Impressiona a maneira como, em poucos meses, o Palmeiras conseguiu se transformar sob as ordens de Felipão. Uma das marcas neste início de trabalho, tão breve e já consistente, é a solidez exibida pelos alviverdes sem a bola. Cada peça tem o seu devido encaixe no sistema e sobram poucos espaços para os adversários atacarem. Talvez a maior virtude na boa sequência de resultados da equipe, que fez a diferença nesta quinta-feira de Libertadores, na qual os palestrinos largam em excelente vantagem contra o Colo-Colo. A postura do time na marcação garantiu uma atuação segura, mesmo que os chilenos incomodassem em parte do tempo. Os palmeirenses foram melhores e, além da competência, criaram mais ocasiões no ataque. Duas delas foram suficientes para determinar a vitória por 2 a 0 no Estádio Monumental David Arellano, com um gol precoce para abrir o caminho e outro no segundo tempo para servir de golpe fatal. Ótimo placar a um time que cresce, justificando o investimento que faz, e que cada vez mais se coloca como favorito aos diferentes títulos que disputa.

A atitude inicial do Palmeiras acabou se tornando preponderante. Mesmo fora de casa, os paulistas partiram para resolver a situação logo cedo. Posicionaram-se no campo de ataque, tentaram controlar mais a bola e, antes dos três minutos, já comemoravam o primeiro gol. Jogada na qual os alviverdes se valeram da sua organização e da sua persistência. A boa trama que começou em uma cobrança de lateral teve um contratempo quando Paredes interceptou a bola. Então, Borja foi importante para forçá-lo a errar o passe. Na sequência do lance, méritos à visão de Moisés, que não se precipitou a espetar o cruzamento e, controlando o relógio, teve a percepção exata de Bruno Henrique se aproximando na área. Bola no capitão, que acertou um chute fulminante para estufar as redes de Orion.

A calma era chave para o Palmeiras. O time sabia o que fazer com a bola e não tinha problemas para controlar o jogo, mesmo que não criasse novas ocasiões de gol, mais recuado. O Colo-Colo só passou a atacar mais a partir dos 15 minutos, tendo Valdívia como o seu termômetro. O camisa 10 voltava para buscar o jogo e organizar o time, com bons passes e dribles, mas tinha dificuldades para atravessar a linha de marcação palestrina, com grande trabalho feito por Bruno Henrique e Thiago Santos na intermediária. Aos poucos, os chilenos passaram a ter mais posse, buscando principalmente o jogo pela ala direita. Contudo, a firmeza do time de Felipão tornava as tentativas dos anfitriões inefetivas.

O Colo-Colo se limitava a cruzar a bola na área, mas Antônio Carlos e Edu Dracena não tinham problemas para afastar o perigo. Além disso, sobrava campo para o Palmeiras buscar os contra-ataques. Se Borja não funcionava, o apoio e a mobilidade de Dudu eram fundamentais. Seria ele o próximo a arriscar, aos 24 minutos, em bola rasteira que Orion defendeu. O Cacique até responderia em um chute prensado pouco depois, raro desleixo dos alviverdes dentro da área, mas logo seria a vez de Moisés forçar mais uma intervenção do goleiro adversário. E Dudu teria mais uma oportunidade, quando a bola chegou livre para ele arrematar na entrada da área, mas exagerou na força e mandou para fora. Os respiros dos colocolinos estavam nas faltas cometidas pelos palmeirenses, que se transformavam em cruzamentos. Numa dessas, Weverton precisou fazer sua primeira defesa difícil no primeiro tempo, já às portas do intervalo. Paredes cobrou fechado, o goleiro se esticou para espalmar e Barroso isolou na sobra.

O Colo-Colo voltou melhor para o segundo tempo. Conseguia se impor no campo de ataque e tinha em Valdívia o maestro para conduzir o jogo, se aproveitando também das escapadas de Paredes. Em uma investida do veterano, Carmona deu um chute perigoso, que assustou Weverton. Logo na sequência, nova chance dos chilenos. Valdívia bateu da entrada da área e a bola desviou em Mayke. Quando tentava mudar o movimento, Weverton escorregou, mas ainda assim fez a defesa. O lance gerou uma revisão do VAR, já que a bola bateu no braço do lateral palmeirense. A arbitragem avaliou como jogada normal e mandou a partida seguir, com a cobrança de escanteio posterior não dando em nada.

