Desbravar o mundo não é uma novidade deste século aos jogadores brasileiros. O talento se espalha além das fronteiras há décadas, e em direção aos mais diferentes cantos do planeta. O Mundial de Clubes, entretanto, se tornou uma excelente oportunidade desde 2005. Se antes muitos destruíam nas competições continentais e mal eram noticiados por aqui, o torneio da Fifa oferece uma chance maior de reiterar a qualidade. Caio é um desses ilustres desconhecidos que ganham o merecido reconhecimento através do certame. O paulista sequer atuou profissionalmente no Brasil e constrói sua carreira na Ásia desde a adolescência. Agora, o sucesso do Al Ain no Mundial serve de vitrine. Aos 24 anos, o ponta vira uma das sensações no surpreendente finalista.

VEJA TAMBÉM: River Plate deu sopa demais ao azar e, nos pênaltis, o Al Ain está na final

 

Nascido em Araçatuba, Caio começou treinando em uma escolinha local, até ser pinçado pelo São Paulo aos 11 anos. Ficou até os 16 na base tricolor, quando sua vida se transformou. Se a mudança à capital já havia representado uma grande coragem do garoto, ele acabaria voando mais alto: passou em um teste para estudar em um colégio japonês na cidade de Chiba, como contou em 2014 o ótimo blog Futebol no Japão. Faria a sua formação acadêmica por lá, também com a oportunidade de jogar futebol nos campeonatos estudantis do país. O adolescente deixou a família e encarou as dificuldades de quem sequer falava japonês, se empenhando para aprender o idioma. O seu talento, ao menos, não demorou a gritar mais alto. Destaque nos torneios colegiais, atraiu o interesse do Kashima Antlers e assinou com o clube em janeiro de 2014, aos 19 anos.

Por sua própria trajetória, era de se esperar que Caio não emplacasse de imediato no Kashima Antlers. Não foi o que aconteceu. O novato logo começou a ganhar chances na equipe principal, ajudado pelo técnico Toninho Cerezo. Estreou em março e logo se encaixou no time, utilizado em diferentes posições no setor ofensivo – como ponta pelos dois lados, como meia central ou como segundo atacante. Disputou 30 das 34 rodadas da J-League, 25 como titular. Anotou oito gols e deu cinco assistências. Ao final da temporada, ganhou o prêmio de revelação do campeonato. Só o início de seu sucesso no continente asiático.

Caio faria mais em 2015. Foram 11 gols e seis assistências na J-League, faturando ainda a Copa da Liga – com direito a gol na final. Já em 2016, o jovem era uma das referências na excelente campanha do Kashima Antlers na J-League. Somou cinco gols e três assistências em 16 partidas, com o time fechando o primeiro turno na liderança. Só que, naquele momento, o talento do ponta repercutia muito além da ilha. Em julho de 2016, o Al Ain colocou €3 milhões na mesa dos japoneses. O brasileiro de 22 anos se transformou na maior venda da história do clube e arrumou as malas para os Emirados Árabes Unidos. De longe, viu os antigos companheiros conquistarem o Campeonato Japonês, batendo o Urawa Red Diamonds nas finais. Além disso, pôde torcer por eles na epopeia do Mundial de Clubes de 2016, quando mereciam ter derrotado o Real Madrid na decisão.

Talvez o arrependimento tenha abatido Caio por aquilo que não viveu no Kashima Antlers. Mas o jovem atacante continuou gastando a bola no novo clube. Em seu primeiro ano com o Al Ain, acumulou 12 gols e 12 assistências no Campeonato Emiratense. Já na temporada passada, não conseguiu ser tão destrutivo, mas desfrutaria o sucesso. Com cinco gols e 11 assistências, liderou os violetas na conquista da liga. Foram quatro gols e seis assistências apenas nas últimas oito rodadas, permitindo que o time erguesse a taça. Além do título, veria o mundo dar voltas: com o Mundial de Clubes realizado em Abu Dhabi, o Al Ain poderia disputar a competição como representante do país-sede. Com dois anos de atraso, o brasileiro estaria na competição.

Caio já tinha sido importante na difícil reação contra o Team Wellington, na abertura do Mundial. Em meio à pressão imposta pelo Al Ain, deu a assistência para um dos gols e, na disputa por pênaltis, converteu a cobrança decisiva. Três dias depois, arrebentaria contra o Espérance. Sua velocidade foi um tormento aos tunisianos, como bem se viu no terceiro gol, em que fez uma jogadaça antes de oferecer mais uma assistência. E no sonho contra o River Plate, Caio fez sua melhor atuação. O ápice aconteceu no segundo gol dos emiratenses, no segundo tempo, graças a uma jogadaça do camisa 7. Passou em velocidade pelas costas da defesa, fintou a marcação e bateu no contrapé de Franco Armani.

A grande partida de Caio na semifinal, contudo, não se resume apenas ao lance decisivo. O ponta esquerda incomodou bastante a defesa argentina, com sua rapidez e sua qualidade para conduzir a bola. Driblador, chegou a aplicar uma caneta em Enzo Pérez. Também era o homem das bolas paradas e não se conteve na hora de arriscar a gol – apesar da falta de pontaria. Mas não foram os erros que impediram a torcida de gritar, perceptivelmente, o seu nome durante na prorrogação. Em mais uma disputa de pênaltis, coube desta vez ao brasileiro abrir a contagem, na vitória que colocou o Al Ain na decisão. O camisa 7 é claramente o diferencial técnico dos violetas e faz isso valer demais na campanha. Combina habilidade, inteligência e velocidade, preponderante pela maneira como cria jogadas e aparece para definir.

O futuro de Caio pode ter muitos caminhos – inclusive na seleção, considerando que já foi sondado para defender os japoneses anteriormente. Observado por clubes europeus, seus empresários conversaram com representantes do Porto neste ano. O Mundial de Clubes, de qualquer forma, aumenta a visibilidade e pode acelerar a sua saída. Mas antes de pensar no próximo passo, há uma final para se disputar. Uma decisão certamente marcante, seja pela chance contra o Real Madrid ou pelo possível reencontro com o Kashima Antlers. Certo é que, independentemente do desfecho, o torneio da Fifa impulsionou o brasileiro. Agora ele é mais idolatrado em seu clube, mais conhecido pelos compatriotas, mais cotado para escrever uma história grandiosa no futebol – mesmo traçando um caminho pouco usual até o momento.


Os comentários estão desativados.