Caio é um jogador diferente da maioria dos jogadores de futebol. Filho de uma família de classe média, Caio Decoussau nunca precisou jogar futebol para “colocar comida na mesa”. Ainda jovem, eleito melhor do mundo no Mundial Júnior e com convocações para a seleção principal, o jogador se transferiu do São Paulo para a Inter de Milão. De lá para cá, esteve algumas vezes no céu, como quando defendeu o Flamengo, em 1998 e 1999, e outras tantas no inferno, como na infeliz passagem pelo Grêmio, em 2003.

A Trivela conversou com Caio sobre tudo isso: diferenças entre o futebol europeu e o brasileiro, os técnicos, tanto lá como cá, a sensação de ter seu nome gritado pelo Maracanã e a frustração de ser deixado no banco quando poderia estar em campo.

Leia a seguir a conversa do jogador com a Trivela:

No ano passado, os bons momentos do Botafogo coincidem com a tua titularidade, você inclusive marcou o gol mais importante da equipe no ano, o que pôs o clube na Sul-Americana. Mesmo assim, você não foi titular absoluto o ano todo. O que aconteceu?
O Botafogo é meio complicado, um clube meio particular, um clube que é grande, tem uma torcida apaixonada, já disputou títulos, tem em sua história figuras como Garrincha, Nilton Santos, mas é um clube que afundou completamente e está se reerguendo, e a torcida não percebeu isso, acha que tem que ser campeão todo ano. É diferente de um São Paulo, de um Corinthians, que investem pra ser campeões. Eu cheguei em 2004, ajudei o time a sair do rebaixamento, então comecei o ano com moral. A gente fez um estadual bom, embora pudesse ter sido melhor, e aí, com a chegada do PC Gusmão, criou-se uma expectativa. Nós sabíamos que era um time mediano, para brigar pela Sul-Americana, enquanto a imprensa, de modo geral, dizia que era um time para brigar para não cair para a segunda divisão.

A gente deu muita ênfase na parte física, o PC de forma inteligente trabalhou muito a parte física, e falou: “Vamos fazer a diferença nas primeiras rodadas para a gente ter tranqüilidade e não passar pressão no final do campeonato.” Os clubes normalmente começam com uma preparação para “estourar” no final do campeonato. O Botafogo não, estourou no começo e depois é normal que tenha uma queda, senão começa a ter lesão muscular. O PC montou um esquema de contra-ataque, em que o time se defendia com onze e matava o jogo no contra-ataque, então até a 10ª rodada nós estávamos entre os primeiros do campeonato. Isso foi muito legal para todo mundo, só que um time que não é tecnicamente brilhante, que se destaca pelo esquema tático, e que joga muito fechado, sacrifica os dois atacantes, que naquele momento éramos eu e o Alex Alves.

Que acabaram não marcando…
Então, em dez rodadas a gente não tinha feito nenhum gol, quer dizer, eu não tinha feito nenhum gol e o Alex tinha feito cinco, mas todos de pênalti. Até quase a 20ª rodada do campeonato o Alex só tinha feito gol de pênalti. A gente ganhava os jogos com gols de falta do César Prates e de pênalti do Alex Alves. Quem entende de futebol, sabia que eu e o Alex estávamos “nos matando”, mas o time jogava com três volantes e segurava os laterais, ou seja, a gente ficava sobrecarregado. Criou-se com isso, por parte do torcedor, a sensação de que o time estava rendendo mas o ataque não fazia gol, o que não era verdade, tanto que eu e o Alex saímos do time e isso não mudou. Quando o PC saiu, eu acabei voltando ao time, que, não estou dizendo que por causa da minha entrada, voltou a vencer. Até porque o Celso Roth mudou o esquema de jogo e o time acabou bem o ano, em uma competição Sul-Americana, o que fazia pelo menos dez anos não acontecia para o Botafogo.

Sobre esses dois técnicos que você mencionou, o PC, tão festejado, e o Roth, tão criticado, como foi trabalhar com eles?
São duas pessoas diferentes: o PC é o Luxemburgo começando. Tem a vaidade dele, se preparou muito bem, ele tem um assistente que cuida só da edição de fitas e da parte de computador, a preleção dele tem a movimentação e o posicionamento do adversário no computador, é um cara para quem o Luxemburgo abriu as portas de todos os clubes grandes, então é um cara que vai estourar. Daqui a alguns anos você vai ver ele brigando por títulos em grandes clubes com certeza.

