Este texto faz parte da revista ContrAtaque FC, da qual falamos aqui. A publicação anual leva o selo da Dolores Editora (antiga No Barbante) e seu primeiro volume terá 188 páginas, com 27 colaboradores de qualidade O material é organizado por Lúcio Branco, diretor do documentário “Barba, Cabelo & Bigode”, e se volta principalmente à cultura do futebol. Você pode comprar na pré-venda por R$ 39,20.

Por Lu Castro*

Há caminhos e caminhos dentro do futebol feminino brasileiro, e as mulheres com ele envolvidas em seus mais diversos aspectos, têm um ponto em comum: a resistência.

A resistência começou, de modo mais evidente, nos anos de proibição. Enquanto se coibia o futebol para as mulheres entre os anos 1940 e 1980[1], muitas refutavam essa lei esdrúxula e seguiam na sua prática. Nesse período, as notas sobre o assunto na imprensa iam de curiosas a coléricas – e eram pouco informativas.

Após a liberação, o jogo das mulheres seguiu como mero figurante entre as notícias esportivas, tendo alguma citação em jornais e programas de TV, em momentos curiosos ou, ainda, para sublinhar a beleza de alguma jogadora.

Com a inserção do torneio de futebol feminino nos Jogos Olímpicos, em 1996, a atenção às mulheres dentro de campo passava a crescer especificamente nesse período, mas, na sequência, voltava ao ostracismo.

Coisas ocorriam nesse meio tempo. Tínhamos competições acontecendo, nomes se fortaleceram, havia gente interessada e apaixonada pela modalidade. Ocupar um campo, uma quadra ou qualquer espaço que o valha, sempre exigiu postura combativa das mulheres.

Ainda que invisíveis, seguiam jogando bola. E mais que isso: ainda que invisíveis, seguiam se apoderando do direito à prática do esporte. E é neste ponto que entra minha atividade de noticiar o assunto, o que não demorou a se transformar em militância, sempre partindo da observação de padrões que se reproduzem aparentemente sem fim.

No meu caso, a indignação falou mais alto. Depois, tive pressa em criar conteúdo e fazê-lo circular. Afinal de contas, histórias existem – porém, sem espaço para exposição, acabam se perdendo. Nesse aspecto, a internet foi a melhor das amigas, e, fundamentalmente, também a responsável por permitir dar vazão à tamanha quantidade de informações sobre o tema.

Mas, e os atores? Ou melhor: e as atrizes? Como alcançá-las? Não havia assessoria de imprensa para as equipes femininas. O universo do futebol das mulheres era – e ainda é, em sua maioria – distinto até as profundezas do futebol dos homens. Naquele cenário, a estruturação do sistema de comunicação era o último dos pontos de preocupação. Logo, tudo demandava pesquisa pesada e busca direta nas fontes: o local dos treinos, jogos, técnicos e técnicas e, claro, as próprias jogadoras.

Quanto mais aprofundava a pesquisa e a busca pelas agentes e suas histórias, e pelo andamento das competições e das condições para que a bola rolasse, mais a bandeira se erguia. E era urgente.

Para além do abismo da desigualdade, havia – e há – desrespeito e descumprimento de obrigatoriedades nas relações de trabalho que se amparam num profundo desconhecimento sobre direitos elementares nesse âmbito. Ou seja, tirava-se proveito de onde a ignorância se fazia presente, aliada à necessidade de manter o espaço do campo ocupado.

Com tanta aresta a ser aparada, o tom do discurso tinha que ser duro. Se alguns agentes responsáveis pela “organização e desenvolvimento” da modalidade se movimentavam confortavelmente entre descumprimento de regras e abusos de todos os tipos, era necessário mostrar que existiam pessoas com poder de alcance nos bastidores, e que sabiam pressionar.

Meu trabalho, que começou com o simples gesto de conferir visibilidade ao futebol feminino, ganhou contornos de guerra, mas também aliados e um espaço para destaque e maior circulação no site Livresportes e no site Futebol para Meninas, parceiro do Lancenet.

Se os jornais impressos nunca se dispuseram a criar um espaço – mesmo que mínimo – para as notícias da modalidade, a internet e todas as suas possibilidades foram fundamentais na construção do aumento do interesse das pessoas pelo futebol das mulheres.

Com a criação de novas plataformas e aplicativos como o Twitter, foi possível fazer o que até então era raro em se tratando de transmissões. Ainda que a dependência da televisão como meio de maior alcance existisse, narrar e comentar jogos importantes, como os das edições da Libertadores da América Feminina, foi um dos pontos altos e marcantes desse caminho.

Através do perfil @futebolmeninas no Twitter, pude “transmitir” tudo o que estava acontecendo em São José dos Campos naquela terceira edição da competição organizada pela Conmebol. Do primeiro ao último jogo, os seguidores tiveram informações dos jogos em tempo real.

Passei ainda alguns anos batendo cabeça no segmento jornalístico, tentando me equilibrar entre seguir o caminho conscientemente escolhido e as contas a serem pagas. Entre um acesso de raiva e outro, em razão das atitudes pra lá de canalhas, participei de ações que visavam mudar de algum modo a estrutura da modalidade. Passei por dois grupos de trabalho – de modo voluntário, saliente-se – que tinham a intenção de criar condições permanentes de melhoria para as mulheres do futebol.

