“Quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro”

Desde sua completa reforma, que desfigurou um tanto daquela imagem antológica do gigante de concreto, nunca o Maracanã tinha sido tão Maracanã quanto nesta noite de Libertadores. Uma noite de arquibancadas lotadas, de cantoria a plenos pulmões, de fantasia e gritos de olé. Uma noite em preto e vermelho, na qual a fotografia do mar de gente eufórica não parece ter diferença a outras tantas cenas eternizadas no passado do Maraca. Uma noite de Flamengo. De um Flamengo vivido no ápice de uma vitória histórica, excepcional, rara. Mas que também é vivido todos os dias, naquilo ocupa os sonhos e preenche a imaginação de cada torcedor.

A vontade de cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro é entoada no dia a dia, a cada jogo. No entanto, os versos se fizeram mais verdadeiros nesta quarta-feira marcante aos flamenguistas. Quando o apito final soou no Maracanã, consumada a esmagadora goleada por 5 a 0 sobre o Grêmio, o que o rubro-negro mais queria era cantar sua alegria. Cantava junto, num sentimento que nunca é solitário, a toda uma nação. E cantava para exibir algo muito além do mero gostar. Era paixão pura, na “festa na favela” das camisas hipnoticamente girando.

O vermelho e o preto desse amor não esperaram a bola rolar para preencher o Maracanã. Há muitas diferenças àquele velho estádio, símbolos que não voltarão. Na realidade que hoje formata as arquibancadas, porém, o Flamengo começou a se agigantar logo na entrada dos jogadores em campo. O espetáculo teve as velhas cores, os velhos trapos, as velhas serpentinas. O mosaico pode ser mais recente, assim como as bandeirinhas. O que não muda é o pedido, a mensagem para que o time jogue “até o fim”. Assim seria, une categoria à fome de bola.

A torcida abraçou o Flamengo ao longo da partida. Empurrou o time. Sentiu uma fé inabalável naquilo que os rubro-negros poderiam fazer, e também transmitiu confiança para que os jogadores cumprissem seu objetivo. Se os torcedores flamenguistas não costumam pedir muito além de raça, eles agradecem quando a retribuição vem em forma de arte. O 5 a 0 da semifinal tornou-se um pagamento com juros a tantas desilusões acumuladas na Libertadores. Mas não há rancor. Há apenas encanto por aquilo que acontece e pelo que ainda pode acontecer. Uma ilusão que agora se faz tão real.

O Flamengo do rubro-negro doente, afinal, muitas vezes não se nota em campo. Aos outros torcedores, o rei quase sempre está nu. Jorge Jesus trouxe roupas novas ao rei. Só pode estar louco aquele que nega o seu atual esplendor. Os 5 a 0 sobre o Grêmio servem de traje de gala em vermelho e preto. O Flamengo do “deixou chegar” é concreto. O Flamengo do futebol bonito, como se cantarola sobre 1981, mas esporadicamente se viu desde então – e desde então nunca havia se visto de maneira tão contundente. Toda a empolgação dos torcedores, geralmente exagerada, tem agora a sua razão de ser.

E, veja só, muitos flamenguistas até se beliscam, para que o oba-oba não contamine o que ainda há por consumar. O time mantém os pés no chão. Este Flamengo já fez muito, e como gerações de sua torcida nunca tinham visto. Contudo, restam mais alguns passos para tornar o presente irrefutável à história. O Brasileiro permanece com longas rodadas pela frente. A Libertadores tem uma decisão por se jogar, contra o adversário mais copeiro possível. Mas uma vitória surreal como a desta quarta permite acreditar que, enfim, o momento tão esperado de grandeza voltará. Dom Sebastião, agora chamado de Mister, usa terno e tem os cabelos desalinhados.

Diante de tamanha convulsão popular, bate até um desgosto profundo de pensar que faltará um Maracanã à decisão da Libertadores. Por isso mesmo, além do que precisa realizar em campo, o Flamengo tem outra missão rumo a Santiago: abraçar mais a torcida, sentir o calor das ruas, valorizar este sentimento. É essa comunhão, que se alimenta também com o bom futebol, que permitirá ao clube tocar seus sonhos. O Maraca desta noite não pode ser um ato de despedida, mas sim o início de uma corrente mais forte. O rubro-negro continuará cantando a alegria de ser rubro-negro pelas próximas quatro semanas. Jorge Jesus e seus jogadores serão o instrumento para cantar ao mundo inteiro.