Toda grande história chega a um fim. E a epopeia que Gianluigi Buffon viveu na Juventus, escrita por duas mãos heroicas e milhões de corações, ganhará seu ponto final no próximo final de semana. Aos 40 anos, o veterano admitiu que este é o momento de dizer adeus ao clube que transformou sua carreira. De se despedir da instituição que o recebeu como um promissor goleiro e o eternizou como lenda. De sair por cima com a camisa onde conquistou tanto, e seguiu conquistando nesta última temporada, com mais uma dobradinha entre Serie A e Copa da Itália. Os sentimentos, sempre aflorados a Gigi, entrarão em erupção durante a sua última noite em Turim. Mas talvez não cessem o seu desejo por querer ainda mais.

O fim da trajetória de 17 anos na Juventus é certo. Buffon anunciou em coletiva nesta quinta-feira que não continuará no clube, agradecendo por tudo o que recebeu e ofereceu aos bianconeri. Contudo, deixou o seu futuro aberto. Não garantiu, por ora, a sua aposentadoria. Vai pensar durante mais alguns dias até chegar à sua conclusão. Como um “animal competitivo”, definição que ele dá a si mesmo, o camisa 1 balançou com as propostas de buscar um pouco mais ao longo dos próximos meses – não necessariamente dentro de campo. Por mais que parecesse impossível, talvez ainda vejamos Gigi com outra camisa, mas não de outro clube italiano.

“Gostaria de resumir este dia incomum para mim, cheio de emoções, mas que eu trato com calma, felicidade e uma sensação de saciedade. É a conclusão de uma belíssima jornada, que tive a sorte de compartilhar com pessoas que realmente se importavam comigo. Eu senti isso, dia após dia, e por causa desse amor eu lutei, tentando fazer o meu melhor. Sábado será meu último jogo pela Juventus. Eu acho que esta é a melhor maneira de acabar essa aventura maravilhosa, com dois títulos que são realmente importantes, próximo do presidente Andrea e de toda a torcida da Juventus”, declarou Buffon.

“Meu medo era chegar a um fim com a Juventus como um estorvo que as pessoas precisam aturar ou um jogador perdido em seu caminho. Eu posso dizer que este não é o caso e estou realmente orgulhoso que, aos 40 anos, poderei expressar no sábado talvez não o meu melhor, mas uma atuação digna de meu nome e da Juventus. Essa é a maior gratificação e por isso recebo essa saudação como um homem feliz, porque não é sem esforço que atuo neste nível a esta idade”, continuou o goleiro.

“Eu quero agradecer à família Juventus. Em 2001, eles contrataram um talento extraordinário – e eu provavelmente sou tendencioso ao dizer isso – mas transformaram este talento em um campeão. Eles me permitiram dar passos adiante com convicção, mentalidade forte e alto desempenho. Acredito que, se sigo atuando assim aos 40 anos, é graças à Juventus, cujos métodos de trabalho são diferentes de qualquer outro no mundo. Eu fiz essa filosofia ser a minha e tenho certeza que a usarei no futuro, em minha vida após o futebol, já que a única maneira que conheço para chegar aos resultados e ter alegria é trabalhando duro, se conduzindo ao limite e dando o máximo. À parte dos troféus, esse é o grande presente que recebi da Juventus e serei eternamente grato”, finalizou.

Sobre o seu futuro, Buffon garantiu que possuía propostas até mesmo da Juve – a quem não demonstra um pingo de ressentimento, ressaltando principalmente seu carinho ao presidente e amigo Andrea Agnelli. Todavia, o veterano avalia que talvez seja a hora de sentir um novo desafio, algo que coloque seu talento à prova mais uma vez.

“Até 15 dias atrás, era certo e bem sabido que eu pararia de jogar. Agora, eu recebi algumas propostas e desafios empolgantes, ambos dentro e fora de campo. Nos próximos três dias, cheio de emoção, eu irei refletir para tomar a decisão definitiva. Eu tentarei seguir o que atrair minha alma e minha natureza. Estou provavelmente um pouco incerto, mas não sinto medo. Um medo moderado, como é compreensível quando você irá mudar seu estilo de vida e seus hábitos. Eu vivo para sair da minha zona de conforto e me testar em situações mais complicadas, que eu não conheço. Essa é a maneira de ver do que você é feito e eu nunca me intimidei com desafios, pelo contrário”, avaliou.