O Celso é um cara muito bacana, que tem um esquema tático muito bom, até às vezes um pouco defensivo, mas muito bom, e que já conseguiu muitos resultados. Só que ele foi tachado pela imprensa como retranqueiro, então, por exemplo, no primeiro jogo dele no Botafogo, a gente ganhou de 2 a 1, faltando cinco minutos ele tira um meia-ofensivo para pôr um volante, a torcida já pega no pé. Ele tem uma preocupação que você tem que ter no futebol atual, que é a de primeiro defender para depois atacar. De forma injusta ele paga a fama de ser retranqueiro, mas é um grande treinador.

Você jogou em grandes clubes do Brasil e da Europa. É muito diferente o trabalho dos técnicos ou no fundo isso é igual em todo lugar?
Não, não, é diferente, é bem diferente. Primeiro, acho que aqui no Brasil a gente evoluiu muito em relação à tática. Nunca se deu muita importância à tática, até por ser o brasileiro um jogador incomparável a qualquer outro, todo mundo achava que um drible, um improviso, ganharia o jogo, e hoje o futebol é 80% condicionamento físico. Você pega um cabeça-de-bagre que não saiba nem tocar na bola mas esteja muito bem condicionado, ele anula um craque. Então o futebol, além de ser um jogo coletivo, se você não tiver um esquema tático muito bem armado, você acaba sofrendo gols e perdendo jogos. Isso é uma mentalidade européia, principalmente italiana. Na Europa, como não há esse material humano que há no Brasil, se dá muita ênfase à tática. Então na Itália, por exemplo, onde eu joguei dois anos, primeiro o negócio é não tomar gol para depois fazer. Não é um negócio do profissional, vem das categorias de base, de que o melhor ataque é a defesa, então você vê que as defesas italianas são muito fortes, é um dos países que tem o maior número de zagueiros entre os principais do mundo. Com isso, eles pegam os estrangeiros do meio para frente: você pega o Milan tem Kaká, Shevcenko, o Barcelona tem Ronaldinho, o Real Madrid também tem Ronaldinho, esse jogadores que têm a técnica que o europeu não tem. Na Itália tem também um negócio que no Brasil não tem, que é um respeito pelos times grandes. Você vai disputar um Campeonato Italiano, você sabe que não vai fugir de Milan, Inter, Juve, talvez a Roma, você sabe que um desses vai ser o campeão. Talvez haja uma surpresa na Copa da Uefa mas mesmo as vagas da Champions League não saem muito disso, às vezes aparece uma Udinese, a Fiorentina, que está se reerguendo, mas não sai desse grupo.

Você viveu isso no Napoli?
Quando eu joguei no Napoli, foi o último bom ano da equipe, nós fomos vice-campeões da Coppa Itália e ficamos em sétimo ou oitavo no campeonato, e terminamos o primeiro turno a só dois pontos da Juve, que era líder, mas eu sentia muito isso do treinador. O time tinha eu, o André Cruz e o Beto, de brasileiros, o argentino Ayala, o francês Bogossian, um pessoal muito legal, mas quando jogávamos, por exemplo, contra a Inter fora de casa, ele tirava um atacante e jogava com quatro no meio e cinco atrás. E eu, que tinha jogado na Inter, pensava: “Mas por que ele tem tanto medo da Inter?”. No Brasil isso não existe. Jogo contra o Fortaleza é porrada, o time indo para cima, seja Flamengo, São Paulo, seja quem for. Então infelizmente para nós brasileiros, que eu acho que o futebol não pode ser essa retranca toda, na Europa existe essa preocupação com a defesa, com ganhar o jogo em uma bola parada. Eles posicionam muito bem o time e tentam não levar o gol. Como têm muita força física, tentam ganhar o jogo em uma bola parada, em um contra-ataque.

