A carreira de muitos jogadores pode ser resumida por um gol. O gol da carreira de Claudio Paul Caniggia, contudo, serve para resumir a adoração que ele recebeu de milhões de argentinos. A fama do atacante supera os seus feitos. Por clubes, vestiu várias camisas, vivendo altos e baixos. O ‘El Hijo del Viento’ teve seus bons momentos por River Plate e Boca Juniors, além do respeito na Europa principalmente com Atalanta e Rangers. Só que o impacto que causou na seleção argentina já se faz suficiente para garantir seu lugar na história. Sobretudo, na memória e no coração de seus compatriotas. Um ídolo pela paixão e pelos gols marcantes, que completa 50 anos nesta segunda.

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Caniggia despontou em um River Plate histórico, campeão da Libertadores e do Mundial Interclubes. Aos 20 anos, porém, é que realmente começou a pintar com frequência em campo. O garoto impetuoso e de grande velocidade ganhou a confiança nos Millonarios. Para logo eclodir, também, na seleção principal da Argentina. Atraiu a atenção do técnico Carlos Bilardo e fez sua estreia logo em 1987. Agradou tanto que esteve presente na Copa América. A Albiceleste, mesmo jogando em casa, parou nas semifinais.

A ascensão meteórica levou Caniggia ao badalado futebol italiano. Em sua primeira temporada, defendeu o Hellas Verona, campeão nacional três anos antes. Não se encaixou. Logo passou à Atalanta, onde viveu os seus melhores dias. Oscilou, é verdade, mas também ganhou a idolatria dos torcedores em Bérgamo, fazendo campanhas dignas na Serie A e aparecendo nos torneios continentais. Ao lado de Evair, formou uma linha de frente inesquecível. Época na qual também era um trunfo de Bilardo na Albiceleste.

A amizade com Maradona abria as portas para Caniggia na seleção. E mesmo que outros compatriotas fizessem mais barulho em seus clubes, El Pájaro cumpria as expectativas quando entrava em campo na equipe nacional. Assim, foi ganhando espaço durante a Copa de 1990, a primeira das três que disputou. Virou um dos pilares do time, vital na campanha até a decisão. Os dois únicos gols argentinos nos mata-matas, afinal, foram anotados por Claudio Paul.

Contra o Brasil, Caniggia se colocou no panteão do futebol argentino. Em uma tarde na qual o time de Lazaroni era superior, a sintonia com Maradona falou mais alto. El Diez se arrastava em Turim, mas, mesmo assim, conseguiu aproveitar toda a voracidade de seu amigo. Lançou Cani, para ferir o coração dos brasileiros diante de Taffarel. O relógio marcava 35 do segundo tempo e a reação se tornou impossível. Eternizou-se como um dos carrascos mais notáveis no lado argentino da rivalidade.

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Na sequência do torneio, Caniggia teria grande importância também no San Paolo, durante a semifinal. Foi dele o gol que encerrou a invencibilidade da defesa italiana e empatou o jogo contra os donos da casa, entre os principais favoritos para a conquista do Mundial. Nos pênaltis, e com as mãos abençoadas de Goycochea, a Albiceleste avançou a sua segunda decisão seguida de Copa do Mundo. Suspenso, todavia, Cani foi ausência sentida na final contra a Alemanha Ocidental. Em um jogo tão amarrado, uma de suas famosas arrancadas poderia ter desequilibrado.

A Copa de 1990 valeu o lugar cativo de Caniggia na seleção por aqueles anos. Ajudou na conquista da Copa América de 1991, formando poderosa dupla de ataque ao lado de Gabriel Batistuta. Mas não desfrutava do mesmo sucesso pelos clubes. Decepcionou em sua mudança para a Roma, em 1992. E, pior, pegou um gancho de um ano por uso de cocaína. Voltou a tempo de disputar o Mundial de 1994, respaldado por Alfio Basile. Teve sua grande atuação contra a Nigéria, anotando os dois gols na virada por 2 a 1. Titular durante toda a fase de grupos, lesionou-se no último compromisso, contra a Bulgária. Do lado de fora, viu os companheiros serem engolidos pela Romênia de Gheorghe Hagi nas oitavas de final.

Após uma fugaz passagem pelo Benfica, Caniggia chegou ao Boca Juniors de seu coração. Formaria um esquadrão xeneize bancado pela Parmalat, ao lado do amigo Maradona. Timaço que nunca saiu no papel, mais lembrado pelas frustrações do que propriamente pelas conquistas. El Pájaro não foi mal em sua estadia na Bombonera, mas nunca conseguiu emplacar grande sequência. Atravessava turbulências em sua vida pessoal, incluindo o suicídio da mãe, e chegou mesmo a pausar a carreira. Marcado mesmo ficou o clássico ante o River Plate em julho de 1996, o do beijo em Maradona. Agradecimento por tudo aquilo que Cani fez em campo, imparável, autor de três gols nos 4 a 1.

Sem o mesmo moral na seleção com Daniel Passarella, perdeu a Copa de 1998. A carreira se encaminhava para o fim quando teve nova passagem apagada pela Atalanta, antes de assinar com o modesto Dundee. E deu certo na Escócia, a ponto de atrair o interesse do Rangers. Ganhou cinco títulos em Ibrox, incluindo a tríplice coroa em 2002/03. Cavou seu lugar no elenco que disputou o Mundial de 2002, em aposta um tanto quanto surpreendente de Marcelo Bielsa. Mas não entrou em campo na decepcionante campanha albiceleste. Seu nome ficaria maculado pela expulsão patética no banco de reservas diante da Suécia. Ali encerrava-se também sua trajetória na seleção. Já por clubes, sua aposentadoria deu-se em 2003/04, aos 37 anos, ganhando seus petrodólares no Catar. Isso antes de, veteraníssimo, dar sua amostra grátis nas divisões amadoras do futebol inglês.

Olhando para trás, os 50 jogos e as três Copas pela seleção dizem mais sobre o que Caniggia fazia pela Albiceleste do que propriamente o sucesso de sua carreira. Pouco importa. Foi por crescer defendendo o país e fazer gols tão notáveis que o atacante conquistou sua legião de fãs. Os torcedores que, muito graças a Cani, se acharam no direito de dizer em 2014 que o Brasil “tinha em casa seu papai”. É o orgulho que provocou, também a xeneizes, nerazzurri ou light blues, que valeu sua fama. Que garante sua lembrança de maneira tão fácil.

Vale conferir também o especial produzido pelo amigo Caio Brandão, para o sempre ótimo Futebol Portenho.