Breno estava sozinho em casa. Havia recebido a notícia de que teria que passar pela sua quarta operação e bebeu o dia inteiro. Começou com cerveja, mas ela era fraca demais para aplacar a dor que transcendia o seu joelho. Sabia que estava diante de mais uma longa recuperação, e sem jogar futebol, viver na Alemanha era motivo para depressão. O sonho de ser a estrela de um grande clube europeu era o único motivo pelo qual havia saído do Brasil e aceitado enfrentar o frio e as diferenças culturais de outro país. Tomou uma garrafa inteira de vinho antes de abrir o whisky. Pulou da janela, correu pela rua e fez as coisas que os bêbados fazem. Quando pegou uma faca e foi mais uma vez para o lado de fora, a mulher colocou as crianças dentro do carro e encostou na esquina para esperar o marido voltar a si. De repente, dezenas de viaturas de polícia passaram por ela em direção à casa, que pegava fogo. Renata temeu pelo pior. Era cerca de 0h20 e o dia 20 de setembro de 2011 havia acabado de começar.

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O promissor zagueiro brasileiro não se machucou seriamente, mas as consequências daquela madrugada de terça-feira foram devastadoras para a sua carreira. Breno foi condenado por colocar fogo na própria casa e arriscar a vida de outras pessoas que moravam na mesma vila. Após quase três anos de prisão, foi recontratado pelo São Paulo, e, em sua apresentação admitiu que bebeu até ficar inconsciente e mal se lembra do que aconteceu. Sabe que errou, e também tem consciência do quanto ainda precisa percorrer para voltar ao status que tinha antes do incêndio. Por isso, diante desse desafio, outro dia 20 de setembro pode ser marcante para o, acredite, ainda jovem jogador.

Exatamente quatro anos depois daquela noite fatídica, Breno estava novamente caído, mas não fora derrubado pela bebida. Tropeçou no pé de um jogador do Avaí, e a queda não foi amortecida por garrafas vazias no chão da sua casa em Munique. Foi pelo gramado da Ressacada. O corpo vestia novamente a camisa do São Paulo, que o revelou, transformou-o em campeão brasileiro e apostou nele quando o esperado era que todos se afastassem. Pelo clube, cairia e se levantaria quantas vezes fossem necessárias. Acostumado a se reerguer, Breno ficou em pé e dominou a bola. Com esse mesmo toque, driblou a marcação. Ainda deu mais uma ajeitada antes de chutar de canhota e acertar entre as pernas do goleiro Vagner. Foi seu primeiro gol desde aquela pintura contra o Santos, em 15 de setembro de 2007, pouco mais de oito anos atrás.

Serviu também para ratificar a sua volta por cima, e o gol não poderia ter vindo em uma data mais simbólica do que no mesmo dia em que ateou fogo na sua carreira. Breno passou por um inferno nos últimos quatro anos, entre audiências na justiça alemã, noites sem dormir na cadeia e questionamentos, da imprensa, da torcida e dele próprio, se conseguiria voltar a jogar bola em alto nível. Precisava de algum sinal de que as coisas caminhavam para o caminho certo e ele surgiu, por volta das 16h42 do último domingo, em Florianópolis.

A estrada segue tortuosa porque sua condição física ainda é delicada. Breno demorou oito meses para reestrear pelo São Paulo, logo no clássico contra o Corinthians, e disputou apenas mais quatro partidas, contando com a derrota por 2 a 1 para o Avaí. Foram, aliás, os primeiros gols que o time sofreu com ele em campo nesta temporada. O zagueiro virou volante com Osório e protege a frágil defesa do time, golpeada por erros da diretoria na formação do elenco e também por uma filosofia de jogo ofensiva e aberta na qual o colombiano acredita. Pouco a pouco, ganha a confiança do comandante e elogios da comissão técnica.

Bola ele tem de sobra, como mostrou na obra-prima contra o Santos e no gol contra o Avaí, que ele não comemorou como se fosse o último, mas como se fosse o primeiro de uma nova era. Como se estivesse começando a jogar futebol novamente. Ao mesmo tempo, o ponto final do pior capítulo da sua biografia e a primeira letra do parágrafo que abre a sua história de redenção que – e é bom que ele tenha isso muito claro para si – acabou de começar.