Quando se diz que, no Brasil, “futebol e música andam juntos”, não é um exagero retórico. Seja no fascínio que o esporte exerceu e exerce em vários compositores, de Lamartine Babo a Zeca Baleiro; seja na vontade manifesta que vários jogadores tiveram e têm de entrarem pelo campo musical, de Pelé a Daniel Alves – passando por Sócrates e Ronaldinho Gaúcho; seja na fortíssima vinculação entre certas canções e certos momentos do futebol (como dissociar as imagens do Canal 100 da versão de “Na cadência do samba” pela orquestra de Waldir Calmon?!), o fato é que um campo e outro tem muitas relações aqui. E Copas do Mundo poderiam ser a apoteose dessa íntima relação. Até são, mas só às vezes.

Como se verá, canções produzidas tendo em vista os Mundiais – e o apoio à Seleção Brasileira neles – não faltam no Brasil. Todavia, isso não ocorreu a cada Copa. E só esporadicamente algumas canções deixaram o campo para virarem marcos na cultura musical brasileira – na maioria das vezes, conquistar títulos mundiais ajudava bastante nisso. É isso que se notará nesta segunda parte da série sobre músicas relacionadas às Copas do Mundo, falando sobre os sons que enlevaram os brasileiros durante elas – se é que enlevaram, já que algumas canções a serem citadas aqui despontaram para o esquecimento…

1950

A quarta edição da Copa já mostrou trilhas sonoras marcantes para alguns episódios brasileiros. Em 1950, antes da derrota inesquecível, Lamartine Babo já compusera a “Marcha do Scratch Brasileiro”. Cantada por Jorge Goulart, trazia otimismo na letra, citando a grande novidade que o Maracanã era: “Eu sou brasileiro, tu és brasileiro/Muita gente boa brasileira é/Vamos torcer com fé em nosso coração/Vamos torcer para o Brasil ser campeão/Salve, salve o nosso Estádio Municipal/No Campeonato Mundial”. Mas a canção mais lembrada quando se fala do primeiro Mundial sediado aqui nem tinha nada a ver com futebol. Tinha a ver com a Espanha. E foi aproveitada pela torcida.

Já no quadrangular decisivo da Copa, com o Brasil vencendo justamente os espanhóis num brilhante 6 a 1, as várias vozes que superlotavam o Maracanã começaram a entoar espontaneamente “Touradas em Madri”, marcha de Carnaval celebrizada por Carmen Miranda. Tal cena foi tão impressionante que motivou até uma anedota protagonizada pelo próprio compositor da dita cuja: Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha (ou João de Barro, seu pseudônimo). Presente no Maracanã, Braguinha chorou de emoção ao ver realizado para si o sonho de vários compositores: ter uma canção na boca do povo. Porém, ao vê-lo chorando, um torcedor disse a um amigo: “Quem é aquele espanhol chorando aqui no meio? Se ele não se cuidar, vou lhe dar uns safanões”.

1958

O trauma do Maracanazo foi tamanho que 1954 passou em branco, quando o assunto foi músicas de apoio à Seleção. Mas 1958 não só aliviou esse trauma, como rendeu o segundo grande momento musical brasileiro em Copas do Mundo – o primeiro relacionado a um título. Momento protagonizado a toque de caixa. Antes do Mundial, nada houve. Mas dias antes da final contra a Suécia, ficou pronta uma composição curta, obra de um quarteto de publicitários: Victor Dagô  (o “Dag”), Lauro Müller (o “Lau”), Wagner Maugeri Neto e Maugeri Sobrinho (os “Mau”). A estes dois últimos, não faltava relação com o futebol: em 1955, celebrando o título paulista do Santos, Maugeri Neto e Maugeri Sobrinho compuseram o “Leão do Mar” que acabou virando o hino santista – eclipsando o hino oficial do clube, só reabilitado há alguns anos.

