A Inglaterra tem duas tragédias que definiram o futuro do seu futebol. A morte de 39 pessoas na final da Copa das Campeões de 1985, na Bélgica, foi o mais lamentável produto final da violência dos hooligans ingleses – naquele caso, da torcida do Liverpool. Hillsborough cobrou 96 vidas de apaixonados pelos Reds na semifinal da Copa da Inglaterra, quatro anos depois. Mas muitos anos antes dos famosos desastres da década de oitenta, dezenas de súditos da Rainha haviam perdido as suas vidas enquanto 22 homens corriam atrás de uma bola, no que muitos consideram ser a tragédia esquecida do futebol inglês.

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Em 9 de março de 1946, há exatos 70 anos, o Bolton recebeu o Stoke City no Burnden Park, para o jogo de volta das quartas de final da Copa da Inglaterra, depois de vencer a primeira perna por 2 a 0. A expectativa pelo jogo era gigantesca. A FA Cup daquele ano foi o primeiro torneio realizado em solo britânico depois da Segunda Guerra Mundial (a temporada da Football League começaria apenas após o verão europeu). As torcidas estavam sedentas por futebol. Em campo, com a camisa do Stoke, estaria Stanley Matthews, que já inspirava idolatria e tinha contornos de lenda.

Estimadas 85 mil pessoas foram assistir a essa partida, em um estádio que comportava no máximo 65 mil – o recorde de público havia sido 69.912, em 1933 – e 33 nunca voltaram para casa. Ainda houve 400 feridos no primeiro desastre do qual se tem registro no futebol inglês. Embora, em 1902, 26 pessoas tenham morrido quando uma arquibancada desabou no Ibrox Park, de Glasgow, na Escócia, durante um jogo de seleções entre o time da casa e a Inglaterra.

O Burnden Park ainda não estava totalmente liberado pelo Ministério do Abastecimento, que usou o estádio como estoque durante a Segunda Guerra. Uma arquibancada para três mil pessoas estava interditada e não havia catracas suficientes. Não havia nenhuma, na verdade, em um dos lados do Embankment, setor onde ocorreu a tragédia, o que aumentou o número de pessoas que tentavam entrar pelo outro lado.

Os portões foram fechados a 20 minutos do pontapé inicial, mas muitos torcedores ainda tentavam entrar no estádio – e conseguiam. Em certo momento, o cadeado que trancava o portão foi retirado e o número de retardatários, a partir de agora, seria contado na casa dos milhares. Há duas versões distintas sobre o que aconteceu com o cadeado. Alguns dizem que os próprios torcedores o quebraram, nas suas tentativas virulentas de assistirem à partida, e outros alegam que um pai, desesperado com o excesso de pessoas na arquibancada, forçou a abertura do portão para fugir do esmagamento com o seu filho.

O público já começava a sair pelo ladrão quando os times subiram a campo. Dúzias caiam das arquibancadas para dentro do gramado. Mulheres e crianças eram erguidos pela multidão e transferidos para um lugar mais seguro. Não eram cenas incomuns naquela época, mas se tornaram raras quando duas barreiras de metal cederam à pressão que a arquibancada sobrecarregada estava exercendo. Foi como se um carrinho de montanha-russa começasse a descer em rápida velocidade depois de atingir o ápice do trajeto. Mas a linha de chegada era o chão. A multidão caiu em cima da multidão, invadiu o gramado e matou 33 pessoas.

A partida foi interrompida durante meia-hora para avaliação dos danos, o tratamento dos médicos aos feridos e a contagem dos corpos. Sim, apenas por meia-hora. Uma nova linha lateral foi desenhada no gramado com serragem e o jogo seguiu em frente, com uma paisagem mórbida e grotesca composta por corpos estendidos no chão e cobertos por lonas no espaço entre as arquibancadas e o campo de jogo.

A decisão foi tomada pela polícia e pelo árbitro, que consideraram ser impossível comunicar ao resto do público o que havia acontecido. A evacuação do estádio sem explicar para todo mundo porque eles não poderiam mais ver Stanley Matthews, o Stoke City, o Bolton e a Copa da Inglaterra naquela tarde, apesar de terem pagado ingresso, seria mais perigoso do que terminar a partida. “Era o final da guerra e muitas pessoas…, imune é a palavra errada, mas morte era algo que acontecia para muitas famílias e para muitas pessoas, não apenas no exterior, mas nos seus próprios quintais” afirma Simon Marland, historiador do Bolton, ao The Guardian. “Provavelmente 80% dos presentes no estádio pensaram que aquelas pessoas tinham apenas desmaiado”.

Os jogadores sabiam que algo havia acontecido, mas não tinham a noção exata do número de mortos e machucados. Continuaram chutando bola de um lado para o outro. Quando acabou o primeiro tempo, simplesmente trocaram de lado, sem passarem no vestiário para descansar, e começaram o segundo. A partida terminou em 0 a 0, e o Bolton classificou-se para a semifinal. “Ouvimos os rumores sobre o aumento do número de mortes no vestiário. Mas foi apenas quando eu estava voltando para casa naquela noite que a sombra do horrível desastre caiu sobre mim como a nuvem de uma tempestade”, escreveu um dia Stanley Matthews.

O Bolton inaugurou uma placa, em 1992, para homenagear os 33 mortos, alguns anos antes de se mudar para um novo estádio. O local onde ficava o Burnden Park hoje em dia é um supermercado, que mantém a placa em uma de suas paredes. Evidentemente, esta semana foi de luto. A bandeira do clube no Macron Stadium está hasteada a meio pau desde sábado. Na última terça-feira, houve um minuto de silêncio antes da partida contra o Ipswich, pela segunda divisão. A revista desse jogo também foi especial, com histórias do dia do desastre. Houve um memorial nesta quarta, com a inauguração de um livro de lembranças na recepção do estádio, com os nomes de todos falecidos, que também estarão na camisa dos jogadores na partida de sábado, contra o Preston North End.

Na repercussão do desastre, foram definidas algumas regras para estádios com capacidade acima das 25 mil pessoas. Tornou-se obrigatório que as catracas registrassem o número de pessoas que haviam passado por elas, assim como a instalação de telefones para uma melhor comunicação. O espantoso foi que a estrutura dos estádios já era defasada em 1946 – com o agravante da Guerra, é claro – e se manteve negligentemente pouco alterada durante as próximas quatro décadas, até que um acidente em circunstâncias semelhantes matasse três vezes mais pessoas em Hillsborough.

placa Burden Park

Se quiser saber mais sobre o acidente, veja esse mini-documentário publicado pelo Bolton: