Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Da torcida do Manchester United, clube do qual foi quem mais vezes ostentou a braçadeira, ele recebeu o apelido de “Captain Marvel”. Meia de grande qualidade técnica, mostrava em campo uma raça e liderança fenomenais, sendo reverenciado até mesmo por antigos adversários (e companheiros de seleção) como Peter Beardsley, Gary Lineker e Paul Gascoigne. Foi idolatrado também no West Bromwich Albion, onde iniciou a carreira de jogador, e no Middlesbrough, onde a encerrou e acumulou a função de treinador. Um dos jogadores mais simbólicos do futebol inglês e da seleção inglesa nos anos 80, Bryan Robson chega aos 60 anos de idade neste 11 de janeiro.

Bryan nasceu na cidade nortista de Chester-le-Street, vizinha a Newcastle, e torcia pelos Magpies quando garoto. Chegou a fazer testes na base do clube, mas não foi aprovado. Tentou a sorte também em outras equipes de outras regiões da Inglaterra, até ganhar uma oportunidade no West Bromwich Albion, cerca de 330 km ao sul de sua cidade natal.

Chegou ao clube aos 15 anos e aos 18 estrearia no time de cima, em abril de 1975. O West Brom vivia um período de baixa, passando alguns anos na segunda divisão depois de 23 temporadas seguidas na elite (chegara a ser vice-campeão nos anos 1950, além de levantar duas FA Cup e uma Copa da Liga no período). Mas voltaria à primeira divisão em 1976, comandado pelo irlandês Johnny Giles, ex-meia-armador do Leeds, e que exercia a dupla função de jogador e técnico nos Baggies.

bryan robson - west brom

Depois de sofrer com seguidas lesões e trocas de posições (chegou a ser escalado como zagueiro e lateral), o futebol de Bryan Robson deslancharia na elite, especialmente depois da contratação de um novo treinador, o então desconhecido Ron Atkinson, que vinha de um bom trabalho no Cambridge United. Assumindo o cargo em janeiro de 1978, Atkinson levaria o West Brom à semifinal da FA Cup e a um sexto lugar na liga, a melhor colocação do clube em 12 anos.

Aquele time faria história na no futebol inglês por ser o primeiro a ter três jogadores negros no time titular (o zagueiro Brendon Batson, o ponta Laurie Cunningham e o centroavante Cyrille Regis, que receberiam o apelido de “Three Degrees”, em homenagem a um grupo vocal pop da época), mas parte do sucesso da equipe se devia também a outros jogadores, como o zagueiro John Wile, o atacante Tony Brown, o ponta escocês Willie Johnston e Bryan Robson, o grande organizador e criador do meio-campo.

Na temporada 1978-79, o West Brom faria grande campanha, terminando na terceira posição da liga, depois de passar várias rodadas na vice-liderança. Perderia o segundo posto somente no último dia, derrotado num confronto direto com o Nottingham Forest. Chegaria também às quartas de final da Copa da Uefa, deixando pelo caminho Galatasaray, Braga e Valencia, antes de cair para o Estrela Vermelha. Bryan Robson seria titular absoluto e dono da camisa 7.

A caminho de Old Trafford

Duas temporadas mais tarde, o meia levaria novamente o West Brom a uma boa campanha na liga (quarto lugar), mas o ano já teria um tom de despedida dos Hawthorns. Com a saída de Ron Atkinson para o Manchester United, rapidamente cogitou-se que Bryan teria o mesmo destino. Pouco depois de iniciada a temporada seguinte, em outubro de 1981, os Red Devils ganhariam disputa com o Liverpool pagando 1,5 milhão de libras, o recorde britânico de transferências, para trazer o jogador para Old Trafford.

No novo clube, logo conquistou a torcida tanto por suas qualidades técnicas, de bom passe, controle de bola e cabeceio, além de excelente visão de jogo e inteligência, quanto por seu espírito combativo em campo, constituindo-se em uma liderança fundamental para a equipe.