Como você compararia, por exemplo, o Simone, seu técnico no Napoli, com os técnicos brasileiros?
É que não adianta um Luxemburgo, por exemplo, que pegou um baita time do Real Madrid, um Bianchi, que ganhou tudo na América, não deu certo na Roma, foi para o Atlético de Madrid e também foi demitido, são mentalidades diferentes e o material humano é diferente. O esquema tático com que o jogador europeu está acostumado não pode mudar radicalmente de uma hora para outra porque o jogador sente. Então você pega um treinador brasileiro, e eu tive o prazer de trabalhar com um Luxemburgo, com um Telê, o grande diferencial é, ou em uma mexida, que a hora que apertava eles botavam o time para frente ou posicionava taticamente para marcar a saída de bola em cima, ou o lado motivador. Quando eu cheguei na Europa, na Inter, eu cheguei a dormir em uma palestra. Na véspera do jogo tem uma palestra, janta, assiste a fita do time contra o qual você vai jogar, aí no dia seguinte você acorda, faz uma caminhada, um treino rápido e aí tinha a preparação para o jogo. Quer dizer, eram três preleções, uma preocupação absurda em saber como joga o time adversário, a característica de cada jogador, você entra sabendo de cor e salteado o que o outro time vai fazer, mas você entra muito mecânico. Por exemplo, em uma partida, nosso volante tinha que pegar o Djorkaeff, mas o Djorkaeff jogou atrás. Eu dizia para ele, “deixa a zaga pegar o Djorkaeff e sobe um pouco para a gente ter mais um lá na frente”, mas eles não fazem isso. Isso, por outro lado, é muito legal, esse lado tático, mas tem que aliar à técnica. A hora que o brasileiro tiver consciência da importância dessa obediência tática, vai se tornar quase imbatível.

Falando da tua ida para a Itália, quando você saiu do Brasil, estava bem no São Paulo, tinha sido eleito o melhor jogador do Mundial Sub-20, esperava-se que você fosse “estourar”, o que acabou não acontecendo. O que aconteceu por lá?
O que me atrapalhou muito foi que, apesar de ter ido para lá como comunitário, sem precisar ocupar vaga de estrangeiro, isso só passou a valer na Itália na temporada seguinte. Quando eu cheguei, a Inter já tinha três estrangeiros: o Roberto Carlos, que ninguém ia tirar, o Zanetti, que foi até capitão do time, e o Paul Ince, um jogador indicado pelo treinador, que também era inglês. Ou seja, para eu jogar, precisaria sair um desses três. Eu fui para lá sabendo disso, que nos primeiros seis meses eu ia jogar muito pouco. A idéia era que eu fosse entrar no time mesmo no terceiro ano. Fui para lá com 19 anos, fui muito novo, também. Quer dizer, eu jogava na Coppa Itália, eu cheguei acho que nas oitavas-de-final, jogamos contra a Lazio, eliminamos a Lazio. Só que no jogo seguinte, que seria contra a Fiorentina, o técnico resolveu que ia colocar o time titular para jogar. Normalmente, na Europa, o time principal joga o campeonato e a copa é disputada por um time misto mas, naquele ano, a Inter resolveu priorizar a copa e colocar o time titular, e aí eu “dancei”.

E como você estava bem no Brasil, ficou mais difícil ainda.
Antes de sair do Brasil, vinha sendo convocado para a seleção de cima, joguei a Copa Ouro, na qual a gente foi vice-campeão jogando com a equipe olímpica contra o time principal do México, fomos campeões do pré-olímpico jogando contra um timaço da Argentina, com Ortega, Crespo, na Argentina, mas nos quatro meses que antecediam a Olimpíada eu estourei a cota de amistosos pela seleção e a Inter passou a não me liberar mais. O Hodgson tinha sido técnico da Suíça e tinha uma espécie de uma mágoa da época em que treinava uma seleção e os clubes não liberavam os jogadores. A gente sabia que, para a Olimpíada, com os três jogadores maiores de 30, o ataque seria Bebeto e Ronaldinho, e eu e o Sávio, que vínhamos jogando, seríamos reservas. Como eu não fui liberado para os amistosos, acabei ficando de fora da Olimpíada.

Quando eu passei a ser comunitário, chegou [na Inter] Zamorano, Djorkaeff, eu era moleque, no Brasil era titular do São Paulo, pensei: “não vou ficar ‘revezando’ na Inter se posso ser titular”. Foi quando apareceu o Napoli, que já tinha um histórico bom de sul-americanos com Careca, Maradona. Lá eu tive um ano e meio bons e, no fim do meu contrato, a Inter me ofereceu mais três anos de contrato, mas era quando já estava chegando o Ronaldinho. Aí eu cometi o maior erro da minha vida profissional. Porque o futebol italiano você precisa de um período de adaptação e, quando eu me adaptei, voltei. Acima de tudo porque eu tinha uma necessidade de jogar. Hoje, se tivesse a mesma situação, certamente eu teria ficado.

