O brilho de Lionel Messi ofusca os olhos. Anda difícil observar qualquer jogador que se aproxime do camisa 10 nesta temporada, por tudo o que vem jogando. Se já existiram outros momentos mais prolíficos ou vitoriosos na carreira do argentino, talvez este seja o mais deslumbrante. Porque, afinal, quando pensamos que já vimos tudo de Messi, ele não se cansa de nos refutar – e com uma frequência absurda. Dito isso, a situação se torna ainda mais difícil aos jogadores do Barcelona. Todos são coadjuvantes, bem abaixo do protagonista. Mas também o ajudam a elevar seu nível, também seguram as pontas quando não está bem, também permitem o funcionamento do time. Não tão incensados, acabam subestimados. E, com menos chances de trocar passes com Messi do que qualquer outro colega, Marc-André ter Stegen não pode ser esquecido. O Barça conta com o melhor do mundo na frente, mas é possível dizer que também possui o melhor do mundo atrás.

Não é novidade que o bicampeonato do Barcelona no Campeonato Espanhol possui o binômio Messi-Stegen como chave. Enquanto o camisa 10 resolve a maioria dos jogos, o goleiro garante os resultados. Quando desembarcou na Catalunha, o alemão era visto como uma das grandes promessas da posição e com potencial para se colocar entre os melhores do mundo. Não deslanchou logo de cara e lidou com a concorrência de Claudio Bravo. No entanto, a curva ascendente do camisa 1 nestas últimas temporadas é inegável. Atua com um nível de consistência altíssimo, sempre atento quando exigido e colecionando milagres.

A vitória contundente do Barcelona nesta quarta-feira dependeu de Stegen. O goleiro não seria tão testado no primeiro tempo, quando o ataque teve uma de suas atuações mais vorazes dos últimos meses e a defesa manteve a proteção contra a velocidade do Liverpool. Todavia, quando os Reds buscavam ensaiar uma reação e os espaços começaram a surgir, lá estava o homem em quem os blaugranas sempre confiam. Foram três defesas difíceis do goleiro em apenas 15 minutos. Voou para espalmar o chute de James Milner e buscou com a ponta dos dedos a bola rasteira de Mohamed Salah. Fez até parecer fácil a intervenção no petardo de Milner, conseguindo encaixar. Embora fosse no meio do gol, 99% dos arqueiros espalmariam de maneira espalhafatosa. O camisa 1 integra esse 1% diferente, com muita eficiência.

A segurança de Stegen permitiu que o Barcelona abrisse uma vantagem bem mais larga no segundo tempo. O goleiro também teve seus golpes de sorte, entre a bola de Salah na trave e a saída errada que quase o complicou no final. Mesmo assim, nada que o diminuísse como um dos melhores em campo. Enquanto a nota de Messi é quase sempre 10, o alemão se torna o mais próximo de uma média tão alta no elenco do Barcelona. Decisivo a títulos na Espanha, agora pode prevalecer ao seu bicampeonato na Champions. Vale lembrar, há quatro anos, o arqueiro já tinha brilhado em outra semifinal: a classificação à decisão em 2015 dependeu de uma atuação afirmativa do novato em Munique, barrando o Bayern e carimbando o passaporte. Desde então, evoluiu ainda mais.

A diferença entre Messi e Stegen é que, enquanto o atacante sobra entre os melhores jogadores “de linha”, o goleiro vê uma concorrência muito mais parelha em sua posição. Neste momento, pela regularidade e pela quantidade de defesas impossíveis, Jan Oblak é o principal oponente do alemão à “Luva de Ouro” criada pela Fifa em 2017. Pelo estilo de jogo das equipes, o blaugrana costuma ficar mais exposto aos ataques, embora o colchonero seja mais preponderante às vitórias magras de sua equipe. Mas, no fim das contas, o único que tem conseguido transformar essa excelência em taças é Stegen. Mostra-se pronto para buscar a Champions mais uma vez.