Em sua segunda temporada já assumiria a braçadeira de capitão, levando o time ao título da FA Cup em Wembley, em maio de 1983, numa final memorável contra o surpreendente Brighton. No primeiro jogo, um movimentado empate em 2 a 2. Três dias depois, na partida de desempate, goleada de 4 a 0 para o United, com Bryan marcando duas vezes, primeiro abrindo o placar num chutaço cruzado de fora da área e depois completando de pé esquerdo uma jogada de bola aérea. Ao fim do jogo, subiu as escadarias até a tribuna do estádio para levantar seu primeiro troféu na carreira.

Na mesma época, porém, voltaria a ser acometido por lesões: em fevereiro, sofreu uma torção de tornozelo durante a semifinal da Copa da Liga contra o Arsenal que o tiraria da decisão do mesmo torneio, na qual, sem seu capitão, o United seria derrotado pelo Liverpool por 2 a 1. Os problemas físicos também o tirariam de dois jogos da seleção em Wembley que seriam cruciais para a eliminação da Eurocopa de 1984, contra a Grécia e a Dinamarca (empate em 0 a 0 e derrota por 1 a 0, respectivamente).

Apesar disso, a regularidade e o alto nível de suas atuações não passaram em branco tanto para a crítica quanto para a Associação de Jogadores Profissionais, que o elegeu por cinco temporadas consecutivas (entre 1981/82 e 1985/86) para o time da temporada – e para uma sexta e última vez em 1988/89.

Em março de 1984, o Captain Marvel protagonizaria outro momento inesquecível para os torcedores do United, no duelo contra o Barcelona de Diego Maradona pelas quartas de final da Recopa. Derrotado na partida de ida no Camp Nou por 2 a 0, o time de Manchester deu a volta por cima numa espetacular vitória por 3 a 0, com dois gols de seu camisa 7, que ainda iniciaria a jogada do terceiro, marcado pelo irlandês Frank Stapleton. Bryan saiu de campo carregado pelos torcedores que invadiram o gramado após o apito final. No entanto, o meia voltaria a desfalcar o time por lesão nas semifinais contra a Juventus de Platini, que acabaria avançando à decisão.

Bryan voltou a capitanear o United rumo a mais um título da FA Cup em 1985. Depois de uma épica semifinal diante do Liverpool – empate em 2 a 2 no primeiro jogo e vitória por 2 a 1 no desempate em Maine Road, com direito a um golaço do meia, numa bomba da intermediária que foi parar no ângulo – veio a decisão contra o Everton, que buscava uma espetacular tríplice coroa: havia conquistado a liga com várias rodadas de antecedência e também a Recopa Europeia. Mas parou nos Red Devils, que venceram na prorrogação por 1 a 0, gol de Norman Whiteside, mesmo com um jogador a menos depois da expulsão do zagueiro Kevin Moran.

Na temporada seguinte, o United começou arrasador vencendo suas dez primeiras partidas. Parecia que enfim brigaria pelo título da liga (o qual não conquistava desde 1967) com chances reais. E na briga se manteve, sob a inspiração de ‘Robbo’, até fevereiro de 1986. Foi quando, na partida contra o West Ham em Upton Park, o meia deslocou seriamente o ombro numa dividida, ficando de fora pelo resto da temporada e impactando inclusive sua participação na Copa do Mundo do México pela seleção.

Na volta do Mundial, viu o United cumprir campanha desastrosa no começo da temporada 1986/87 e Ron Atkinson dar lugar ao escocês Alex Ferguson. Com Fergie, a afinidade foi imediata: ambos compartilhavam a mesma mentalidade vencedora. Porém, a parceria demorou a render frutos: a primeira taça seria a da FA Cup de 1990, quase quatro anos depois. Mas, assim como em 1983, foi um título redentor em outra final épica, diante de uma equipe surpreendente, no caso um bom time do Crystal Palace: após um 3 a 3 na primeira partida, vitória do United por 1 a 0, gol de Lee Martin, no jogo desempate em Wembley. E Bryan Robson subiu pela terceira vez as escadarias do estádio para levantar a taça.

