O Flamengo campeão brasileiro de 2019 não terá um jogo do título. O título do Brasileirão se consumou de maneira única, afinal. Se não veio dentro de campo, ele foi confirmado com um mar de gente no Rio de Janeiro, durante a festa pela conquista da Libertadores. Ainda assim, os rubro-negros precisavam receber o troféu. E o jogo da taça, contra o Ceará, guardou mais uma goleada, mais uma virada e mais uma atuação inspirada de Bruno Henrique. Num time sem todos os titulares, o craque fez a diferença. Guardou três gols, garantiu a vitória por 4 a 1 e recebeu os aplausos no Maracanã abarrotado por 67,5 mil torcedores. A volta dos flamenguistas ao templo, depois da peregrinação a Lima, contou com a epifania completa.

A um time já campeão, o duelo contra o Ceará parecia mais um apêndice da história. Mas que, mesmo assim, poderia deixar suas marcas. Um empate já serviria para o Flamengo registrar a maior pontuação da história do Brasileirão de pontos corridos com 20 times. Não que o Vozão fosse apenas um espectador privilegiado no Maracanã. Os alvinegros precisavam da vitória em sua luta contra o rebaixamento e tentariam arrancar um resultado favorável.

Como era de se esperar, o Flamengo mandou no jogo desde os primeiros minutos. Pressionou e buscou o gol, sem se importar com as ausências. O Ceará se fechava na defesa e tentava conter o abafa. Também dava sorte, como no chute de Arrascaeta que estalou o travessão. E se parecia que o gol do Fla era questão de tempo, o Vozão também mostrou que poderia punir qualquer desleixo. Foi exatamente o que aconteceu aos 26, quando Thiago Galhardo abriu o placar. Felipe Silva passou fácil por Rodinei e cruzou rasteiro. Como em Lima, a bola passou por uma multidão de pernas flamenguistas, até Galhardo aparecer livre para escorar. Outra vez, o time de Jorge Jesus dependia de concentração para virar.

Que o clima fosse de euforia, o Flamengo queria os três pontos. O Mister queria os três pontos. Bruno Henrique quase empatou na sequência. Seu chute forte de fora da área foi espalmado pelo goleiro Diogo Silva e ainda esbarrou na trave. De qualquer maneira, era necessária uma maior eficácia dos rubro-negros na frente e a primeira alteração aconteceu logo aos 36 minutos. Reinier não funcionava no lugar de Gabigol e deu lugar a Vitinho, para que Bruno Henrique atuasse mais centralizado no ataque. Faria efeito.

O Flamengo ainda não conseguiu empatar antes do intervalo. No entanto, amassou o Ceará durante o segundo tempo. A entrada de Lincoln no lugar de Diego dava mais presença de área e as bolas alçadas foram um recurso constante dos rubro-negros. Assim nasceria a virada. O empate veio aos 19. Renê cruzou pela esquerda, Lincoln ajeitou de cabeça e Bruno Henrique apareceu para bater de sola na bola. A partir de então, a resistência cearense desmoronaria e o espetáculo tomaria conta do Maracanã, com as luzes acesas pela torcida.

O Flamengo seguiu tentando, até a virada sair aos 28. Arrascaeta foi o garçom da vez, em cruzamento para Bruno Henrique fuzilar. E a situação se abriria mais. Aos 38, Everton Ribeiro foi puxado fora da área por Samuel Xavier, em lance que rendeu a expulsão do capitão do Vozão. Com um a mais, bastou alargar a goleada. Bruno Henrique assinalou sua tripleta ao aproveitar o rebote da cobrança da falta feita por Arrascaeta. Por fim, caberia a Vitinho fechar a goleada. Recebeu de Everton Ribeiro, pedalou sobre a marcação e mandou para dentro. Placar elástico para a noite festiva.

Bruno Henrique chegou a 21 gols no Brasileirão. Briga com Gabigol pela artilharia, um gol atrás do companheiro. E os dois goleadores rubro-negros ainda podem registrar outro feito notável no Brasileirão. Desde que o torneio começou a ser disputado por 20 equipes e em pontos corridos, num jogador conseguiu superar a marca de 23 tentos na mesma edição. Parece algo trivial aos dois matadores da equipe, com três rodadas pela frente. Se alcançar Dimba ou Washington é missão impossível, não deixa de ser uma marca expressiva, especialmente pela combinação explosiva.

Com a vitória carimbada, veio a hora da cerimônia de premiação. Foi legal ver Júlio César entregando as medalhas e vibrando mais que alguns jogadores. Jorge Jesus também merece elogios, por fazer questão que todos os membros da comissão técnica estivessem presentes – inclusive roupeiros, massagistas e outros funcionários do “baixo clero”. Lamentável, porém, foi a postura da CBF ao impedir a entrada desses profissionais – o que já havia ocorrido em outros anos. Desta vez, houve uma briga no túnel, enquanto um sem número de aspones povoava o gramado. O maior deles? Rogério Caboclo, que quis fazer graça na entrega da taça e aparecer mais que os campeões. Ouviu um “para” de Diego Alves.

O Flamengo, outra vez, tinha três capitães. Diego Alves, Everton Ribeiro e Diego Ribas ergueram o troféu. Os rubro-negros atravessam uma semana para nunca mais esquecerem, para valer ainda mais seu orgulho. E que, independentemente do que já foi feito, eles querem ampliar. No Brasileirão, dá para superar os 90 pontos, com direito ao encontro com o Palmeiras no Allianz Parque. Além do mais, há um Mundial (talvez) contra o Liverpool que ocupa o imaginário. O desafio ao Fla é garantir que o carnaval se amplie.