Temos que fazê-los entender isso. Mas, aí, quem somos nós para dizer que estamos certos e eles errados? Quer dizer, eu acho que estou certo, mas… não sei.”

Avós de Espanha e Itália, pais franceses, cidadão do mundo

Na contramão da tendência de muitos países importantes do ocidente, Cantona não quer reforçar seus laços franceses em detrimento dos laços universais. “Não quero que as pessoas pensem que são deste ou daquele país. Sou um ser humano, respeito todo mundo. Temos sorte de ter diferentes culturas, de conversar com as pessoas, viajar, respeitar sua cultura. O problema é que existe hoje um distanciamento dessa visão; um crescimento do nacionalismo, de uma agenda anti-imigração”, condena o ex-jogador, lenda de um clube inglês, francês de segunda geração e neto de espanhóis e italianos.

“As grandes democracias, internamente, são, de certa forma, ditaduras, porque querem impor sua visão. Essa é apenas a minha opinião, mas acho que temos sorte de ter diferentes culturas, milhares de culturas.”

Sorte essa que Cantona gostaria que mais pessoas entendessem. Para ele, a história se repete, e não aprendemos nada com ela. “Em 1929, você teve a crise, e então Itália, Alemanha (ascensão do fascismo e do nazismo) e a guerra. Parece haver uma repetição”, avalia.

Perguntado se acreditava mesmo que estamos a caminho de mais um conflito de grande escala, não descartou o cenário: “Espero que não, mas em alguns países já é assim. É a mesma história, mas não nos importamos. É como se precisássemos disso. Volta e começa a contar do zero de novo. Milhões de pessoas foram mortas, mas não importa”.

Para ele, o futebol pode ajudar na reversão desse quadro de isolamento que se desenha atualmente. Mas não com as mensagens de ódio que tem carregado.

“O futebol pode ter um papel, mas você tem (por exemplo) jogadores que apoiam a extrema-direita no Brasil. Agora, cada vez mais, torcedores racistas em todo o mundo usando o futebol (para disseminar sua visão de mundo). E nós deixamos isso acontecer.”