Pois bem: secretamente, para não haver acusação de azar em caso de derrota, Dag, Lau e os dois Mau compuseram “A taça do mundo é nossa”. Coube aos Titulares do Ritmo, um conjunto paulista de cantores cegos – creditado como Coral do Caneco -, darem voz à canção lançada quinze dias depois da vitória na Suécia. Foi o maior destaque, dentre as duas dezenas de obras saudando a seleção campeã. Ainda houveram destaques como a “Marcha dos Campeões do Mundo”, de Alfredo Borba, cantada por Osvaldo Rodrigues (“Vencemos o mundo inteiro/Maior no futebol é o brasileiro/Salve a CBD/Jogadores, diretores/Salve, oh, raça varonil/Campeão do mundo, Brasil”). Mas a verdade histórica diz: sempre que é lembrado o time brasileiro que ergueu a Jules Rimet no estádio Rasunda, em Solna, região metropolitana de Estocolmo, mesmo quem não gosta da cançoneta já terá na cabeça “A taça do mundo é nossa/Com brasileiro, não há quem possa/E, eta, esquadrão de ouro/É bom no samba/É bom no couro”.

1962

Qualquer resquício de pessimismo ou desconfiança passava longe da Seleção Brasileira que iria tentar o bicampeonato no Chile. E já pela canção mais conhecida a exortar a equipe rumo ao Mundial do Chile se notava o tamanho do otimismo que cercava aquela equipe. Por sinal, a canção foi interpretada por mais um amante histórico do futebol na música brasileira: José Gomes Filho, vulgo Jackson do Pandeiro (1919-1982). Intérprete de outras canções relacionadas ao futebol, como “Um a um”, o cantor, compositor e percussionista já parecia antever a repetição do sucesso a partir do título da canção para 1962: o “Frevo do Bi”, de Brás Marques e Diógenes Bezerra.

A letra chegava até a ser desafiadora, tamanho o elogio do que a base campeã de 1958 ainda podia fazer: “Vocês vão ver como é/Didi, Garrincha e Pelé/Dando seu baile de bola/Quando eles pegam no couro/O nosso escrete de ouro/Mostra o que é nossa escola/Quando a partida esquentar/E Vavá, de calcanhar/Entregar a pelota a Mané/E Mané Garrincha a Didi/Didi diz ‘É por aqui’/Aí vem o gol de Pelé (gol!)”. Só Pelé não pôde fazer muita coisa, mas o que se viu nos estádios chilenos corroborou a confiança demonstrada pelo “Frevo do Bi”, de certa forma.

1970

Se 1966 passou em branco no tocante à músicas brasileiras para as Copas, isso foi amplamente compensado na Copa do terceiro título brasileiro. Poucas vezes se viu uma sintonia tão fina entre música e futebol num Mundial. Começou já em 1969, com o compacto simples “Tabelinha Elis X Pelé”, no qual Elis Regina dava voz a duas canções compostas pelo dito cujo, “Vexamão” e “Perdão não tem”. E continuou já nos treinos em terras mexicanas antes da competição começar. Talvez a grande personalidade musical do país em 1970 junto a Roberto Carlos, o cantor Wilson Simonal foi recebido na concentração brasileira em Guanajuato – e chegou até a participar de um treino junto aos 22 convocados por Zagallo.

Todavia, o grande prefixo musical para a campanha brasileira naquela Copa (e o grande prefixo musical da história brasileira em Copas) não viria de Elis. Nem de Simonal. Viria de um concurso para escolher a canção que apoiaria a Seleção no México. Concurso altamente concorrido: foram mais de cem músicas inscritas – algumas delas, de gente que já fazia história na música brasileira, como Chico Buarque, Edu Lobo e Carlos Imperial. Dessas, foram selecionadas vinte finalistas, a serem julgadas por um júri incluindo representantes das três empresas que patrocinariam a transmissão da televisão brasileira para a Copa (Gillette, Souza Cruz e Esso), mais publicitários das agências McCann/Erickson, Almap e J. Walter Thompson.

Como se podia esperar de um concurso com tal concorrência, a decisão foi apertada. Segundo relatos de um dos votantes, o publicitário José Roberto Whitaker Penteado, só um segundo escrutínio decidiu a vencedora – nele, os presidentes das empresas ficaram juntos, numa sala, a portas fechadas. Dela saíram com o nome da campeã. Cujo compositor também tinha trajetória respeitável: o carioca Miguel Gustavo (1922-1972), compositor de jingles populares naquele tempo (como o da caninha Tatuzinho), de temas de tevê mais populares ainda (é dele o “Ó Terezinha, Ó Terezinha/É um barato a Discoteca do Chacrinha”) e de canções conhecidas (como as da saga de Kid Morengueira, o personagem malandro para sempre ligado ao cantor Moreira da Silva). Porém, para sempre Miguel Gustavo ficou marcado como o compositor da canção interpretada originalmente pelo Coral do Joab, grupo vocal carioca regido pelo maestro Joab Teixeira. Quem lê já imagina: a vencedora do concurso foi “Pra frente Brasil”.