Você se aconselhou com alguém?
Antes de ir para a Europa, eu fui conversar com o Telê, e disse para ele: “Professor, tenho duas propostas da Itália, de clubes grandes, e uma da Holanda, queria te pedir um conselho”. E o Telê me disse: “Caio, se eu fosse você, ia para a Holanda. Você vai ter uma fase de adaptação e depois vai chegar na Itália com uma bagagem diferente. É lógico que, para a vaidade, é mais legal ir para a Inter mas, se você for para lá agora, você vai sofrer”. E eu, com 19 anos, pensei: “Vou jogar no PSV se posso jogar na Inter de Milão? Ganhar 10 se eu posso ganhar 100?”. E acabei indo para a Inter, e depois vi que ele tinha razão.

Aí você foi para o Santos e depois para o Flamengo.
No Santos, com o Luxemburgo, nós ficamos em terceiro no Brasileiro, perdemos para o Vasco que foi o campeão. No ano seguinte, já com o Leão, perdemos a semi-final do Rio-São Paulo nos pênaltis para o Botafogo, que acabou perdendo a final para o São Paulo. Aí fui emprestado para o Flamengo, e foi como no São Paulo: campeão carioca, campeão da Mercosul, ídolo da torcida, jogando do lado do Romário, foi uma volta aos bons tempos.

Na temporada 2003/4 você viveu outra experiência diferente, defendendo o Oberhausen, da segunda divisão da Alemanha. Como você foi parar lá?
Eu tive uma decepção muito grande no Grêmio, com diretoria e treinador. Foi um ano difícil, eu tive três lesões musculares e era o primeiro ano da Lei Pelé, pontos corridos, os times ainda não estavam preparados para isso e a gente deu ênfase à Libertadores. Perdemos nas quartas, por bobeira nossa, para o Independente de Medellín. Aí no meio do ano o Rodrigo fabri saiu, Luis Mário saiu, Anderson Polga saiu, perdemos uma série de jogadores importantes. Eu me machuquei, o Tinga se machucou, o Claudiomiro, o Anderson, o Roger, o clube despencou, quase caímos e tínhamos um timaço, para ser campeão, mas não deu certo. Só que eu me desgastei muito com relação a algumas coisas que eu não concordei, entrou um treinador que afastou alguns jogadores [o Grêmio no fim de 2003 foi comandado por Nestor Simionatto e depois por Adilson Batista]. Aí eu cansei de tanta sacanagem, de jogar jogador de empresário, o Grêmio precisava vender alguém então botava um monte de menino pra jogar, enfim, estava meio cansado.

Eu tinha vontade de voltar para a Europa. Fiquei esperando uma proposta legal, que não veio, até pelo ano difícil que a gente teve, e aí meu procurador me ligou com a proposta do Oberhausen. A equipe estava em segundo na segunda divisão no fim do primeiro turno e estava pela primeira vez em 30 anos de história. tendo a perspectiva de subir.

Por volta do fim de janeiro, não tinha nenhuma proposta firme de outros clubes e a proposta do Oberhausen, por quatro meses, do ponto de vista financeiro, era espetacular, coisa de um milhão de dólares se conseguisse subir. Aí eu pensei: “já perdi tempo demais me preocupando com o que os outros vão pensar, vou pensar em mim, morar na Alemanha, financeiramente não vou ter uma proposta tão boa e vou apostar em abrir as portas da Europa pra mim”. E fui.

E como foi lá?
Chegando lá, a estrutura do time, na Serie B, é como uma estrutura de Serie A no Brasil, centro de treinamento, três campos, estádio cheio, a Serie B passa para a Europa inteira. Só que eu sabia que, se não desse certo, ia manchar um pouco a minha imagem. O que aconteceu, quando eu cheguei lá, vencemos as três primeiras partidas, chegamos à liderança, abrimos sete pontos para o quarto colocado, quando subiriam três, a cidade em festa. Só que o treinador era um treinador jovem, que tinha sido jogador, e aí nós tomamos um cinco a um fora de casa e ele assustou. Na partida seguinte, ele recuou o time e me deixou sozinho na frente. Aí foi a besteira, ele ficou com medo de degringolar e degringolou. Acabamos ficando a um ponto de subir.