bryan robson e alex ferguson - 1990

A conquista daquela copa levaria o United um pouco mais longe, ao seu primeiro título continental desde a Copa dos Campeões de 1968, ainda na era Matt Busby: a Recopa de 1991. O adversário na decisão foi o Barcelona dirigido por Johan Cruyff, e que contava ainda com Ronald Koeman e Michael Laudrup. Mas dois gols do galês Mark Hughes – o primeiro após cobrança de falta do capitão Bryan Robson – valeram mais uma taça aos Red Devils. Se o título da liga demorava a vir, pelo menos o time se revelava um legítimo “copeiro” – na temporada seguinte levaria ainda, mas sem Robson em campo, a Supercopa Europeia contra o Estrela Vermelha e a Copa da Liga contra o Nottingham Forest.

Na temporada 1992/93, depois de perder o título da liga anterior nas últimas rodadas para o Leeds, o Manchester United renovava seu elenco, restringindo o espaço para o velho capitão. A braçadeira já havia sido transferida para o zagueiro Steve Bruce. Mas Bryan, aos 36 anos, ainda teria papel importante no tão esperado fim do jejum, justamente na temporada inaugural da Premier League. Na entrega da taça, em reconhecimento ao histórico do meia pelo clube, ele seria o encarregado de levantar o troféu junto com Bruce, seu sucessor de braçadeira.

Na temporada seguinte, sua camisa 7 seria passada ao francês Eric Cantona e seu lugar no centro do meio-campo ficaria com o recém-contratado Roy Keane. E ainda assim contribuiria com sua influência dentro do elenco e, vez por outra, com seus passes precisos nas ocasiões em que esteve em campo. Marcaria ainda um gol na vitória por 4 a 1 sobre o Oldham na semifinal da FA Cup, a qual os Red Devils conquistariam, formando a primeira dobradinha de sua história.

bryan robson - skipper

Em maio de 1994, depois de 461 partidas, dois títulos da liga, quatro FA Cups, uma Copa da Liga, uma Recopa e uma Supercopa Europeia pelo Manchester United, Bryan daria adeus ao clube para aceitar o posto de jogador-técnico do Middlesbrough, então na segunda divisão. O acesso à Premier League veio logo na primeira temporada, comemorado com a contratação de astros internacionais, como o meia brasileiro Juninho e o atacante italiano Fabrizio Ravanelli.

Com a qualidade de ambos e a experiência de Bryan Robson, o Boro não teve dificuldade para se manter na elite na primeira temporada, mas na segunda acabaria rebaixado após perder os pontos de um jogo contra o Blackburn, adiado sem permissão da liga. Curiosamente, na mesma temporada, o clube chegaria pela primeira vez às finais das duas copas inglesas, perdendo a da Liga para o Leicester num jogo desempate e a FA Cup para o Chelsea.

bryan robson middlesbrough

Após trazer novamente o Boro de volta à elite na primeira tentativa, Bryan Robson levou o clube a um bom nono lugar em 1999, permanecendo mais duas temporadas no comando, antes de deixar o cargo em junho de 2001. Foi também pelo Middlesbrough que o meia pendurou as chuteiras, entrando em campo pela última vez em 1º de janeiro de 1997, a dez dias de completar 40 anos – marca notável para uma carreira marcada por lesões.

Após uma passagem pelo comando do Bradford, Bryan retornaria ao clube onde tudo começou, o West Bromwich Albion, como treinador na temporada 2004/05, conquistou mais uma vez a gratidão dos torcedores ao salvar os Baggies do rebaixamento na última rodada da Premier League, vencendo o Portsmouth por 2 a 0, depois de ter iniciado o dia na lanterna da competição. Em seguida, comandaria o Sheffield United e a seleção da Tailândia, antes de ocupar o cargo de Embaixador Global do Manchester United, no qual se encontra hoje.

Na seleção inglesa, o grande capitão

A estreia pela seleção viria quando ainda defendia o West Bromwich, em fevereiro de 1980, no último jogo das Eliminatórias da Eurocopa daquele ano contra a Irlanda em Wembley (vitória inglesa por 2 a 0). Mas Bryan não seria incluído na lista final dos 22 que disputariam o torneio. Após a competição, no entanto, retornou ao English Team para não sair mais do time. Disputou todas as partidas das Eliminatórias para a Copa de 1982, bem como os amistosos de preparação, e continuou como titular no Mundial.