E ela tocou. Muito. A marcha que mostrava o tamanho da torcida dos “90 milhões em ação” fez sucesso já durante a Copa do Mundo. O terceiro título brasileiro – e a maneira apoteótica com que foi ganho – só petrificou “Pra frente Brasil” como um símbolo musical não só da Copa de 1970, mas também daquele momento da sociedade brasileira (para o bem e para o mal). Até houve outra canção merecedora de destaque para celebrar a conquista: “Sou Tricampeão”, também escrita por compositores notáveis – os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle -, cantada pelos Golden Boys, até hoje usada pela Rádio Bandeirantes paulista em jogos da Seleção Brasileira. Mas já não adiantava: para sempre, “Pra frente Brasil” será a grande sombra de qualquer canção composta no Brasil para Copas. Seja na versão original de 1970, seja nas sucessivas regravações em que os 90 milhões viraram 120, 190, 200…

1974

Depois da apoteose, vem a melancolia, por ela talvez nunca ser igualada. As canções feitas para a Copa de 1974 provam isso à perfeição. Já no ano anterior à Copa, uma excursão da Seleção à Europa com resultados irregulares – vitória sobre a Alemanha Ocidental, empate com a Áustria, derrotas para Itália e Suécia – inspirou Luiz Américo, cantor e compositor de Santos, a retratar numa letra aquela difícil transição entre gente de 1970 que não chegaria à Copa e os talentos que já se faziam notar. Os destaques de Leão e Luís Pereira, garantias na defesa; a ausência de Pelé; a desconfiança sobre gente como Jairzinho e Rivellino; a incompreensão com experiências na convocação, como os atacantes Flecha e Palhinha; tudo isso estava retratado na letra de “Camisa 10”, sucesso antes mesmo do Mundial.

Ainda assim, tentou-se manter o otimismo na canção lançada mais perto da Copa. Era “Cem milhões de corações”, marcha do conjunto Os Incríveis – dos principais da Jovem Guarda -, que tentava evocar o clima de “Pra frente Brasil”:

Todos juntos de bandeira na mão
Esperando os canarinhos da nossa Seleção
É uma nação inteira
Mostrando a todo mundo a glória brasileira

Cem milhões de corações
Vibrando de uma só vez
É mais uma emoção
Brasil na Alemanha tetracampeão

Como se sabe, não veio o tetracampeonato. Vieram as derrotas para Holanda e Polônia, rendendo um quarto lugar esquecível. A oportunidade quicava para uma paródia gozadora do fracasso daquele time. E o espírito galhofeiro e folgazão do torcedor brasileiro aproveitou para mudar um pouco a letra de “Cem milhões de corações”, antes que a original e a paródia caíssem no esquecimento:

Todo mundo de porrete na mão
Esperando o Seu Zagallo descer do avião
É uma nação inteira
Mostrando a todo mundo a fúria brasileira

Cem milhões de corações
Chorando de uma só vez
É mais uma ilusão
Brasil na Alemanha fez um papelão

1978

Um raro caso de duas canções vindas de apenas um grupo. Formado por músicos de estúdio, o Terra de Santa Cruz criou tanto “Bola pra frente” quanto a canção mais executada antes do Mundial da Argentina: “Gooool Brasil”, de introdução criativa (“Olha aí que está chegando a Copa/Virar casaca é coisa muito natural/Todo mundo esquece do seu clube/E a gente torce, torce por um time só”). No entanto, a repercussão ficou restrita àqueles dois meses. E “Gooool Brasil” só foi lembrada de novo, fugazmente, em 1998: em “Agita Brasil”, CD lançado pela revista “Placar” com releituras de algumas canções brasileiras para Copas, o Asa de Águia a regravou. Nem assim ela saiu da obscuridade.

