“Campeões de 13, 16 e 22 (trálálá). Temos muitas glórias e surgirão outras depois (trálálá). Campeões, com a pelota nos pés, fabricamos aos montes, ao dez! Nós ainda queremos muito mais. America, unido, vencerás”. As estrofes compostas por Lamartine Babo se tornaram um verdadeiro clássico, especialmente quando cantadas pela voz potente de Tim Maia. O hino do America é considerado um dos mais bonitos do futebol brasileiro, e com motivos. Versa, inclusive, sobre os três primeiros títulos do Campeonato Carioca conquistados pelos rubros, em total de sete taças estaduais. A última delas, quebrando um jejum de 25 anos. E que completa 55 anos nesta sexta-feira.

VEJA TAMBÉM: Após quatro anos no inferno, enfim o America está de volta à elite do Carioca

O America possuía um time forte na década de 1950, mesmo sem chegar ao topo. Aliás, os anos anteriores tinham sido cruéis com o Diabo. Foram três vices no período. Em 1950, o Mequinha acabou derrotado pelo Vasco, base da seleção na Copa. E mais amargas foram as derrotas consecutivas em 1954 e 1955, durante o segundo tricampeonato do Flamengo. Os rubros contavam com jogadores de destaque, como Pompeia, Edson, Leônidas e Canario – que, em 1960, conquistou a Copa dos Campeões com o Real Madrid. Ainda assim, caíram para o célebre time rubro-negro de Dida, Evaristo, Zagallo, Joel e outros grandes nomes. Na segunda queda, o America chegou a golear o Fla por 5 a 1 no segundo jogo da decisão. Mas, sem que o placar agregado pesasse como critério, perderam o jogo de desempate.

Em 1960, entretanto, o America beirou a perfeição naquele campeonato, o primeiro desde o surgimento do Estado da Guanabara. A equipe começava surpreendendo no próprio banco de reservas. Jorge Vieira tinha apenas 26 anos, mas foi a aposta da diretoria para comandar os rubros. O jovem técnico montou uma equipe de qualidade, especialmente na defesa, para disparar à frente da pesada concorrência. Djalma Dias era o esteio da forte linha de zaga ao lado de Sebastião Leônidas, muito bem protegidos pelo incansável Amaro no meio de campo. Já no ataque, se destacavam os pontas Nilo e Calazans. Talentos que superaram até mesmo os renomados craques da seleção brasileira campeã mundial.

VEJA TAMBÉM: O Don Corleone que fez do Bangu um time de craques, e o levou à Libertadores

Ao longo da campanha, o America sofreu apenas uma derrota em 22 rodadas. Sucumbiu em Moça Bonita ao Bangu treinado por Tim, que alinhava notáveis como Zózimo, Ubirajara e o garoto Ademir da Guia. Nenhum outro dos grandes, porém, foi páreo ao Mequinha em 1960. Os rubros empataram os dois duelos com o esquadrão do Botafogo, de Garrincha, Nilton Santos, Didi, Quarentinha, Amarildo e Manga – com direito a um emocionante 3 a 3 no segundo turno. Além disso, venceram uma e empataram outra diante de Flamengo (Dida, Carlinhos, Moacir) e Vasco (Barbosa, Bellini, Orlando). E a decisão veio contra o Fluminense.

Durante o primeiro turno, as duas equipes empataram por 1 a 1 no Maracanã, com gols de Escurinho e João Carlos. Entretanto, o America não tinha o beneficio da igualdade no segundo encontro. Os rivais pela taça se cruzaram justamente na última rodada e, um ponto à frente na tabela, o Fluminense tinha a vantagem do empate para consumar a conquista. O Mequinha jogava sob pressão no Maracanã, diante de 98,1 mil pagantes. Ainda assim, buscou uma virada histórica no segundo tempo.

VEJA TAMBÉM: Conheça como era o Cariocão de 1938 a 1975 através deste mapa interativo

O Flu terminou a primeira etapa à frente do placar. Após pênalti cometido por Djalma Dias, o goleiro Ari salvou a cobrança de Pinheiro, mas o próprio tricolor converteu. Já na volta do intervalo, os rubros buscaram o resultado contra o time de Waldo, Telê e Escurinho. Logo aos quatro minutos, Nilo não venceu o lendário goleiro Castilho pela primeira vez. E o gol do título saiu, agonizante, apenas aos 33. Nilo cobrou falta e, outra vez na sobra do camisa 1, o lateral Jorge se tornou herói, estufando as redes.

Era a consagração de uma geração de ouro para o América. Que marcou outros personagens especiais na história do Diabo, além do elenco. Tia Rute, torcedora-símbolo dos rubros, não recebeu a autorização dos médicos para ir ao Maracanã nos últimos dias de gravidez. Mas contrariou a recomendação e, mesmo com dores, assistiu ao jogo das arquibancadas. Acabou se tornando motivação a alguns jogadores, que dedicaram o título a ela. Já na comemoração, dezenas de torcedores invadiram a sede do clube. Entre eles, Juarez Soares da Silva, que morreu afogado na piscina em meio ao êxtase.

Como campeão estadual, o America ainda chegou à semifinal da Taça Brasil de 1961. Eliminou Grêmio e a Academia do Palmeiras, antes de cair para o poderoso Santos nas semifinais. E o sucesso no Carioca nunca mais se repetiu. No máximo, os rubros conquistaram uma Taça Guanabara e uma Taça Rio, mas não foram além da terceira colocação geral. Ficaram as histórias, passadas de geração em geração, sobre um clube que perdia as suas forças. Em 2015, os americanos se contentaram em conquistar o acesso à elite após quatro anos de ausência. Mas ainda têm direito às boas memórias.

* A dica de pauta veio do leitor e amigo Caio Brandão, do Futebol Portenho. Valeu!