Quando Heber Roberto Lopes não ofereceu um minuto de acréscimo sequer, apesar da cera dos visitantes, e os jogadores do Huracán começaram a celebrar a decisão nos pênaltis, o Independiente Santa Fe parecia já derrotado na final da Copa Sul-Americana. Em arrastado empate por 0 a 0, repetindo o placar do jogo de ida, os Cardenales desperdiçaram a grande chance de matar o jogo contra um adversário mais fraco. Contudo, a festa do Globo foi em vão. A confiança nem de longe se repetiu na marca da cal, com enorme incompetência nas cobranças. Melhor para os colombianos, destinados mesmo a serem campeões. Venceram a contenda por 3 a 1, conquistando sua primeira taça continental. Fecharam a noite diante da calorosa festa nas arquibancadas do gigantesco El Campín, em Bogotá.

VEJA TAMBÉM: Final da Copa Sul-Americana é o maior feito do ano mágico do Huracán

A vitória pode não ter acontecido da maneira mais contundente. Mas enfatiza um trabalho de anos feito pelos alvirrubros. Desde 2012, o futebol de Bogotá aparece mais fortalecido: o Santa Fe venceu duas vezes o Campeonato Colombiano, encerrando o jejum de 37 anos sem a taça, enquanto o Millonarios rompeu um hiato de 22 anos para se manter como o maior campeão da história do país. No entanto, os rivais não tiveram a mesma força além das fronteiras. Enquanto o Millonarios foi mero coadjuvante em suas participações nos torneios continentais, o Santa Fe se colocou como um dos times de mais destaque da América do Sul.

Os Cardinales não conseguiram brilhar em todas as aparições recentes na Libertadores. Ainda assim, disputar o torneio em três edições consecutivas já foi um recorde para o clube, e algo alcançado por apenas outros sete clubes do continente no triênio, nenhum deles colombiano.  A grande campanha veio em 2013, eliminando o Grêmio e caindo apenas nas semifinais, no melhor desempenho de um clube de seu país em seis anos. De qualquer maneira, a trajetória nesta temporada também mereceu elogios. Os alvirrubros sobreviveram em grupo difícil, passando ao lado do Atlético Mineiro e eliminando o Colo Colo. Já nos mata-matas, após deixarem para trás o Estudiantes, caíram diante do Internacional nas quartas de final.

Ao longo dos últimos anos, o Independiente Santa Fe sofreu mudanças notáveis. Perdeu jogadores fundamentais em seus sucessos, como o goleiro Camilo Vargas, o meia Edwin Cardona, o ponta Jefferson Cuero e o atacante Wilder Medina. Grande potência econômica do futebol colombiano, o Atlético Nacional se aproveitou do sucesso dos Cardinales para contratar alguns de seus melhores jogadores. Ainda assim, a equipe de Bogotá soube se reinventar. E a espinha dorsal permaneceu para a conquista da Copa Sul-Americana.

Como em outras campanhas, a solidez defensiva pesou bastante a favor do Santa Fe. A base da linha de zaga é formada há algum tempo por Anchico, Mina e Meza – o último, jovem promissor, já reserva da seleção colombiana e negociado com o Tigres. Deram a segurança necessária para os Cardinales eliminarem rivais de camisa pesada ao longo da trajetória, incluindo o Nacional do Uruguai, o Independiente e o Emelec. Já a partir das semifinais, quando o ataque dos alvirrubros mal funcionou, marcando apenas um gol, a defesa fez o seu papel para segurar quatro empates.

Colombia Argentina Soccer Copa Sudamericana

Quem brilhou pouco desta vez foi o maestro do Santa Fe, Omar Pérez, grande ídolo no período recente e dono da braçadeira de capitão. Já aos 34 anos, o camisa 10 permaneceu na reserva, sem representar tanto perigo na armação das jogadas e nas bolas paradas. Luis Seijas passou a servir como referência técnica, enquanto o ataque passou a depender bem mais dos lampejos de Borja e Morelo – o que, evidentemente, não ajudou muito na Sul-Americana. Mas, no fim das contas, o enganche argentino pôde ganhar ainda mais aplausos, convertendo um dos penais e erguendo a taça. Garantiu ainda a primeira conquista internacional de Gerardo Pelusso, técnico de renome em diferentes países que chegou a Bogotá neste ano. Já o herói da noite acabou sendo o goleiro Zapata, sob a dura responsabilidade de substituir o ótimo Vargas.

A Copa Sul-Americana também representa o título inédito do Independiente Santa Fe no cenário continental, depois de dois vice-campeonatos anteriores. E reforça as atenções sobre o momento do futebol colombiano. Nem sempre dá para competir com Brasil e Argentina, bem mais ricos e estruturados. Mas, ao lado dos chilenos, os cafeteros se estabelecem como forças no segundo escalão da América do Sul. Especialmente por aquilo que os Cardinales, juntamente com o Atlético Nacional, têm feito nas copas internacionais.

E, além de tudo, a conquista ainda garante o Santa Fe na Libertadores de 2016, logo após a eliminação para o Junior de Barranquilla nas fases finais do Campeonato Colombiano. Pelo quarto ano seguido, os alvirrubros estarão na principal competição da América do Sul – uma sequência superada apenas por Universidad de Chile, Nacional do Uruguai, Emelec e The Strongest neste momento. Além disso, é uma série que somente o Atlético Nacional dos anos 1990, o Deportivo Cali dos anos 1970 e o América de Cali dos anos 1980 e dos anos 2000 conseguiram antes no futebol colombiano. Todos eles, com finais de Libertadores no currículo dentro do período ou em anos próximos. Feito que ajuda a dimensionar o peso deste time do Santa Fe não só na atualidade, como também na história de seu país.