1982

O grande exemplo de canção brasileira para a Copa que marcou mesmo sem o título começou até despretensiosamente. Dois compositores cariocas – Nonô e Memeco, ambos habitantes da favela do Jacarezinho – aproveitaram o otimismo sobre a Seleção antes da Copa na Espanha para fazerem uma canção. Músico conhecido no samba carioca (até hoje, aliás), o cavaquinista Alceu Maia ouviu, gostou e mostrou o que Nonô e Memeco haviam feito a um jogador da equipe de Telê Santana muito afeito ao samba desde aquela época: Júnior. Ele também gostou, chamou o lateral direito reserva Edevaldo (convocado afinal para a Copa, após se revezar com Perivaldo e Getúlio na reserva de Leandro durante as Eliminatórias) e mostrou o que acabara de ouvir. Edevaldo ficou entusiasmado. Como todo o país ficaria ao ouvir aquela música, gravada por Júnior e lançada num LP em compacto simples pouco antes da Copa, já em 1982.

Outras canções até tiveram divulgação – destaque para “Dá-lhe Brasil”, versão de “El Mundial ’82”, o tema oficial cantado por Placido Domingo (com as vozes de gente como Fafá de Belém, Zizi Possi e Sidney Magal), e “Meu canarinho”, composta e cantada por Luiz Ayrão (“Dá-lhe, dá-lhe bola/Meu canarinho vai deixar a gaiola/Vai pra Espanha de mala e viola/Vai dar olé à espanhola”). Moraes Moreira, flamenguista apaixonado, também captou com maestria o otimismo, com sua “Sangue, swing e cintura” (“O rei aqui é Pelé/Na terra do futebol/Olé é bola no pé/Redonda assim como o sol/Seja no Maracanã/Ou num gramado espanhol”). Mas todas ficaram abaixo daquela composição de Nonô e Memeco que Júnior tomou para si: “Povo feliz”, que ganhou o título popular de “Voa, canarinho”. Com a participação de tarimbados músicos de samba na gravação – além de Alceu Maia, estavam percussionistas como Marçal, Luna e Elizeu, além do baixista Luizão Maia -, o compacto simples vendeu demais.

No lado B do vinil com duas músicas, estava uma canção que, embora menos conhecida, também entrou no embalo da esperança popular sobre aquele time. Era o “Pagode da Seleção”, composto pelo próprio Júnior, com o supracitado Alceu Maia como parceiro. Assim começava a música:

Não é mole, não (não, não)
Não é mole, não
Esse pagode que é tão gostoso
É o pagode da Seleção

Isidoro no pandeiro
Leandro na marcação
Sou eu mesmo o partideiro
Sócrates no violão

Futebol não tem escola
Veja que categoria
Nosso time toca a bola
E também toca bateria

Foi o som de uma das reportagens de televisão mais marcantes daquela Copa: era a música cantada pelos jogadores brasileiros no samba que tomou o ônibus, na volta ao Parador Carmona, em Sevilha, concentração brasileira durante o torneio, após a vitória sobre a Escócia, como mostrou na TV Globo o repórter Ricardo Pereira (não Ricardo Menezes, como a legenda erra) no “Jornal Nacional” de 18 de junho de 1982.

“Povo feliz (Voa canarinho)” simbolizou a euforia brasileira com a evolução daquela equipe. Até a derrota traumática para a Itália, que fez com que o compacto simples virasse para 1982 o que “Formando equipes vencedoras”, o livro de Carlos Alberto Parreira, fosse na Copa de 2006: o marco de uma derrota. Uma lembrança até saudosa, no caso de 1982. Pelo menos, aquela campanha teve um tema musical indelével, até hoje lembrado por Júnior – e regravado vez por outra, com as devidas alterações. Mas seria outro tema a retratar melhor a tristeza pela derrota: “A loba comeu o canário”, composição lançada por Jorge Ben Jor (ainda Jorge Ben) em 1983, no álbum “Dádiva”, lamentando (“Milhões de olhos aflitos na TV/ Vendo o que acontecia do lado de lá/Naquela segunda-feira de doer/Vendo e chorando e não acreditando”) e prometendo (“Mas em 86 a loba e os outros que se cuidem/Pois vamos mandar para exposição/Um supercanário bem dotado”).

