Campeão do mundo em 1966, Geoff Hurst oferece seu cérebro para pesquisas sobre doenças neurodegenerativas entre ex-jogadores

Geoff Hurst, herói do título da Inglaterra na Copa do Mundo de 1966 ao marcar três gols na final contra a Alemanha Ocidental, acredita que as cabeçadas regulares na bola durante partidas e treinamentos contribuíram para que muitos ex-jogadores de sua era desenvolvessem Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas, como a demência. Por este motivo, estaria pronto para oferecer seu cérebro para pesquisas e apoia que cabeçadas sejam proibidas em jogos infantis.

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A discussão sobre demência entre ex-jogadores de futebol está em alta na Inglaterra após o ídolo do Manchester United e da seleção inglesa Bobby Charlton, campeão do mundo em 1966, ser diagnosticado com a doença no início deste mês. Em outubro, Nobby Stiles, outro campeão daquela equipe de 1966, morreu depois de sofrer com demência nos últimos quatro anos. Jack Charlton, irmão de Bobby e também campeão do mundo em 1966, sofreu com demência também e faleceu em julho deste ano, aos 85 anos.

“Parece haver um grupo particular de pessoas que estavam sofrendo. Lembro dos meus dias de treino no West Ham, tínhamos uma bola pendurada no teto e a cabeceávamos por 20 minutos. Então jogávamos tênis de cabeça no ginásio e, nos treinos em campo, praticávamos cabeçadas na primeira trave, na segunda trave, e você chegava a cabecear 20 ou 30 bolas no espaço de meia hora”, descreveu Hurst, de 78 anos, em entrevista ao Daily Mirror.

“(Proibir que crianças cabeceiem a bola) Seria uma sugestão bem forte e sensata. Acho que devemos investigar a possibilidade de impedir que elas cabeceiem em uma idade tão jovem, quando o cérebro não amadureceu ainda. Não acho que isso destruiria o prazer do futebol infantil ou do futebol de base.”

Perguntado se doaria seu cérebro para pesquisas após sua morte, Hurst disse: “Sim, com certeza. O Jeff Astle (ex-jogador do West Bromwich) fez isso por meio de sua filha Dawn, é claro, e vendo isso e tendo outra pessoa fazendo o mesmo é bom”.

“Se eu puder ajudar, assim como famílias que perdem pessoas e doam seus órgãos, acho que seria fantástico para as outras pessoas. Portanto, se eu puder ajudar assim, eu discutiria isso com minha mulher, e ela não teria objeções. A resposta direta seria sim”, completou.

Após o diagnóstico de Bobby Charlton, Gareth Southgate, atual treinador da seleção inglesa, reconheceu temer sofrer com a doença degenerativa após passar 18 anos como jogador.

“Claro que, na minha idade, tendo cabeceado muitas bolas, tenho preocupações. Mas também reconheci que, sempre que estive em campo, assumi um risco de lesão, de curto ou longo prazo, e sabia disso. E eu sempre teria preferido ter a carreira e a oportunidade de jogar, mesmo se isso significasse que, a longo prazo, eu poderia ter problemas físicos ou de saúde”, disse Southgate, no início deste mês.

De sua parte, a FA afirma estar comprometida com o estudo sobre a relação entre o futebol, a demência e outras doenças neurodegenerativas. A federação aponta a questão como um dos pontos chaves de seu próximo ciclo estratégico, entre 2020 e 2024.

“A demência é uma doença debilitante na sociedade, que coloca fardos físicos e emocionais pesados sobre as pessoas que vivem com ela, suas famílias e seus entes queridos. A FA ajudou a liderar o caminho em pesquisas inovadoras sobre sua ligação com o futebol e temos um compromisso claro e inabalável, tanto financeiramente quanto com recursos, de apoiar pesquisas objetivas, robustas e completas daqui pra frente. Esta área de trabalho será uma parte essencial da estratégia da FA para o período entre 2020 e 2024, já que reconhecemos a importância do assunto.”

Southgate espera que em breve jogadores e ex-jogadores possam ter pleno conhecimento das consequências de anos seguidos cabeceando bolas em seus anos finais: “Infelizmente, ainda não temos todas as respostas que gostaríamos no momento. Sei que existe um trabalho em andamento sobre isso em segundo plano”.

Embora ainda não existam dados conclusivos sobre a ligação entre demência e a carreira como jogador de futebol, um estudo financiado pela FA e pela PFA (Associação de Jogadores de Futebol Profissionais) e publicado no ano passado afirmou que jogadores corriam um risco significativamente elevado de desenvolver uma série de doenças neurodegenerativas em comparação com a população geral.