O Palmeiras também não se ajudava, é verdade. Como já havia acontecido em certos momentos do primeiro tempo, o time tinha dificuldades para deixar a bola no pé, diante do posicionamento do Colo-Colo. Abusava dos chutões, mas a bola não parava em Borja, com os chilenos recuperando a posse e seguindo a pressão. Assim, Felipão não demoraria a fazer sua primeira substituição, tirando o colombiano para a entrada de Jean, o que ajudou a preencher a segunda linha de marcação e deu mais liberdade para Dudu e Willian atacarem. Uma escolha sábia do comandante, que determinou o placar, por mais que o centroavante tenha saído insatisfeito.

Naquele momento, o Colo-Colo parecia mais pronto para marcar o gol. Lucas Barrios quase fez isso aos 23, em cobrança de falta de Baeza que ele completou de cabeça e tirou tinta da trave, diante de um Weverton imóvel. Susto que acordou os alviverdes. Todavia, o Palmeiras tinha espaço para os contra-ataques e suas oportunidades também surgiam. Willian foi o primeiro a aparecer, mas não conseguiu concluir a jogada. Aos 27, após lançamento longo da defesa e um desvio errado do zagueiro adversário, Dudu ficou no mano a mano com Orion, só que perdeu a passada e tentou tocar para trás, sem sucesso. Além disso, Felipão queimaria a sua segunda substituição para mudar o sistema. Botou Gustavo Gómez no lugar de Thiago Santos. A zaga passava a atuar com três homens, com os laterais mais abertos para espelhar a formação dos colocolinos. Já no meio, Moisés recuava um pouco mais, aproveitando a vitalidade de Jean e Bruno Henrique para o combate.

O segundo gol se tornou questão de tempo e, aos 32 minutos, aconteceu. Willian arrancou em contra-ataque e fez o trabalho praticamente sozinho, ao cortar para o meio e chutar, exigindo ótima defesa de Orion, em bola que ainda resvalou na trave. Entretanto, Dudu estava totalmente livre na área e, mesmo demorando um pouco mais que o necessário para definir, conseguiu estufar as redes, em chute que triscou na ponta dos dedos do goleiro adversário. A mobilidade de ambos valeu demais. Na comemoração, o atacante saiu correndo e abraçou Felipão no banco.

A partir de então, caberia ao Palmeiras manter a sua firmeza na defesa. Um lance emblemático, aliás, aconteceu na linha de fundo. Valdívia já sentia o cansaço pesar sobre as pernas e não era tão efetivo. Recebeu a bola na área e, na tentativa de encontrar um espaço, viu Moisés se agigantar para dar o bote certeiro, desviando para escanteio. Camisa 10 contra camisa 10, demonstravam bem como o conceito mudou entre os alviverdes. Há uma magia natural no antigo ídolo palestrino. O atual, em contrapartida, possui mais qualidades, seja na combatividade, na inteligência para organizar o time e na maneira como preenche o meio-campo. Moisés é acima da média, e fez uma partidaça em Santiago, comandando o time na reta final do segundo tempo.

Ao final, o Colo-Colo só assustaria em nova bola alçada na área, que Insaurralde ficou a centímetros de desviar, com total liberdade. Os paulistas gastavam o tempo e prendiam a bola no campo de ataque. Numa dessas, Mayke recebeu falta dura de Damián Pérez e, depois de muito tempo de consulta ao VAR, o árbitro resolveu mostrar o vermelho direto pela solada do defensor. Mais uma vez, a letargia e a maneira rigorosa como a tecnologia foi aplicada deixa margem ao questionamento, mas sem influência no placar, com o apito final soando pouco depois.

A vitória mantém o aproveitamento absurdo do Palmeiras como visitante nesta Libertadores, acumulando apenas vitórias. No entanto, se há uma lição que o confronto com o Cerro Porteño deixou é que um pouco mais de cautela acaba sendo necessária. De qualquer forma, a vaga nas semifinais só escapa com uma hecatombe. Os alviverdes podem se planejar mais tranquilos para a sequência do calendário, com o Brasileirão ressurgindo como um desejo e a Copa do Brasil em suas últimas definições. A profundidade do elenco é algo essencial aos palestrinos. E é ainda mais a consistência que se repete, como se viu nesta noite no Chile. Mantendo a solidez e aproveitando os momentos, os palmeirenses dão um passo firme na competição continental.


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