1986

Era possível dizer que, em 1986, a Seleção Brasileira tentava evocar novamente a euforia de 1982, esperando que os mesmos protagonistas e o mesmo técnico repetissem a história e dessem final feliz a ela. Não deu certo. Pode-se dizer que foi o mesmo caso, em músicas para embalar a Seleção Brasileira naquela Copa. Começou num samba composto por Roberto Nascimento, o violonista brasileiro residente no México compositor do tema “oficial” da Copa de 1970. Lançado ainda na fase de treinamentos para 1986, “O mundo é verde-amarelo” juntava samba, um ícone musical mexicano (a citação a “Cielito Lindo” – no Brasil, “Tá chegando a hora”) e o coral de vários dos 29 jogadores convocados por Telê Santana para a preparação. Puxados por Júnior, alguns deles sequer ficariam para a lista final de 22, como Dirceu, Cerezo e Leandro. Mas estavam lá no refrão: “Canta, Brasil (ô, ô)/Que hoje é tempo de esperança/Todo mundo tá na dança/O mundo é verde-amarelo outra vez”.

A tentativa de reviver momentos felizes se mostrava também em uma incursão musical que hoje parece inesperada, mas na época era plenamente justificada. Vivendo um dos auges de popularidade em sua carreira – “Um dia de domingo”, seu dueto com Tim Maia, foi uma das canções mais tocadas do país em 1985 -, Gal Costa era considerada até musa da época. E coube a ela cantar mais uma marcha de exortação à Seleção, com a lembrança esperada de um torneio no México já expressa até no título: “70 neles”, lembrando o terceiro título mundial para desejar o quarto.

E já que se falou em “Um dia de domingo”, os mesmos compositores dela foram os responsáveis pela mais conhecida canção de 1986 a simbolizar um fenômeno então iniciado: os temas musicais de televisão para Copas do Mundo. Responsável por inúmeros sucessos radiofônicos da década de 1980, em todas as tendências musicais, para vários grupos e cantores, a dupla Michael Sullivan e Paulo Massadas compôs “Mexicoração”, a canção a sonorizar toda a cobertura da TV Globo para aquela Copa. Bandeirantes e Manchete foram outras emissoras a criarem músicas, mas por aquele momento, o sucesso televisivo-futebolístico-musical foi mesmo “Mexicoração”, cujo refrão era executado a cada gol da Seleção nas transmissões globais (“Ginga pra lá (gol!)/Ginga pra cá (gol!)/E reviver mais uma vez a emoção/Ginga pra lá (gol!)/Ginga pra cá (gol!)/Gritar pro mundo que o Brasil é campeão”).

1990

Se na Copa anterior as canções televisivas ainda engatinhavam, no Mundial sediado na Itália elas foram praticamente as únicas criações musicais dignas de nota. Todas as emissoras brasileiras com direitos de transmissão exibiam clipes nos meses anteriores ao torneio: Bandeirantes, Manchete, SBT e Globo. Contudo, até pela possibilidade concretizada pela Som Livre, braço fonográfico do Grupo Globo – lançar um LP com canções para a Copa, como já fizera em 1986 e faria em 1994 -, somente a música global ficou levemente conhecida: “Papa Essa Brasil”, outra parceria da dupla Sullivan & Massadas. Até marcou na época. Mas o fato é que as canções ficaram apenas na lembrança dos mais fanáticos.

Estes também devem se lembrar de uma hilária paródia produzida pela Rádio Transamérica carioca após a eliminação da Seleção: “Tô puto”, que protestou contra a medíocre campanha brasileira na Itália se valendo da harmonia e da melodia de “O pulso”, lançada pelos Titãs em 1989. No lugar das enfermidades recitadas por Arnaldo Antunes na canção “séria”, havia o protesto gozador: “Tem Bismarck, tem o Muller e o tal do Alemão/Três caras que, pelo nome, erraram de seleção/Ricardo Gomes, Ricardo Rocha, e atrás Mauro Galvão/E à frente dessa moçada ainda botaram Sebastião/Viajaram às nossas custas (Tô puto)/Passearam às nossas custas (Tô puto)”. A paródia fez sucesso por três semanas depois da Copa na programação da Transamérica, e só saiu do ar porque os membros dos Titãs pediram, já que não lhes fora pedida autorização.

