Entre as principais ligas europeias, a DFL se coloca como uma das mais interessadas em retomar suas atividades o quanto antes – mesmo que seja com portões fechados nos estádios. Nesta terça-feira, a entidade que organiza as duas primeiras divisões da Bundesliga se reuniu por videoconferência e tomou novas decisões em relação à pandemia. O Campeonato Alemão permanece suspenso até 30 de abril, em posição unânime. No entanto, segundo a revista Kicker, há a intenção de retomar as atividades já em maio, com partidas fechadas ao público.

“Estamos nos esforçando para encerrar a temporada em 30 de junho, o que permanece acordado hoje. Queremos recomeçar de uma maneira que seja possível”, declarou Christian Seifert, diretor da DFL. “A liga nunca esteve tão unida e sentimos um grande apoio”. Os clubes permanecem proibidos de treinar até 6 de abril. A partir de então, os elencos terão a permissão da liga para iniciar a preparação.

Alternativas para reorganizar o calendário ainda não foram definidas pela DFL. “Estamos em uma fase relativamente incerta. É claro que isso se aplica a vários lugares ao redor da Europa. Em cada país, isso se torna mais complexo. A tarefa da Uefa demanda bastante. A próxima temporada a acontecer como conhecemos será apenas a de 2021/22. Em 2020/21, haverá muita flexibilidade e um pouco de reclamação”, reforçou Seifert. Segundo o dirigente, dificilmente a temporada das copas europeias se concluirá no fim de junho, conforme acordado com a Uefa.

Os jogos sem público, caso realmente aconteçam, sofrerão um contingenciamento. A DFL traçou um plano para diminuir os gastos com pessoal, bem como para manter uma estrutura enxuta na organização das partidas. Há a possibilidade de que os portões fechados também sejam mantidos no começo da próxima temporada, mesmo se o pico da pandemia for atingido na Alemanha durante as próximas semanas. As aglomerações deverão ser evitadas por mais alguns meses para evitar novas ondas de contágio.

Os dirigentes na Alemanha seguem em contato com o poder público, segundo Seifert, e nada é pensado à revelia das determinações do governo: “Não é preciso dizer que muitos clubes já estão em diálogo próximo com as autoridades locais. Ao mesmo tempo, estamos conversando com representantes do governo federal. Entretanto, não vou expor publicamente as discussões. Não há um plano único. Está claro a todos que, no fim, somos uma empresa comercial. Neste momento, acrescentamos que muitas pessoas ficariam felizes se tivesse algo a mais para falar, para serem felizes. Isso também é claro para muitos políticos. Tenho a impressão de que estamos sendo ouvidos”.

Para retomar as atividades, a DFL criou uma força-tarefa com médicos para determinar como os jogos e treinamentos acontecerão, dentro dos parâmetros de segurança apontados pelas autoridades sanitárias. Haverá um procedimento padrão a ser seguido por todos os 36 clubes das duas primeiras divisões. As agremiações farão testes independentes em seus funcionários antes das partidas. Também se indicarão as medidas de higiene nos estádios e os processos especiais dentro da nova realidade de proteção ao vírus.

“Não devemos fazer nada que coloque em questão a saúde dos jogadores. A esse respeito, a unidade médica trabalhará muito próxima dos clubes. Haverá um intercâmbio permanente com os médicos de cada equipe e com todos os diretores esportivos. As respostas dadas devem ser confiáveis para que os jogadores recomecem”, declarou Seifert.

E tão importante quanto a discussão sobre o reinício da Bundesliga em si é a postura da DFL em relação à situação financeira dos clubes. A liga prometeu abrandar o processo de licenciamento dos times. Inclusive, equipes que precisarem entrar em insolvência sofrerão uma perda menor de pontos na tabela – três, quando anteriormente eram nove. A intenção é diminuir o impacto sobre suas estruturas e aumentar o tempo para que readequem suas realidades.

O fair play financeiro da Bundesliga também se adaptará, abrandando a rigidez na análise de liquidez das contas e mudando o período de exercício. As receitas serão analisadas de outubro a setembro durante a próxima temporada, já prevendo o período de paralisação por causa do coronavírus. Em 2020/21, caso um clube tenha buracos em suas contas, receberá sanções no mercado de transferências, mas não terá pontos deduzidos na tabela.

Apesar da análise de um cenário mais drástico, Seifert assinala que os clubes alemães possuem boas condições em relação a outras ligas relevantes da Europa e que as conversas com parceiros comerciais são positivas: “Ainda não sabemos como serão os novos desdobramentos na Inglaterra, na Espanha, na França e na Itália. Mas, conversando com outros dirigentes, já há muita incerteza. Na Alemanha, porém, a liga têm uma substância financeira diferente. Temos melhores condições que os outros. As discussões com nossos parceiros de mídia também ocorrem em um nível diferente”.

A próxima reunião da DFL acontecerá em 17 de abril. Até lá, a liga deverá ter recebido as posições de jogadores, torcedores e das próprias autoridades públicas sobre a sua ideia de retomar as competições. Enquanto há uma clara insatisfação das torcidas em manter os portões fechados, pelo conceito de que são o próprio intuito do jogo, os jogadores também podem fazer pressão para que não sejam expostos a viagens e outras situações de risco à saúde. Este precisa ser o norte no momento, afinal.

O interesse claro da DFL é conter o impacto financeiro e reduzir as perdas sem a transmissão na TV. O cancelamento total da temporada pode gerar um prejuízo de até €750 milhões às duas primeiras divisões. Christian Seifert já tinha manifestado seu interesse de seguir em frente em outras ocasiões, sobretudo pelo risco a clubes médios e pequenos. Nas outras divisões inferiores do Campeonato Alemão, da terceirona em diante, por avaliar o peso das bilheterias às finanças das equipes, a DFB (a federação alemã) sustenta a suspensão das atividades.

Neste momento, a Alemanha está entre os países que melhor lidam com a pandemia de coronavírus na Europa. O número de casos confirmados por dia caiu neste início de semana, embora as vítimas fatais cresçam. Ainda assim, a taxa de letalidade na Alemanha está entre as mais baixas, com 682 óbitos em 68 mil casos totais, incluindo 15 mil pacientes recuperados. Com um sistema de saúde que absorveu bem a crise, o governo alemão consegue auxiliar os esforços em outros países. Resta saber se isso é o suficiente para que o futebol volte a operar.