A inquietude não é a primeira característica listada quando se pensa nas virtudes de um grande atacante. Mesmo negligenciada, ela se faz fundamental. Afinal, o avante inquieto é o que busca o pouco a mais que atormenta os zagueiros. É o que permanece faminto, mesmo diante de um jogo fechado. É o que dá opções aos seus companheiros e abre o caminho do gol. Bruno Henrique se coloca entre esses. Tanto quanto um atacante veloz, habilidoso ou seja lá qual for o seu predicado preferido, ele é inquieto. E foi essa inquietude, em pleno Maracanã, que permitiu ao Flamengo se inflamar contra o Internacional. Bruno Henrique, além do mais, se mostra com uma vontade ainda maior nos jogos grandes. Assim aconteceu com quem já possui um punhado de clássicos marcantes e não temeu nem mesmo o Real Madrid em mata-matas de Champions, em seus tempos de Wolfsburg. Foi assim de novo nesta quarta-feira grandiosa ao Fla, que valeu toda a aposta na compra do camisa 27.

Antes de desembarcar no Rio de Janeiro, Bruno Henrique protagonizou uma novela. A quem esperava o novo reforço ao ataque do Flamengo, o noticiário daquele 14 de janeiro desencorajou. Logo na segunda semana de 2019, a diretoria rubro-negra entregava os pontos e desistia oficialmente da contratação do atleta. As tratativas se arrastaram ao longo de semanas e, embora tivesse aceitado ouvir a proposta, o Santos começou a fazer jogo duro quando o acerto se aproximava. Jorge Sampaoli tentou segurar o jogador, enquanto a diretoria aumentou sua pedida para liberá-lo. Sem um denominador comum, os flamenguistas pareciam resignados a procurar outra opção no mercado.

Há notícias, porém, que envelhecem cedo demais. No mercado de transferências do futebol, isso acontece com certa frequência. E a persistência do Flamengo surtiu efeito quando, na verdade, o Santos procurou de volta os cariocas para conversar mais um pouquinho. Quase duas semanas depois, em 23 de janeiro, o anúncio surgiu nas redes sociais: Bruno Henrique era a nova peça do ataque rubro-negro. Não demorou a se pagar. Na verdade, hoje a contratação soa como uma bela pechincha. Os flamenguistas desembolsaram R$23 milhões, pagos em três módicas parcelas, além de cederem inicialmente por empréstimo Jean Lucas. Oito meses depois, o investimento parece totalmente pago por aquilo que se notou em campo na Libertadores.

Bruno Henrique se tornou um nome imprescindível à jornada do Flamengo ao longo deste 2019 carregado de emoções. O clube investiu pesadamente em pontas durante as últimas temporadas e, por isso mesmo, houve quem desconfiasse de mais um jogador para o setor, até pela queda de desempenho em seu segundo ano pelo Santos, atrapalhado pelas lesões. No entanto, o camisa 27 vem sendo muito mais do que isso. É o atacante que não se restringe apenas ao lado de campo, como também se mostra muito mais participativo do que todos os seus antecessores. E um homem de frente com desejo de bagunçar as defesas, uma hora ou outra, acabará encontrando seu espaço para decidir. Os gols de Bruno Henrique pelo Fla acontecem com uma frequência acima do esperado.

Durante os cambaleantes meses de Abel Braga nesta nova passagem pela Gávea, Bruno Henrique já tinha brilhado. Se há um “legado” do treinador neste curto trabalho, ele se concentra justamente na compra do atacante, seu pedido expresso. E mesmo que a utilização do novo contratado como centroavante, não como ponta, tenha gerado muita discussão sobre o melhor rendimento durante o primeiro semestre, ele logo se colocou como uma importante fonte de gols aos rubro-negros. No fim, o debate ao seu redor virou apenas um prólogo ao posicionamento que realmente parece o ideal com Jorge Jesus.

Bruno Henrique não deixou de atuar mais centralizado com o novo treinador. Todavia, ganhou a importante companhia de Gabigol para o apoiar na linha de frente. E mostrou como é um atacante dos bons. A função aproveita melhor a tal inquietude do camisa 27. Ele pode participar mais do jogo, com liberdade para se movimentar. Muitas vezes acaba se deslocando à esquerda, sua posição natural, embora explore também sua presença de área, que ficaria subutilizada na ponta. Contudo, mais importante é a maneira como Bruno Henrique consegue apostar corrida com os zagueiros adversários, ao transitar por ali. Assim, faz os defensores comerem poeira e potencializa o ataque voraz do Flamengo.

As características de Bruno Henrique o transformam em diferencial. Diante da qualidade ofensiva do Fla, ele vira o ponto máximo de combustão no ataque. Sabe que pode contar com os bons passes dos companheiros, ao mesmo tempo em que oferece muito mais agressividade e habilidade para romper as defesas adversárias. Exatamente o que ocorreu contra o Internacional. O artilheiro da noite se incumbiu de ser a flecha aos muitos arcos à disposição dos rubro-negros. Quando encontrou os espaços, foi imparável.

Bruno Henrique já tinha sido um dos mais participativos do time durante o primeiro tempo. Movimentou-se bastante, mas encontrou uma defesa extremamente encaixada e pouco conseguiu criar. Mesmo assim, uma das melhores jogadas do time foi dele, em chute de longe que Marcelo Lomba espalmou. A vontade continuou e se ampliou na volta do intervalo. Foi o que abriu o placar. Entre os muitos jogadores do Flamengo que tiveram uma boa atuação individual nesta quarta, nenhum deles exibiu a agressividade do atacante. Correu, encarou zagueiros duríssimos, brigou pela bola, não desistiu das jogadas. Anotou o primeiro gol na base da raça, o segundo com uma técnica mais apurada. E, na mistura dos dois, ainda poderia ter entregado o terceiro, não fosse a furada de Gabigol dentro da área.

Dá até para discutir se Bruno Henrique foi mesmo o melhor em campo no Maracanã. Nenhum outro, porém, ajudou tanto o possante Flamengo a atingir sua aceleração total quanto o atacante. Ainda não é a solução definitiva dos rubro-negros e Jorge Jesus insiste que o elenco precisa de um centroavante. Mas, quando as portas se abriram, o camisa 27 estava à espreita para fazer o Maraca ferver. Anotou dois gols e proporcionou uma vitória que alimenta o sonho flamenguista na Libertadores. Oferece algo que pouquíssimos homens de frente conseguiram na Gávea ao longo dos últimos tempos: a possibilidade de acreditar sempre.