1994

Ainda durante a turbulenta campanha brasileira nas Eliminatórias, a Rádio Transamérica (desta vez, a paulistana) apostou na gozação mais uma vez, como em 1990: parodiou “W/Brasil”, de Jorge Ben Jor. Primeiro, para protestar contra as dificuldades do iniciais: “É um timinho/A Seleção/E desse jeito/Não vai dar, não/Cuidado com o ataque do Equador/Tira esse Parreira daí/Esse cara tem que ficar aqui fora/Tem que chamar o Telê/Santana!”. Depois, com a evolução flagrada no decorrer da campanha, amenizou: “Cuidado que o Bebeto é um terror/Viva o Muller, viva o Raí/Assim a gente vai ganhar a Copa/’Tá faltando o Telê/Santana!”. No fim, o otimismo com Romário: “Valeu, Romário/Foi um jogão/Salvou a pátria/E a Seleção/O time do Brasil foi um terror/Viva o Zinho, viva o Raí/Com esse time a gente ganha a Copa/Só faltou o Telê/Santana!”.

Mas isso foi antes da Copa. Depois, é possível dizer que somente uma música ficou ligada ao quarto título mundial brasileiro. Todavia, o alcance dela é tamanho que dura até os dias de hoje. Novamente, por obra da TV Globo. Que já utilizava a harmonia da canção como prefixo das transmissões futebolísticas desde 1991, a bem da verdade. No entanto, faltava uma letra à música produzida por Tavito (cantor e compositor de canções marcantes nos anos 1970, como “Rua Ramalhete”, “Casa no campo” e “Começo, meio e fim”). Rascunhou-se uma letra temporária, apenas para celebrar a classificação à Copa sediada nos Estados Unidos. Mas foi só às vésperas da Copa que ficou pronto o formato desejado pela TV Globo.

Vice-presidente de Operações da emissora carioca, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, chamou para a letra um nome altamente credenciado a fazer a tarefa: Aldir Blanc, membro de uma das mais célebres parcerias da história da música brasileira, com João Bosco. E Aldir compôs “Coração verde e amarelo”. A cançoneta foi para clipes pré-Copa na programação da emissora. Foi para o LP da Som Livre. E por mais que o SBT tenha exibido outro tema – citando o “em cima, em baixo, puxa e vai” popularizado na torcida para a seleção masculina de vôlei nos Jogos Olímpicos de 1992 -, “Coração verde e amarelo” foi a canção que ficou, recebendo o impulso final do quarto título mundial brasileiro. E ficou até a atualidade. Afinal, tornou-se impossível pensar em futebol na TV Globo sem a melodia que sustenta esta letra: “Eu sei que vou, vou do jeito que sei/De gol em gol, com direito a replay/Eu sei que vou, com o coração batendo a mil/É taça na raça, Brasil” – com as devidas adaptações, a cada Copa.

1998

Ao mesmo tempo em que a Copa sediada na França trouxe poucas novidades musicais brasileiras em relação às anteriores, uma delas tornou-se definitiva. Porém, ela só veio com o decorrer da Copa. Antes, nada fez muito sucesso. Evocando os ares franceses, Gilberto Gil lançou sua “Balé da Bola”. Júnior fez outra releitura de uma das canções originais de 1982 – no “Pagode da Seleção”, antes mesmo dos cortes na convocação final, cantou “Ronaldinho no pandeiro/Aldair na marcação/Eu já fui o partideiro/Agora é o Flávio Conceição”.

Nem mesmo uma canção feita “sob medida” caiu no gosto dos torcedores brasileiros. Afinal, “Festa brasileira” trazia talvez o que de mais popular se ouvia em rádios naquele 1998 com relação ao pagode, ao samba de roda e à “axé music”: estavam na canção as vozes de Beto Jamaica (um dos rostos do É o Tchan), Ivete Sangalo (ainda na Banda Eva), Carla Visi (então, a voz da Banda Cheiro de Amor), Netinho (o baiano, não o então vocalista do Negritude Júnior) e Zeca Pagodinho. Não adiantou: passou em branco.

