Despedidas sempre doem. Para quem vai e para quem fica. Se estivermos falando de uma pessoa querida, relevante e talentosa, é ainda mais difícil evitar a melancolia. O réquiem de Andrés Iniesta, no entanto, não precisava ter sido tão triste. A derrota nas oitavas de final para a Rússia, após a disputa dos pênaltis, encerrou a carreira em alto nível do craque. A saída do Barcelona já havia sido anunciada. Neste domingo, Iniesta confirmou que se aposentou da seleção que foi campeã mundial em 2010 graças a um gol seu, na prorrogação da final contra a Holanda.

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“Este foi meu último jogo pela seleção”, afirmou Iniesta. “Em nível individual, encerrei uma etapa maravilhosa. É provavelmente o dia mais triste da minha carreira pela seleção. O futebol tem dessas coisas. Não foi a despedida sonhada”. E nem a merecida. Iniesta tentou, decidiu, buscou o jogo e fez o que poderia fazer, mas, com um diretor substituto no comando, problemas de ensaio e teimosa, não encontrou um coletivo preparado para auxiliá-lo a ter uma última apresentação à altura de tudo que já fez.

Com 34 anos, ficou claro que Iniesta não tinha as pernas para brilhar com a consistência que o marcou nos últimos dez anos. Tanto que foi poupado por Fernando Hierro nas oitavas de final. Mas ele teve seus espasmos de brilhantismo. Depois de uma estreia discreta contra Portugal, foi crucial para furar a defesa do Irã, com uma jogada em que misturou drible, passe e muita coragem, na armação do gol sem querer de Diego Costa. Contra Marrocos, fez jogada de linha de fundo, no espaço de um guardanapo, para assistir Isco, que empatou a partida, depois dos africanos abrirem o placar.

Contra a Rússia, Iniesta ficou no banco de reservas. Hierro fez algumas mudanças no time titular. Também deixou Dani Carvajal de fora, já que o lateral chegou à Rússia com alguns problemas físicos. Ambos acabaram entrando, por volta dos 25 minutos do segundo tempo. E iniesta teve a chance de evitar a prorrogação, quando Iago Aspas ajeitou uma bola para ele com o peito. O meia pegou de primeira da entrada da área, buscando o canto de Akinfev, que caiu para fazer a defesa. Na disputa de pênaltis, teve a responsabilidade de abrir os trabalhos. Todos os que o admiram seguraram a respiração, cientes das crueldades das quais o futebol é capaz. Mas Iniesta confirmou a sua cobrança. A Espanha foi eliminada com erros de Koke e Aspas.

No final de abril, a revista France Football escreveu uma carta pedindo desculpas por nunca ter dado uma Bola de Ouro para Iniesta. Esperava que a Copa do Mundo oferecesse a chance da redenção. “Entre as grandes ausências dos laureados da Bola de Ouro, a sua nos é dolorosa. A menos que uma oportuna campanha russa lhe permita reparar essa anomalia democrática”, disse a publicação. A única chance de isso acontecer seria se Iniesta liderasse a Espanha ao segundo título mundial, decidindo partidas e esbanjando excelência. A realidade ficou muito longe desse sonho.

A aposentadoria de Iniesta combinada com o fracasso da Espanha na Rússia é altamente simbólica. A confiança no estilo da seleção havia sido abalada pela tragédia brasileira quatro anos atrás, depois da qual Xavi e Xabi Alonso, outros dois símbolos desse jogo, encerraram suas carreiras internacionais. Vicente del Bosque foi mantido no cargo, mas saiu depois de outra participação fraca, na Eurocopa de 2016. Julian Lopetegui conseguiu dar uma boa revitalizada famoso tiki-taka, introduzindo sangue novo e mais recursos, como um atacante rompedor, na figura de Diego Costa, e variações interessantes em jogadas de bola parada.

No entanto, a Espanha mostrou a pior face da sua marca característica contra a Rússia. Trocou aproximadamente 1.100 passes, mas levou pouco perigo a Akinfeev e marcou apenas um gol. A defesa, frágil ao longo dos quatro jogos, cedeu um pênalti, e os donos da casa empataram. A eliminação veio nos pênaltis para obrigar a seleção espanhola a refletir profundamente sobre os rumos que pretende tomar daqui para frente. E, ao mesmo tempo, o último grande artífice do jogo que transformou a história do time nacional foi embora.

Ainda não seria o bastante, mas poderíamos ter tido mais sete partidas de Andrés Iniesta. Tivemos quatro. Agora, tudo que resta é o Campeonato Japonês, com a camisa do Vissel Kobe. Com todo respeito à J-League, o que Iniesta tinha para fazer no futebol do mais alto nível já foi feito. E, restringindo apenas à seleção, não foi pouca coisa: dois títulos europeus e um título mundial, marcando o único gol da decisão. Um gênio. Um gigante. Desde já, uma saudade.