Sobre a estrutura dos clubes brasileiros, como você compara com a dos clubes europeus?
Em termos de estrutura, o São Paulo não deve nada a time nenhum do mundo. A estrutura que um São Paulo, que um Cruzeiro têm, não deve nada a um Bayern de Munique, a uma Inter. Tudo de ponta que tem na Europa tem no CT do São Paulo. A única diferença é que lá é mais luxuoso. O chão é de mármore, os quartos todos têm TVs enormes, o banheiro, essas coisas. E o clima. Por exemplo, na Inter tem um campo coberto, climatizado, coisas que no Brasil são desnecessárias.

Esses clubes que eu citei no Brasil não ficam atrás mas um Botafogo, um Flamengo, comparados a um time B da Série B da Alemanha, estão anos-luz atrás. As categorias de base estão largadas, não tem campo próprio. Isso é um diferencial muito grande, que o Atlético-PR tem usado muito bem. Os clubes do Rio vão jogar no Maracanã, é campo neutro. Por que o Botafogo fez uma campanha voa no ano passado: porque a gente jogou na Arena da ilha, que tem um campo muito ruim, os outros times iam jogar lá e não conseguiam trocar passes, e a gente já estava acostumado.

E sobre a paixão futebolística? Na Europa, muitos clubes de terceira divisão têm médias maiores que os da primeira divisão brasileira.
A diferença principal é a organização, começando pelo calendário. O ideal é jogar o campeonato no final de semana e deixar as copas para o meio de semana. Mas o grande diferencial em termos de público, eu acho, é a organização. Lá, antes de começar a temporada, você vende o carnê, você já sabe que tem um público garantido. Se eu quiser comprar aqui no Brasil o carnê, eu já sei que em, vamos dizer, 27 de setembro, tem Inter e Milan e eu quero ir. Aqui no Brasil, na quinta-feira você não sabe se o jogo vai ser no domingo ou no sábado, em que horário, se o Maracanã vai ser liberado ou não. Isso, aliado à violência, torcida organizada, isso afasta o torcedor. Te, uma outra coisa: você vai no Estádio na Europa, tem uma loja com camisa, cachecol, tudo do próprio time. Os caras fazem dinheiro com isso.

Entre os jogadores com quem você jogou, qual foi o atacante que mais te impressionou?
Dois caras, um que era meu ídolo desde pequeno, o Muller, e o Romário, dois caras totalmente acima da média, top, sem comparação em termos de inteligência e habilidade.

E entre os marcadores, qual foi o mais difícil que você enfrentou?
O Antonio Carlos, na época de Palmeiras, e o Ricardo Rocha, que joguei contra e a favor, eram espetaculares.

Cite um jogador com quem você atuou que não foi tão longe quanto poderia ter ido?
O São Paulo, nas categorias de base, tem muita gente boa que acaba não vingando. Rubão, Regis, que era um grande atacante, Tubaína, um lateral-esquerdo fora do normal, Zaia, um goleiro fora-de-série.

E por que você acha que eles não chegaram lá?
Me considero um cara paciente, mas para ser bem-sucedido no futebol tive que ter uma paciência fora do normal, uma força interna fora do normal. Além disso, muitos desses caras acabam se envolvendo com assalto, droga, a molecada tinha que sustentar casa e um jogador dos juniores ganha 200, 300 reais. O cara anda com alguma companhia errada, acaba sendo preso ou pego com droga, aí o clube não quer mais…

Você acha que os empresários contribuem para afundar algumas carreiras?
Sem dúvida. Tem muito empresário que rouba o próprio jogador. Tem n exemplos de jogadores famosíssimos que se deram mal. Hoje os jogadores estão mais conscientes, mas eu mesmo deixei de fechar um contrato por causa disso. O empresário me perguntou: quanto você quer para ir para a Turquia? Eu dizia um valor e o cara falava em um valor 50% maior para o clube, que perdia o interesse.

Mas acho que a influência mais perigosa é de influenciar a brigar com o clube pra ele, empresário, ganhar dinheiro e às vezes não é o melhor pra o jogador.

Você acha que é visto com preconceito por ter uma origem social diferente, quer dizer, por, em tese, não precisar do futebol?
Tenho sentido mais dificuldade de uns dois anos pra cá. Quando eu comecei, peguei seleção em todas as categorias, as pessoas não contestavam, mas muita gente apostava que eu desistiria na primeira dificuldade. Transformei isso em estimulo. Agora, os cars pensam: “o Caio não precisa mais do futebol, não vai ter a mesma gana”, que eu ainda tenho. Quem trabalhou comigo sabe, nunca faltei em treino, fiz corpo mole. Mas o clube pensa: “será que ele ainda tá afim?”