Texto publicado originalmente em março de 2017

O Vale do Ruhr possui uma importância imensa ao desenvolvimento histórico da Alemanha. A Revolução Industrial fincou bases no local durante o início do Século XIX. A partir das fábricas estabelecidas às margens do Rio Ruhr, em área rica também para a exploração de carvão mineral, a Confederação Germânica prosperou. A região acompanhou as transformações da nação e absorveu uma enorme massa de migrantes, sobretudo vindos do leste, como poloneses e prussianos. E o território mais populoso do país guarda o coração do futebol nacional. A Renânia do Norte-Vestfália sedia sete clubes da Bundesliga 2019/20. Abriga aquele que é considerado por muitos o clássico germânico mais ferrenho e apaixonado, e que terá mais uma edição neste sábado: Borussia Dortmund e Schalke 04.

A proximidade das cidades de Dortmund e Gelsenkirchen, separadas por cerca de 30 quilômetros, torna a rivalidade fácil de se compreender. Contudo, a animosidade entre aurinegros e azuis reais não foi imediata. O primeiro confronto aconteceu em 1925. Mas naquelas primeiras décadas, o domínio do Schalke era gritante, maior potência nacional. Não à toa, o primeiro duelo pelo Campeonato Alemão só ocorreu nos anos 1930, e com a interferência de um personagem em comum: Ernst Kuzorra, considerado um dos maiores craques alemães da época, chegou a trabalhar como técnico interino do Dortmund enquanto era capitão do Schalke. Havia um sentimento de gratidão dos aurinegros, pelo ídolo que se disponibilizou a ajudá-los. Em partes, havia até uma amizade.

Após a Segunda Guerra Mundial é que o cenário começa a mudar. O Schalke ainda era uma força, mas longe da hegemonia vivida até o início da década de 1940. Enquanto isso, o Dortmund ganhou relevância e passou a disputar os títulos nacionais. Neste momento, de qualquer maneira, as principais rivalidades eram outras: os aurinegros viam o Colônia como seu principal inimigo, assim como o ranço dos azuis reais era contra o Rot-Weiss Essen. O cenário se transformou de vez apenas nos anos 1960. Tempos tumultuados no Vale do Ruhr.

A região foi atingida em cheio pela recessão. Dezenas de milhares de trabalhadores foram demitidos das minas de carvão de Gelsenkirchen. Já em Dortmund, era a indústria do aço que sofria as consequências. No futebol, ao menos o Borussia Dortmund conseguia se manter nas cabeças. O clube vivia um dos melhores momentos de sua história, conquistando inclusive a Recopa Europeia de 1966, naquele que foi o primeiro título continental de um time alemão. Época em que o domínio no confronto direto era estridente: após vencer o primeiro duelo válido pela recém-estabelecida Bundesliga, o Schalke sofreu oito derrotas consecutivas. E o pior não era necessariamente a sequência, com direito a cinco goleadas aurinegras (incluindo um 7 a 0 e dois 6 a 2) pelo caminho.

A reviravolta do Schalke só aconteceu a partir da derrocada do Dortmund, afetado pela crise econômica. Os azuis reais quebraram o jejum em abril de 1968. Golearam no embate seguinte, por 4 a 1, e alcançaram o terceiro triunfo consecutivo meses depois. Até o jogo que, enfim, fez o dérbi eclodir, em 6 de setembro de 1969. Em tempos de desesperança e de desemprego, o futebol servia de alento. Era uma válvula de escape à população, para extravasar as emoções, mesmo que os times não viessem tão bem. E este descarrego de energias ficou bem claro no Estádio Rote Erde, casa dos aurinegros na época.

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Os números oficiais dizem que 39 mil pessoas encheram as arquibancadas, com capacidade para 42 mil espectadores. As imagens, porém, deixam claro que o número de presentes no local era muito maior do que isso. A estimativa aponta para 50 mil, com centenas destes se amontoando na pista de atletismo ao redor do campo e nas próprias laterais. Um caos relativamente organizado, diante da predisposição de todos em assistir ao jogo. Queriam saber se, enfim, o Dortmund quebraria a série negativa contra o Schalke.

Todavia, a paz voou pelos ares aos 37 minutos do primeiro tempo. Neste instante, Hans Pirkner balançou as redes e abriu o placar para o Schalke. Nada pôde conter os seus torcedores, que invadiram o gramado para comemorar com o atacante. O problema veio com a reação dos seguranças que tentavam inutilmente manter a ordem. Irracionalmente, eles partiram para cima dos azuis reais com seus cães. E os animais miraram os calções brancos. O defensor Friedel Rausch foi abocanhado no traseiro por um pastor alemão, enquanto o meio-campista Gerd Neuser também recebeu uma mordida na perna. “De repente, meu calção estava ensopado de sangue. O choque e a dor eram grandes. Eu tive que dormir debruço por duas noites seguidas. A cicatriz tem seis centímetros, permanece visível até hoje. Um presente para sempre”, relembra Rausch.

Apesar do incidente, a dupla permaneceu em campo. Rausch tomou uma injeção antitetânica nos vestiários e jogou os 90 minutos. Neuser só saiu aos 30 do segundo tempo, ao sentir uma paralisia na perna por conta da dor. Entretanto, o Schalke acabou cedendo o empate na etapa complementar, com Werner Weist decretando o 1 a 1 no placar. E aquela confusão toda que se deu em Rote Erde se tornou fundamental para impulsionar a rixa entre os vizinhos. Para que aurinegros e azuis reais, enfim, se tornassem rivais.

O presidente do Dortmund ofereceu flores e uma compensação em dinheiro aos dois jogadores mordidos, mas a confusão não parou por aí. O reencontro dos times em Gelsenkirchen, pelo segundo turno da Bundesliga, contou com a resposta do mandatário do Schalke. Se os cães rondavam o gramado em Rote Erde, ele levou filhotes de leões para Glückaufkampfbahn, o antigo estádio do clube. Os animais selvagens foram alugados junto a um zoológico e permaneceram por perto enquanto a bola rolava. Segundo Werner Weist, por mais que fosse uma ironia, os jogadores visitantes ficaram desconfortáveis e intimidados com a situação. No fim das contas, o marcador terminou com outro empate por 1 a 1.

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O pandemônio em Rote Erde acabou sendo determinante para que os estádios alemães contassem obrigatoriamente com alambrados a partir dos anos seguintes. Além disso, aqueles jogos estiveram entre os últimos nas antigas casas de Dortmund e Schalke. Em 1972, os aurinegros foram rebaixados na Bundesliga. Quando o clássico voltou a acontecer, em 1975/76, passou a lotar os recém-inaugurados Parkstadion e Westfalenstadion. A rivalidade, inclusive, influenciou o nascimento da Muralha Amarela: os azuis reais ocuparam a tribuna norte do seu estádio, aberto primeiro; em oposição, os aurinegros preferiram se instalar na ala sul, a hoje célebre Südtribune.

Desde então, o clássico ganhou maiores proporções, seja pela paixão nas arquibancadas ou pelas brigas que se tornaram frequentes. Em campo, os times compensaram com episódios inesquecíveis, principalmente a partir dos anos 1990, com o renascimento de ambos como potências continentais. Do gol de Jens Lehmann à explosão de Ebi Smolarek ao negar o título da Bundesliga aos rivais, são várias histórias. Que podem ganhar um novo capítulo neste sábado, num duelo que o mundo todo irá ver.