“Time grande não cai”. É a bravata preferida dos torcedores de times que ainda não foram agraciados com uma passagem forçada pela Série B, no momento em que os seus rivais são rebaixados. Ou mesmo quando eles próprios se salvam da queda. Porque faz todo sentido time grande não cair, mas correr sérios riscos, né? De qualquer forma, sobraram poucos que podem fazer uso dessa falácia. Em geral, ela é dita só da boca para fora, mas sempre tem um mais ingênuo que acredita piamente nisso. No Brasileirão, apenas Cruzeiro, Flamengo, Internacional, Santos e São Paulo não passaram pela experiência de ser rebaixado.

Talvez nunca passem, têm força para isso. Mas é bom que os torcedores desses clubes que curtem a bravata citada procurem um bom esconderijo para o caso de ficarem com a cara no chão. Porque time grande cai sim. Já vimos vários exemplos. Time grande não cai apenas em uma frase que gosto de repetir: time grande não cai… desaba. Por isso, sempre é um choque ver um clube como o Palmeiras tendo de encarar o rebaixamento. Mesmo quando estamos exaustos de saber que a instituição é mal administrada e que isso potencializa os riscos de um desastre.

De uns tempos para cá, aprendemos na marra que continuaremos sentindo choques dessa mesma voltagem. Não adianta ficar procurando razões para o fenômeno ter passado a acontecer com mais frequência. Se são mesmo doze clubes grandes no Brasil (o que cabe discussão, pois, dependendo do critério adotado, seriam bem mais ou bem menos), é natural que pelo menos um deles tenha dificuldades em um campeonato onde 16 escapam da degola. É o outro lado de uma moeda que também faz com que tenhamos mais competitividade na briga pelas primeiras colocações. Algo que ainda está longe de ser destruído, como provam os seis campeões diferentes em dez anos de disputas em pontos corridos. A conferir como as diferenças exorbitantes nas cotas de TV se encarregarão de demolir isso.

Segunda diáspora

O Palmeiras será apenas o segundo desses clubes a refazer a sua via-crúcis, repetindo o Grêmio, que disputou a Série B em 1992 (na qual fracassou, gerando um Brasileirão Frankenstein para o ano seguinte) e 2005. O Fluminense também foi rebaixado duas vezes, mas na primeira oportunidade o trataram como café com leite. Criou-se no Brasil uma ideia equivocada de cair para a Segundona seria o tratamento de choque ideal para clubes em crise. Como se alguém precisasse cair do abismo para aprender a tomar cuidado com ele. Esquecendo o fato de que, para cada pessoa que muda seu estilo de vida ao sofrer um infarto, existe uma (ou várias) que promete mudar tudo e vai bater no hospital de novo, com o coração em frangalhos.

Disputar a segunda divisão pode sim fazer um clube se livrar de alguns trastes e renovar os laços com o seu torcedor, ao menos aquele que não pulou fora diante das adversidades (eu nem tô olhando para você, Clóvis Rossi). Coisas que deveriam ser feitas sem precisar jogar fora toda uma temporada, como se fosse recomendável tirar anos sabáticos no futebol. Mas depois que um clube cai, o choro tem de ser breve. Carpideiras não resolvem a vida de ninguém. Não só há muito trabalho para fazer, como há toda uma situação para assimilar.

No caso do Palmeiras, que voltou a ser rebaixado exatos dez anos depois, o temor é que o clube se acostume com a situação, que as quedas virem uma rotina. Mas há também o lado positivo da coisa: a instituição já passou por trauma semelhante e ninguém que eu saiba morreu por conta disso. Por mais que a reação de um apaixonado seja encarar o rebaixamento como o sofrimento de um ente querido, o que gerou lindos textos de palmeirenses, como o do Mauro Beting, é preciso começar a tratar esse tipo de situação sob o ponto de vista estritamente esportivo.

Sei que falar de fora é fácil. Mas assim como a mãe de Forrest Gump o ensinou que morrer também faz parte da vida, é preciso que o rebaixado ouça (ou leia, no caso): o rebaixamento também faz parte do jogo.

“A nossa dor não sai nos jornais”

Enquanto a queda do Palmeiras gera tanta comoção, quase ninguém se importou com o rebaixamento do Atlético-GO ou do Figueirense, clubes tradicionais, que frequentaram a Série A nos últimos anos. Até pelo drama da decisão na última rodada e pela maior dimensão nacional dos envolvidos, mais gente acompanhará o drama de Sport, Portuguesa, Bahia, Náutico ou Coritiba, mas ainda assim, sem muito espaço na mídia. Absolutamente natural que o clube com uma das cinco maiores torcidas do país receba mais atenção em um momento de dor. O que chamo atenção aqui é para como o sentimento dos demais rebaixados será diferente.

Para o Palmeiras, ir à Série B é praticamente percorrer um atalho mais longo e empoeirado até a Série A de 2014 (onde já contará com um novo e moderno estádio, o que tem tudo para servir de empurrão para novos dias de glória, como aconteceu com a Juventus na Itália). Para qualquer um dos outros, pode significar longos anos de amargura e espera. Um clube como o Atlético Goianiense pode até nunca mais voltar à elite do futebol nacional. Santa Cruz, Juventude e Santo André caíram e, em poucos anos, foram parar na Série D. O Criciúma, que comemorou o acesso nesse mesmo fim de semana, precisou de oito anos para retornar.

Ao contrário de seus dirigentes, o Palmeiras merece todo o carinho de seus torcedores nesse momento difícil. Mas faço votos de que eles não tratem o clube como um defunto a ser velado, ou um paciente na UTI, que nunca mais será o mesmo. É recomendável que encarem a disputa da segunda divisão como um castigo merecido, mas com serenidade. Os mais atentos continuarão sentindo a falta de enfrentar São Paulo e Corinthians, claro, mas podem até saborear a graça de ir a Arapiraca ou Juazeiro de Norte e conhecer a realidade muito mais chata de quem tem de comemorar se não for rebaixado à Série C. E usá-la como aprendizado.

Sofrimento não aumenta ou diminui a paixão de ninguém, tampouco torna alguém uma pessoa mais ou menos competente. Mas forma caráter, a quem estiver disposto  a viver tal experiência sem desespero ou ostentando um inadequado nariz empinado.