A convocação de Lucas Torreira se tornou uma das grandes questões à seleção uruguaia às vésperas da Copa do Mundo. Diferentemente de outros jovens em ação pela Celeste, ele não passou pelas categorias de base da equipe nacional. Sequer atuou profissionalmente pelos clubes do país, deixando o Montevideo Wanderers aos 18 anos, rumo ao Pescara. Ainda assim, seu desempenho com a camisa da Sampdoria nas últimas duas temporadas fez o novato pedir passagem. E, testado a partir de março, virou uma das novidades na lista final do Maestro Tabárez rumo ao Mundial. Novidade que também agrada no Grupo A. Mesmo com poucas aparições pelos charruas, o jovem virou uma útil alternativa para mudar o jogo da equipe. Terminou o passeio contra a Rússia como um dos melhores em campo, pela maneira como ajudou a comandar o meio.

Torreira foge bastante das características que se espera de um volante uruguaio. O camisa 14 se aproxima mais da ideia de “regista” que existe no futebol italiano: o armador que atua à frente da defesa, sem tanta capacidade física, mas com enorme qualidade técnica. É o que fazia, guardadas as devidas proporções, Andrea Pirlo. E em uma Celeste que busca variações, venceu as possíveis disputas por um lugar na convocação derradeira. Nada dos rodados Egídio Arévalo Ríos e Álvaro González. O novato ainda superou a concorrência Federico Valverde, outro meio-campista promissor que fez sucesso nas Eliminatórias, mas não viveu uma boa temporada com o Deportivo de La Coruña.

Reserva nos amistosos contra República Tcheca e Gales em março, Torreira ganhou mais alguns minutos ante o Uzbequistão, na despedida da torcida no Centenario. Fez sua estreia na Copa do Mundo já diante do Egito, mas participando apenas dos minutos finais na sofrida vitória garantida por José María Giménez. E no confronto com a Arábia Saudita, ganhou meia hora em campo, no lugar de Matías Vecino, ajudando os charruas a administrarem o resultado com competência. Então, a grande oportunidade surgiu contra a Rússia. Tabárez preferiu mudar a formação em seu meio-campo, desta vez num 4-3-1-2. Torreira seria a escolha perfeita para ser este vértice defensivo e distribuir os passes rumo ao ataque.

A vantagem numérica do Uruguai durante a maior parte do jogo auxiliou a equipe a manter maior posse de bola. E a incursão de Torreira valeu bastante nisso, mantendo a qualidade e acelerando a saída de bola. A Celeste demorou a acertar um pouco mais o seu encaixe, mas fluiu a partir dos dois primeiros gols. O camisa 14 cresceu neste sentido, melhorando bastante os seus serviços a partir da meia hora inicial. Se a Celeste controlou tanto o resultado, há méritos no jovem de 22 anos. Sofreu um pouco mais pelo alto, diante de sua baixa estatura, mas ajudou a anular o ataque russo pelo chão. Ao lado de Diego Laxalt e Nahitan Nández, terminou como uma boa notícia aos torcedores. Se Maestro Tabárez quiser ajustar seu jogo, há peças.

Torreira, além do mais, mostra um outro caminho ao futebol uruguaio. O trabalho nas seleções de base é bastante funcional para lapidar os talentos e adaptá-los ao “processo” de Tabárez. Porém, o garoto de Fray Bentos, uma cidadezinha de 23 mil habitantes, conseguiu triunfar ao se arriscar rumo à Europa. Agora, se torna um diferencial à Celeste. Já garante seu moral durante a Copa do Mundo e demonstra que tem bola para participar de outros ciclos mundialistas com os charruas. Ao que tudo indica, este é só o começo. Um começo que tende a ter o Arsenal como próximo capítulo, em negociações avançadas com a Sampdoria. As aparições na Rússia referendam a aposta.