Os estaduais em 2020 ainda nem terminaram e a ideia da maioria das federações com times na Série A é terminá-los em julho, no máximo em agosto. Isso resolve o problema de 2020, mas e os problemas que virão com essa extensão do calendário de 2020 para 2021, com Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil, os dois principais torneios brasileiros, sendo disputados até o carnaval? Com a divulgação do calendário ajustado da CBF para 2020, que leva as principais competições de 2020 até fevereiro de 2021, os estaduais em 2021 ficam seriamente ameaçados.

É uma dúvida que teremos que ver na prática. A CBF não cita nada sobre os estaduais para 2020, nem sobre como será o calendário do próximo ano. O que conseguimos ver é que em janeiro só teremos um meio de semana com jogo da Série A. Pode ser que os estaduais entrem já em janeiro com jogos só às quartas-feiras, mas isso o tornaria ainda mais irrelevante. Com a reta final o Brasileirão sendo disputada, é muito provável que os times entrassem com equipes reservas, talvez até recheadas de garotos. O que já seria muito ruim para esses torneios, que perderiam ainda mais importância.

Outra possibilidade seria a disputa dos estaduais começar só depois do Brasileirão, a partir do fim de semana seguinte ao fim do Brasileiro, no dia 28 de fevereiro. É possível, mas teria que ser encurtado para durar até maio e o Brasileirão recomeçar. Se mantivessem 18 datas, com a duração prevista para 2020, por exemplo, seria preciso jogar no mínimo até junho. O Brasileirão então só jogaria em julho e o problema continuaria para a temporada 2021, comprometendo também a temporada 2022.

Além disso, os jogadores estariam fisicamente muito comprometidos depois de disputarem todo o Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores e Sul-Americana e precisariam de um descanso, porque emendariam uma temporada na outra, o que é fisicamente algo terrível. Ainda mais no calendário brasileiro, que pode chegar a 80 jogos por ano. Mais uma vez, haveria o risco de termos reservas em campo, desvalorizando ainda mais os já combalidos estaduais.

Por fim, uma possibilidade também seria uma pausa do futebol brasileiro e o retorno concomitante de Campeonato Brasileiro e estaduais. Assim, de novo, os estaduais seriam relegados a segundo plano, com reservas nesses torneios para priorizar o Campeonato Brasileiro.

Como o objetivo da CBF é ajustar o calendário para que o ano de 2021 possa acabar como habitual, no começo de dezembro, encaixar os estaduais será um problema. Em 2022, o calendário precisa ser encurtado para a Copa do Mundo, que começará em novembro. O que significa que todo o calendário brasileiro de 2022 precisará encerrar suas atividades em outubro para liberar os jogadores para a Copa. Ou seja: o aperto não é só para 2020 ou 2021, chega até o ano da Copa do Mundo.

Tudo isso ainda tem um outro fator: é preciso que o vírus esteja completamente controlado e não haja uma segunda onda de contaminações e colapso na saúde, porque se não todo esse calendário estará comprometido. E sabemos que o controle pleno só acontecerá mesmo com a vacina, algo que ninguém consegue saber neste momento quando haverá e, mais do que isso, quando estará disponível para toda a população.

Com tudo isso, imagine só o Campeonato Carioca, que não tem contrato com qualquer TV para o próximo ano. A emissora que se arriscar a comprar os direitos de transmissão poderá correr o sério risco de ver embates entre reservas dos times grandes e pequenos times do estado. Parece improvável que alguém pague o valor que a Globo pagava (cerca de R$ 100 milhões no total, com R$ 18 milhões para cada clube grande). Quem apostará nisso?

Mesmo em casos como o do Campeonato Paulista, que tem contrato e que vale muito dinheiro, com um calendário tão apertado, como será isso? Será mesmo que os clubes irão querer jogar tantas rodadas – 18! – de um estadual em meio a um calendário completamente comprometido? É uma questão bastante difícil de medir. A TV também questionará o produto se o torneio for escanteado. O contrato vigente fica ameaçado e, assim, toda a existência do estadual como conhecemos.

Os estaduais dos outros estados, então, correm ainda mais risco. Porque o Paulista ainda gera um dinheiro que os clubes abraçam, mas os demais geram muito menos. Diante da possibilidade de estender o Campeonato Brasileiro e, assim, ganhar com este torneio, que é o mais lucrativo no ano, em vez de passar quatro meses com estaduais, os clubes podem querer que a mudança seja, de alguma forma, permanente.

O que segura a existência dos estaduais no modelo que temos é o dinheiro. Eles geravam um bom dinheiro no Rio, mas já não geram mais, e ainda geram um bom dinheiro em São Paulo. Geram menos em Minas Gerais e Rio Grande do Sul, e quase nada nos outros estados. A pandemia, a paralisação e toda a confusão do Campeonato Carioca que vimos nesta temporada, com uma briga de cada um por si, liminares e uma Medida Provisória feita às pressas, os estaduais parecem cada vez mais um zumbi esportivo, como disse o presidente do Bahia, Guilherme Bellintani. E será preciso fazer algo com ele. Porque quem convive com um zumbi, eventualmente se torna um.

Há inúmeros motivos racionais para que os estaduais sejam mudados, reduzidos, até mesmo colocados como um torneio apenas para clubes sem divisão nacional e, assim, readequados. Os clubes empurram com a barriga enquanto pegam o dinheiro do estadual, levando quase sempre da mão para a boca. O problema é que a realidade começa a se impor e parece cada vez mais próximo o momento que o dinheiro dos estaduais vai sumir, como sumiu no Rio para 2021. Soa como um destino inevitável. Sem dinheiro, os clubes precisarão mudar, alguns até arriscados de bancarrota. Sem dinheiro, as mudanças terão que ser emergenciais, mas terão que acontecer. A mudança não virá pela razão. Virá pela escassez.