A seleção holandesa tem um novo treinador. Quer dizer, novo não é bem a palavra porque a federação segue fazendo um revezamento dos seus principais nomes (meio ao estilo CBF com Parreira, Zagallo e Felipão). Depois de Van Gaal disputar a Copa do Mundo de 2014 e ser sucedido por Guus Hiddink, ambos em suas segundas passagens pela Oranje, Dick Advocaat foi escolhido para dar início ao seu terceiro trabalho como técnico da vice-campeã mundial.

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Além de ter treinado a Holanda na Copa do Mundo de 1994 e na Eurocopa de 2004, Advocaat tem mais três passagens pela seleção como assistente. Duas delas foram debaixo do comando de Rinus Michels (1984-1987 e 1990-1992). A última foi ano passado, quando foi contratado para ser o bastião de experiência da comissão técnica de Danny Blind, depois de sair do Sunderland. Ficou apenas três meses no cargo e acertou com o Fenerbahçe, clube que treina na atual temporada. A decisão deixou Blind irritado: “Estou surpreso e decepcionado. Quando abordei Dick ano passado para ser assistente, ele me deu a impressão que queria fazer isso no longo prazo”. Advocaat vai terminar a temporada na Turquia antes de assumir a seleção.

Blind recoreu a Advocaat porque havia acabado de fracassar na relativamente fácil missão de levar a Holanda para uma Eurocopa da qual participaram 24 equipes. Ele ainda foi mantido no cargo, mas acabou demitido depois de um começo fraco de Eliminatórias para a Copa do Mundo – quarto lugar no grupo, atrás de Bulgária, Suécia e França. Se Blind representava a renovação, Advocaat é a melhor chance, na opinião dos dirigentes holandeses, de conseguir uma vaga para a Rússia. “Havia dois cenários. Poderíamos optar pelo longo prazo ou fazer tudo que fosse possível para jogar a Copa de 2018. Escolhemos o segundo cenário. Tinha que ser um profissional experiente, de preferência uma autoridade”, disse o diretor técnico da Federação Holandesa, Hans van Breukelen.

Treinadores não saem de fábrica com muito mais experiência que Advocaat. Aos 69 anos, ele será o comandante mais velho da história da seleção holandesa, embora seu último trabalho notável tenha sido no Zenit, entre 2006 e 2009. Terá Ruud Gullit, que não é técnico desde 2011, como um dos seus assistentes. O curioso é que foi justamente um entrevero com Advocaat que impediu Gullit de disputar a Copa do Mundo dos Estados Unidos, 23 anos atrás.

Os problemas entre Gullit e Dick Advocaat começaram durante as Eliminatórias. Segundo este artigo do Los Angeles Times, publicado pouco antes do começo da Copa do Mundo de 1994, Gullit foi escalado pelo lado direito do meio-campo, mas seu instinto natural era buscar o jogo pelo centro. Além disso, o craque não passava por um bom momento. Estava no fim de sua última temporada pelo Milan, na qual disputou apenas 26 partidas, com 11 gols, antes de se transferir para a Sampdoria.

Advocaat tirou-o de campo aos 24 minutos da segunda etapa. Gullit criticou publicamente as táticas do treinador e anunciou que não defenderia mais a seleção holandesa enquanto ele estivesse no cargo. Foi de caso pensado. Advocaat, 47 anos, ainda era um treinador novato, que havia sido assistente em duas passagens de Rinus Michels pela seleção holandesa e não tinha muita experiência em clubes.

A ideia da Federação Holandesa era que Advocaat treinasse o time durante as Eliminatórias e fosse substituído por Johan Cruyff no torneio dos Estados Unidos. Cruyff, naquela época, estava no auge de sua carreira como técnico, no comando do Dream Team do Barcelona, e não chegou a um acordo financeiro com a entidade. “A gente dá risada das razões hoje em dia”, afirmou Gullit, em entrevista ao site Dutch Soccer, em 2013. “Hoje em dia, os treinadores são muito bem pagos. Nos anos noventa, Cruyff queria um salário decente. Ele estava no Barça e exigiu um acordo parecido para aqueles dois meses. E queria escolher sua própria comissão técnica. Claro! Ele não poderia trabalhar com quem não compartilhasse das suas ideias”, disse. Advocaat foi mantido, e Gullit teve que engolir as próprias palavras para tentar jogar a Copa do Mundo.