O que não passaria em branco seria um refrão, tirado de “Grito de guerra”, composição do falecido Nelson Biasoli – segundo o próprio, obra de 1949, embora o registro só tenha vindo em 1979. Um refrão que tomou conta espontaneamente dos torcedores brasileiros que foram à França, à medida que a campanha brasileira prosseguia rumo à final. Que já era voz corrente na decisão perdida. E que sobreviveu em meio à celeuma pelos problemas com Ronaldo. Sim: o refrão de “Grito de guerra” entrou na moda da torcida brasileira em 1998. “Eu sou brasileiro/Com muito orgulho/Com muito amor…”.

2002

De certa forma, o fenômeno para as canções brasileiras na Copa de 2002 repetiu o do Mundial anterior: algumas coisas foram produzidas pré-Copa, mas os sons marcantes do pentacampeonato vieram espontaneamente. Antes que os jogos começassem em Japão e Coreia do Sul, a música que mais quis tomar conta das bocas foi feita pelo maior luminar futebolístico brasileiro que os campos já viram: histórico amante de música, Pelé compôs e cantou “Em busca do penta”, divulgada até numa fugaz participação feita em “O Clone”, novela que a TV Globo exibia à época. Não deu resultado algum, virando apenas mais uma incursão de Pelé na canção brasileira.

Os resultados vieram, na verdade, de canções que nada tinham a ver, originalmente, com futebol – mas tinham muito a ver com os jogadores convocados por Luiz Felipe Scolari. O técnico da Seleção usava em suas preleções “Festa”, faixa-título do terceiro álbum solo de Ivete Sangalo, lançado em 2001. Já em 2002, mas antes da Copa, foi lançado “Deixa a vida me levar”, trabalho de Zeca Pagodinho. E a faixa-título composta por Serginho Meriti caiu no gosto da maior parte daquele grupo. A afeição que alguns integrantes tinham em relação ao pagode – Ronaldinho Gaúcho, Edílson, Júnior, Denílson – fez com que a canção ganhasse até mais relevância dentro da vitoriosa campanha brasileira.

Se já eram hits “normais” dos respectivos cantores, “Festa” e “Deixa a vida me levar” viraram quase cânones dos repertórios respectivos de Ivete e Zeca, empurradas pelo quinto título mundial. E poucas provas da vinculação dessas canções àquele título poderiam ser tão lapidares quanto a que se viu após a final, no “Bate-Bola”, mesa-redonda da TV Globo após cada jogo da Seleção em 2002: em meio ao ambiente de celebração no Estádio Nacional de Yokohama, a “ala pagodeira” da equipe brasileira já entrou no improvisado estúdio global cantando “Deixa a vida me levar” para abrir uma miscelânea de sambas: “Irene” e “Vai lá, vai lá” (Fundo de Quintal); “Vacilão” e “Coração em desalinho” (Zeca Pagodinho); “Peguei um Ita no norte”, o histórico samba-enredo do Salgueiro que conquistou o Carnaval carioca em 1993. Tão espontâneo quanto engraçado. Uma digna comemoração.

2006

Diante do tamanho do favoritismo brasileiro para a Copa a ser realizada na Alemanha (e da exitosa vinculação entre futebol e música vista em 2002), foi até previsível ver o tamanho de lançamentos musicais que esperavam ser “o som do hexa”. Tal desejo vinha até no nome, no que dependia de Ivete Sangalo: se sua “Festa” ajudara a sonorizar as comemorações em 2002, a cantora e compositora baiana lançou “Vamos n’exa” antes do Mundial. Gilberto Gil aproveitou a sua “Balé da Bola” de 1998 para refazer detalhes da letra, e vir com “Balé de Berlim”, de tom mais futebolístico (“Nossa Seleção chega a Berlim/Numa perna só/Moleque saci”). Pelé aproveitou a badalação para concretizar um antigo sonho: lançar um álbum com suas canções – “Pelé Ginga”. Ronaldinho Gaúcho, amante de música, chegou mesmo a selecionar o repertório de uma coletânea com suas canções preferidas, “Samba Goal”. Uma versão de “País Tropical”, de Jorge Ben Jor, foi lançada na Europa pelo “Legendários do Brasil”, grupo de remanescentes de títulos brasileiros anteriores (Altair e Jair Marinho, de 1962; Jairzinho, Brito, Marco Antônio e Roberto Miranda, de 1970). Finalmente, Marcelo D2 preferiu focar num dos destaques da equipe brasileira, compondo “Sou Ronaldo”.

