Imagine que o seu time perde o primeiro jogo eliminatório por 3 a 0, em casa, e, no jogo de volta, está vencendo por 3 a 0. E não é qualquer time: é o atual bicampeão. Aí, aos 48 minutos do segundo tempo, o árbitro marca um pênalti duvidoso. Na sua visão, não foi pênalti. Imagine isso no torneio de clubes de mais prestígio do mundo. E que você é um dos maiores da sua posição na história. E que esta é uma das poucas competições que você ainda não venceu. E que você tem 41 anos. Com tudo isso, tente se colocar na pele de Gianluigi Buffon, o goleiro da Juventus. Só diante de tudo isso podemos analisar o contexto que o goleiro foi expulso pelo árbitro, por reclamação, depois de ver o pênalti contra seu time ser marcado no jogo contra o Real Madrid.

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Independente do que você ache sobre o pênalti marcado, ele é ao menos discutível. Entre os três da redação da Trivela, tivemos uma divisão, com dois achando que foi e um achando que não foi. Todos, porém, acham que é um lance marcável. Nesse contexto, é difícil entender a expulsão de Buffon. É claro que não é aceitável que o jogador ofenda o árbitro, e isso só Michael Oliver pode dizer. Naquela situação, porém, só uma ofensa ao árbitro para justificar o cartão vermelho. É o tipo de coisa que só mesmo vendo o relato do árbitro. Porque uns palavrões e reclamação acintosa não parecem ser suficientes. O árbitro, como mediador, tem que entender o contexto também.

Seria de se esperar que o goleiro soltasse alguns palavrões ali. E, novamente, longe de ser aceitável que se ofenda um árbitro, mas o árbitro sabe que uma decisão controversa como a que ele tomou, estando certo ou não, gerará reações, ainda mais com tudo isso que estava em jogo. Foi pesado demais. Ainda mais para Buffon. A expulsão parece um exagero e uma punição pesada demais, até porque tira também o melhor goleiro do time em um momento crucial, de um pênalti.

Até aquele momento, Buffon tinha uma atuação excelente. Ele fez cinco defesas, que foram importantes, contra um time que fez um bom jogo. Isso é importante ressaltar: a Juventus conseguiu uma vitória por 3 a 1 no estádio Santiago Bernabéu, e isso nunca é fácil. A atuação do Real Madrid era boa, com boas chances criadas. Algumas delas pararam no próprio Buffon. A expectativa, naquele momento, era da prorrogação que viria. O que já era um feito do time de Turim.

Nas palavras de Buffon, a Juventus tornou o impossível possível no jogo e os jogadores saíram de campo com muito orgulho do seu feito. O Real Madrid cometeu erros e teve seus problemas, mas parecia que era uma noite para Buffon sair consagrado. O último ato acaba sendo dramático para Buffon. Recebeu um cartão vermelho que parece demasiado cruel em uma situação extrema, limite, tanto no físico, quanto no emocional. Ninguém sabe se esse foi o último momento de Buffon pela Champions League. Sua aposentaria ainda não está definida.

A trajetória de Buffon, com três finais de Champions League (2003, 2015, 2017) parece caminhar para um fim sem título. Mas é parte da vida, como tantos outros grandes jogadores jamais levantaram o troféu mais prestigiado da Europa. Ronaldo, por exemplo, nunca venceu e jogou por PSV, Barcelona, Internazionale, Real Madrid e Milan na sua carreira europeia. Isso para ficar em apenas um jogador que nunca foi campeão desse torneio.

A derrota na eliminatória não diminui a carreira de Buffon. Derrotas fazem parte. Do outro lado, há um outro time que também têm muitos méritos e lutou até o fim pela classificação, criando chances para isso. Se a última cena de Buffon na Champions League foi o cartão vermelho, não é nenhuma vergonha. A reação de Buffon é completamente compreensível e o árbitro, o inglês Michael Oliver, talvez tenha usado o cartão vermelho contra o goleiro italiano como uma forma de justificar a sua marcação.

Parece difícil não reclamar acintosamente de uma marcação de pênalti em uma situação como essa. Aos 48 minutos do segundo tempo, um ateu grita pelo amor de Deus e um devoto solta todos os palavrões que conhece. É apenas humano. Buffon pode ser um dos maiores goleiros do mundo e um dos grandes da história da Itália e do futebol europeu. Mas, no final, ele é humano.