Em 2012, fui convidada a fazer parte do grupo de trabalho de futebol feminino sob a égide da Secretaria Nacional de Futebol do Ministério do Esporte. Me retirei em 2015, quando retornei ao Lance! com o site Futebol para Meninas. Em 2016, fui convidada a fazer parte do grupo de trabalho de futebol feminino do Comitê de Reformas da CBF, onde fiquei algo em torno de cinco meses, se muito.

Nas duas ocasiões, pude experimentar a impotência diante de pessoas cujo poder de decisão é, muitas vezes, um empecilho para o desenvolvimento da modalidade. Ego, amigos/parceiros de negócios, ambições que desviam e definem o caminho dessas pessoas etc. Claro que não cabe generalização, mas essas poucas figuras são as que emperram o processo de evolução das coisas no meio.

Tentei, ingenuamente, estar dentro do sistema esperando colaborar com as mudanças necessárias. Mas não se muda o sistema estando dentro dele. Para mudar um sistema impregnado de práticas obscuras, só o destruindo. E a CBF… Bem, a história de seus recentes cabeças são dignas das notas policiais, logo…

Entre as intermináveis brigas e dores estomacais em razão dos bastidores do futebol feminino, tomei a decisão de dirigir meus esforços para a produção da cultura futebolística.

A oportunidade de abraçar trabalhos que estavam longe da minha realidade se deu em 2015 com o projeto da exposição “O futebol delas – 20 anos de futebol feminino nos Jogos Olímpicos”, abrigada pelo Sesc Interlagos.

Em ano olímpico e com o futebol feminino completando 20 anos de participação nos Jogos, desenvolver uma curadoria tratando do tema foi a responsabilidade e a satisfação que renovaram as forças para continuar tratando do assunto, só que por outro viés.

A partir desse momento, essa outra abordagem se firmou no horizonte. Fazer recortes históricos e ter a oportunidade de mostrar o futebol feminino sob uma ótica mais inclusiva e eficaz se tornou o foco do meu trabalho, ainda que meu posicionamento fosse solicitado em algumas ocasiões.

O pouco tempo de participação no grupo de trabalho do Comitê de Reformas da CBF foi suficiente para ratificar minha posição fora do sistema. Ao sublinhar o trabalho ineficiente do então técnico da seleção feminina no Mundial de 2015, no Canadá, e a oportunidade perdida de subir ao pódio olímpico em casa, a resposta que obtive do coordenador de futebol feminino da CBF, Marco Aurélio Cunha, não foi apenas desanimadora. Foi a catapulta para meu posicionamento efetivo de oposição e luta contra os que ocupam espaços de decisão e que, efetivamente, o utilizam para tudo, menos para o trabalho correto.

Com uma certa pressão das pessoas que lidam com a modalidade e da Fifa, a CBF decidiu dispensar Vadão e sua comissão técnica, e convocar para a missão de colocar a seleção nos eixos, a treinadora Emily Lima. Todos os movimentos interessados numa maior visibilidade feminina no futebol comemoraram a escolha. Pela primeira vez desde sua primeira convocação oficial em 1988, a seleção tinha, à sua frente, uma mulher.

Bastaram dez meses de trabalho, tendo apenas o Torneio Internacional como “competição” e alguns amistosos organizados por Emily e sua comissão técnica, para que os egos feridos por seu trabalho delimitassem sua permanência.

Uma demissão baseada numa argumentação rasa e carregada de ranço. O episódio me esgotou ao ponto de exaurir minhas forças – a uma quase catatonia – em plena noite de uma sexta-feira de muito calor. Esse foi o ponto no tempo em que defini meu rumo.

O caminho da cultura esportiva estava asfaltado e trafegável, mas não posso bancar a ingrata. Não fosse a trilha do jornalismo a que me dediquei, muitas vezes tendo a raiva e a indignação como bagagens obrigatórias, não teria chegado aos trabalhos de intermediação de atletas e a atividades pontuais como curadoria, roteiro e produção, palestras, mediações e, mais que as atividades em si, o desafio único de expandir as margens dessa estrada que se chama futebol feminino.

Enquanto isso, a instituição-mãe, aquela que se diz proprietária do futebol nacional, segue plantando e adubando falácias, elementos fundamentais para o infarto coletivo – e não pretendo pegar o bonde da hospitalização. Meu caminho agora é o da realização e independência. Abraçar os ratos para tentar mudar o sistema é mapa dispensado ao vento.

[1] Em 1941, através do Decreto-Lei 3.199, o Governo Vargas determinava que às mulheres estava proibida práticas esportivas que não eram compatíveis com sua natureza. Em 1965, através da Deliberação nº 7, o Conselho Nacional dos Desportos regulamentou e detalhou os esportes proibidos, entre eles, o futebol. Em 1979, através da Deliberação nº 10, a prática foi liberada.

*Lu Castro é são-paulina por causa de Zé Sérgio, Valdir Peres, Chicão, Pedro Rocha e Serginho Chulapa. É maloqueira. Avessa ao sistema e inquieta, se comporta feito vento e detesta raízes e prisões. Por isso meteu pé no mundo corporativo de TI e resolveu ser feliz algumas vezes com o futebol. Tentou ter remuneração decente como jornalista de futebol feminino, mas passou muita raiva. Em consequência disso, pegou o leme do seu gosto e mudou de direção. Está feliz trabalhando com cultura esportiva em parceria com o Sesc.