Advocaat também foi pressionado. Gullit recuperou a boa forma com a camisa da Sampdoria – 17 gols em 41 partidas -, e os torcedores cobraram sua presença na América do Norte. O técnico viajou a Itália para fazer as pazes com uma de suas maiores estrelas. “Não éramos inimigos porque conseguíamos nos entender muito bem. Apenas tínhamos opiniões diferentes sobre as coisas, como a minha posição. Na minha opinião, a seleção holandesa não jogou bem por motivos táticos. Ele entende por que eu não estava feliz”, afirmou, na época.

As arestas foram aparadas, e Gullit foi integrado à preparação da seleção holandesa. Retornou em um amistoso contra a Escócia, que seria sua última partida pelo time nacional. Apenas quatro dias depois desse jogo, às vésperas da viagem para os Estados Unidos, Gullit abandonou a concentração da Holanda, sem confirmar imediatamente o motivo. No entanto, nas semanas anteriores, havia mais uma vez criticado publicamente as táticas de Advocaat.

“Preferia que houvesse um atacante ao meu lado e não atrás de mim. Nosso atual esquema me obriga a correr todo o tempo da direita para a esquerda”, disse Gullit, com 31 anos naquela época, segundo a Folha de S. Paulo. A avaliação do craque era que a seleção holandesa precisava de um estilo de jogo mais cadenciado e seguro para encarar o calor e a umidade dos Estados Unidos. De acordo com o livro Brilliant Orange: The Neurotic Genius of Dutch Football, essa decisão irritou os torcedores, que queimaram perucas de Gullit. “Muitos ainda não o perdoaram”, escreveu o autor. Os companheiros também não ficaram felizes: “Ele escolheu um péssimo momento para sair. Agora o time vai ter que treinar diferente”, disse o capitão Koeman.

Em entrevista ao Dutch Soccer, Gullit detalhou os motivos de sua decisão: realmente teve a ver com o calor, com a influência dos departamentos médicos da Sampdoria e do Milan, para o qual ele retornaria depois da Copa, e por ele não se sentir devidamente valorizado por Advocaat. Independente disso, afirmou que abandonar a seleção holandesa naquele momento foi o maior arrependimento da sua carreira.

“Era minha última chance e eu realmente queria jogar bem”, contou. “Não tenho nada contra Dick. Mas quando eles não perceberam o problema da Flórida (onde a seleção holandesa jogou duas vezes na fase de grupos e é mundialmente conhecida por ser quente para burro)… Eu discuti isso com a comissão técnica e Dick meio que ridicularizou o problema. Ele também estava em dúvida sobre meu papel na equipe. Disse que eu precisava me provar. Questionou se eu ainda era rápido o suficiente para jogar pelas pontas. Eu me senti desrespeitado, não conseguia me motivar, me senti vulnerável. Não queria passar por outro conflito. Mas, olhando a campanha da Copa do Mundo, com um pouco mais de força, poderíamos tê-la vencido. O Brasil não era um time tão bom, nem a Itália”. Nos Estados Unidos, a Holanda passou pela fase de grupos, eliminou a Irlanda nas oitavas de final e foi derrotada na fase seguinte, pelo Brasil.

Gullit tem uma carreira errática como treinador. Seu melhor momento foram os anos em que se dividia como jogador e técnico do Chelsea. Em seguida, tentou trabalhar no Newcastle, no Feyenoord, no Los Angeles Galaxy e no Terek Grozny, da Rússia, antes de dar um tempo para repensar a nova carreira. No fim do último mês de março, havia manifestado a vontade de voltar a trabalhar com a prancheta na mão e se ofereceu para comandar o Aston Villa. O cargo que apareceu foi de assistente do seu antigo desafeto. Agora, pode se redimir dos problemas de 1994 ajudando a seleção a se classificar para a Copa do Mundo.