“É sobre sentimentos, a importância que você pode ter em um projeto, a motivação que você pode ter e as minhas condições físicas também. Há muitas coisas que eu preciso considerar sem me deixar ser pego pelo momento. Eu certamente não sou alguém que acha que é certo encerrar minha carreira na terceira ou na quarta divisão. Sou um animal competitivo e não seria capaz de me sentir bem nesta situação”, emendou.

Apesar de questionado sobre um possível retorno ao Parma, que luta para se recolocar na Serie A do Campeonato Italiano, Buffon não considera o antigo clube como uma possibilidade. Vê como um “sonho romântico de infância”, não mais do que isso. Seus pensamentos são outros, voltados principalmente ao nível competitivo que pode atingir e o que ainda pode conquistar. O craque deseja mesmo ampliar a sua lenda, caso não se aposente.

“Premier League? Eu recebi algumas propostas muito interessantes. Na próxima semana, quando as coisas se acalmarem um pouco, eu decidirei o que será melhor para mim. Não adianta apostar para onde eu poderia ir. Se eu continuar jogando, eu quero o desafio de grandes conquistas, porque é para isso que eu vivo e esta é a minha limitação também, de certa maneira”.

Já sobre a seleção italiana, Buffon dá sua caminhada como algo já encerrado. Como havia manifestado outras vezes, não deseja uma despedida que formalize o fim de seus serviços à Nazionale. Assim, a possibilidade de uma grande homenagem no amistoso contra a Holanda, em junho, não se concretizará.

“Na seleção, eu disse que Buffon se tornou um problema três meses atrás, não acho o que poderia ter mudado. É extremamente complicado lidar com isso. Quero me distanciar, porque não acho que mereço. A seleção tem alguns bons e jovens goleiros, que precisam ganhar experiência. Não jogarei contra a Holanda. A seleção foi uma parte importante da minha vida, mas fizemos tudo o que precisávamos e não precisamos de outras mostras de afeto, manifestações ou cerimônias. Como eu digo, você aprecia as pessoas quando estão vivas, não depois da morte. O que mais me deixa feliz é que eu sinto isso como o melhor a todos”.

Nesta semana, indo além da coletiva, Buffon também concedeu uma leve entrevista a Gérard Piqué no site Players’ Tribune. Além de rememorar passagens importantes de sua carreira, se debruçou sobre os próximos passos de sua vida.

“Eu acho que, na minha idade, você precisa avaliar a situação a cada mês, a cada semana. Porque é importante para atletas que atuam em alto nível fazer o seu melhor, lutar pelo melhor, permanecer no topo. Você tem que estar fisicamente bem, porque não quer resultados ruins que custem seu orgulho. Sou Buffon e é este que quero ser até o último minuto. E quando eu não for mais o mesmo, eu irei”, filosofou.

“Eu seria desonesto se dissesse que não estou com medo. Mas no fundo sinto-me calmo e em paz, porque sou naturalmente curioso. E no dia em que eu parar de jogar futebol, encontrarei uma maneira de não me entediar, continuarei ocupado. Acima de tudo, jogadores que vivem o esporte intensamente precisam manter suas cabeças ocupadas e ter uma razão para se levantar todos os dias, para lutar. Eu nunca me entristecerei ou sentirei falta de estar nos holofotes. O único problema é que minha vida foi organizada da mesma forma durante 23 anos. Toda manhã você recebe um horário. Mas quando você tem 24 horas sem nada para fazer, pode ser um problema”, concluiu o veterano.

Buffon sai de cena na Juventus com uma estatura incomparável. Com uma idolatria de quem não abandonou o clube em nenhum momento. E que seja um lamento aos juventinos não venerarem mais em campo o seu maior símbolo, será interessante observar como será o fim de Gigi, se não for mesmo este. É a história que se forma diante nos olhos de todos, e que pode guardar um último capítulo grandioso.