Os ingleses não chegaram cotados à Espanha. Muitos jornalistas comentaram que a França (incluída no mesmo grupo) e não a Inglaterra é que deveria ser a cabeça de chave. A resposta veio com uma vitória categórica por 3 a 1 no jogo de abertura do grupo em Bilbao, com dois bonitos gols de Bryan Robson – um deles, com apenas 27 segundos de partida, é até hoje um dos mais rápidos já marcados nos Mundiais.

Em seguida, a Inglaterra venceu também a Tchecoslováquia (2 a 0) e o Kuwait (1 a 0) para confirmar o primeiro lugar do grupo com campanha irretocável, silenciando os críticos. Mas na segunda fase, em um triangular contra a fortíssima Alemanha Ocidental e a dona da casa Espanha, os ingleses pararam em dois empates sem gols, e a vaga nas semifinais ficou com os alemães. Invicta e com apenas um gol sofrido durante toda a Copa, a Inglaterra acabou voltando para casa mais cedo.

Apontado capitão no Manchester United, logo o seria também na seleção pelo novo técnico Bobby Robson. Em seu primeiro jogo com a braçadeira, uma vitória folgada por 3 a 0 sobre a Grécia em Atenas, em novembro de 1982, pelas Eliminatórias da Eurocopa. E em junho do ano seguinte levantaria a taça do Campeonato Britânico ao vencer a Escócia por 2 a 0, jogo em que abriu o placar. Porém, lesões o tiraram de partidas cruciais pela classificação para a Euro, entre elas a derrota para a surpreendente Dinamarca em Wembley, que praticamente definiria a vaga na fase final a favor dos nórdicos.

Em junho de 1984, Bryan Robson capitanearia a Inglaterra em uma inédita vitória sobre o Brasil no Maracanã (2 a 0). Dali em diante, seria decisivo para uma tranquila classificação para a Copa de 1986, no México – incluindo um hat-trick na goleada de 8 a 0 sobre a Turquia em Istambul. No entanto, a lesão no ombro sofrida no começo do ano do Mundial prejudicaria decisivamente sua participação. Escalado de início nos dois primeiros jogos, contra Portugal e Marrocos – em decisão controversa do técnico Bobby Robson, já que o meia não tinha plenas condições físicas – voltaria a ter o ombro deslocado no segundo jogo, sendo substituído ainda no primeiro tempo. E sua Copa terminaria ali.

zenon

Dois anos depois, na Eurocopa disputada na Alemanha Ocidental, o meia estava bem fisicamente e teve boas atuações. O que não ajudou desta vez foi o desempenho da seleção inglesa como um todo: derrotada por uma surpreendente Irlanda (1 a 0) na estreia, acabou não resistindo também às duas outras forças que compunham o grupo, Holanda e União Soviética (não por acaso as finalistas do torneio). Robson marcou um gol contra os holandeses, mas não pôde evitar as derrotas por 3 a 1 em ambas as partidas.

No Mundial seguinte, na Itália, a história do México se repetiria. Depois de capitanear os ingleses em uma excelente campanha nas Eliminatórias e manter o bom nível de atuações nos amistosos, uma lesão no segundo jogo da primeira fase, contra a Holanda, encerraria precocemente sua participação na Copa. Seu lugar na equipe ficaria com David Platt, que seria um dos destaques do English Team naquela competição.

Após o torneio, ‘Robbo’ ainda entraria em campo mais duas vezes pela seleção, agora treinada por Graham Taylor. Sua despedida viria no empate em 1 a 1 com a Irlanda em Wembley, pelas Eliminatórias da Eurocopa, em março de 1991. Em 11 anos vestindo a camisa dos três leões, Bryan entraria em campo 90 vezes – 65 delas como capitão, marca superada apenas por Billy Wright e Bobby Moore – balançando as redes 26 vezes.

bryan robson seleção