A decepção com a campanha brasileira naquela Copa fez quase todos esses lançamentos caírem no esquecimento. Um bom símbolo do descompasso entre a ansiedade anterior e a decepção posterior foi a escolha que Carlos Alberto Parreira fez da música que embalaria as preleções: “Epitáfio”, canção lançada pelos Titãs em 2001 – e sucesso posterior. Não cativou a torcida antes (nem com o videoclipe produzido pela TV Globo), virou chacota depois (uma paródia numa rádio paulistana até gozava a Seleção eliminada a partir do refrão de “Epitáfio”: “Quem é que vai nos proteger/Roberto Carlos ‘tá distraído”). Mesmo um dos membros do então quinteto – hoje trio – paulistano se valeu da canção para alfinetar os jogadores. No site oficial da banda, Tony Bellotto criticou: “Sem raça, não rola. Deviam ter jogado mais”. A única canção a ter superado tamanho baque foi, talvez, “Sou Ronaldo” – que acabou até cumprindo o objetivo, indiretamente: conseguiu ser associada ao homenageado, de 2006 em diante.

2014

Em 2010, pouco se ouviu em matéria de canções brasileiras que evocassem a Copa – apenas uma nova versão do clássico “Umbabarauma (Ponta-de-lança africano)”, unindo o autor Jorge Ben Jor a Mano Brown, com a intervenção do Negresko Sis (trio vocal unindo três cantoras: CéU, Anelis Assumpção e Thalma de Freitas). Para 2014, o esperado Mundial no Brasil, os dois lados do clima vivido no país foram captados por canções. De um lado, o descontentamento social que perturbava até a relação com a Seleção Brasileira: coube ao cantor e compositor Edu Krieger expressá-lo com “Desculpe, Neymar”, canção na qual o desalento com o abandono de prioridades em detrimento das obras para a Copa tornava inviável a torcida pela Seleção – embora Krieger expressasse na letra o reconhecimento de ser minoria: “Eu sei, torcedor/(…)Nunca vai deixar de amar o nosso escrete aonde for/Eu sei, torcedor/É você quem tem razão”.

Do lado oposto, estava a animação ansiosa com o que talvez acontecesse. Animação exposta em “País do futebol”, que MC Guimê e Emicida lançaram antes da Copa – mencionando no refrão o que se esperava ver do destaque brasileiro, participante do clipe que já demonstrou admiração por samba, rap e funk: “Tocou Neymar, é gol”. Exposta na nova versão de “Povo feliz” feita por Júnior. Exposta também em “Somos um só”, nova incursão da TV Globo pelas músicas pré-Copa, trazendo nos vocais tanto gente de vinculação tímida com futebol (como Sandy, leve simpatizante do São Paulo) quanto torcedores fanáticos (caso do cruzeirense Samuel Rosa e do flamenguista Marcelo D2) – e repetindo inevitavelmente o refrão do “Coração verde e amarelo” de 1994. Exposta, finalmente, em “Mostra tua força”, encomenda composta por Wilson Simoninha e Jair Oliveira, sendo cantada por Paulo Miklos e Fernanda Takai no material comercial do banco Itaú para a Copa – e até incluindo vídeos amadores de outros conhecidos cantores, como Claudia Leitte, Luan Santtana e Thiaguinho, no decorrer do torneio.

Não, não foram feitas músicas tendo o 7 a 1 como assunto. Não diretamente – Dado Villa-Lobos (guitarrista da Legião Urbana) lançou recentemente álbum solo, com uma canção intitulada “7×1”, se valendo da maior vergonha futebolística passada na história do Brasil para citar as outras vergonhas do país (“E quanto custa morrer/Nesse consórcio de azar/Que é comprar pra manter/Tanta mentira no ar”). Por outro lado, além de Neymar, Gabriel Jesus também começou a ser “muso inspirador” de algumas canções por aí.

Resta esperar o que 2018 trará para a Seleção Brasileira nos campos. Daí pode surgir uma canção a simbolizar uma vitória. Ou a canção que logo será esquecida, por causa de um novo fracasso.

Na semana que vem: Inglaterra (com New Order), Irlanda (com Larry Mullen Jr.), França, Alemanha, Holanda, Portugal, Paraguai, México… as incursões musicais de cada país entre as Copas.